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À espera de demarcação no Catimbau, indígenas se abrem ao turismo: "Cansamos de ser invisibilizados"

Dentro de iniciativas do Sebrae-PE de desenvolvimento econômico da região, indígenas kapinawá no Parque Nacional do Catimbau, em Buíque, têm recebido turistas em aldeia

Por Jorge Cosme

Nywá Kapinawá se apresenta como detentor de saberes ancestrais.

"Eu sou franca, não sou muito dessas apresentações. Tenho um pé sempre atrás", diz a coordenadora pedagógica Sandra Juká. A fala se dá dentro de uma oca kapinawá, de paredes de taipa, com árvores nativas e cobertura de palhas de ouricuri. Momentos antes, pessoas de fora que visitavam a Aldeia Malhador, no interior do Parque Nacional do Catimbau, em Buíque, Agreste de Pernambuco, haviam prestigiado uma apresentação do toré, ritual com dança circular e cantos, além de consumo de rapé e jurema.

“Os apagamentos, as invisibilizações, porém, me fazem estar aqui hoje, para poder mostrar a vocês que resistimos”, completa Sandra. O discurso da indígena evidencia a tensão e a busca por formas de resistência entre as mais de 20 aldeias da região.

Os kapinawá estão espalhados pelos municípios de Buíque, Tupanatinga e Ibimirim. Reconhecem-se como descendentes de indígenas de outras etnias, que, em processos migratórios, chegaram à região.

Em 1998, um território kapinawá foi homologado. Porém, muitas aldeias estão fora do perímetro e cobram reconhecimento desde então. "Nós fomos ignorados no processo [de instituição do Catimbau como parque nacional brasileiro, em 2002], como se a gente não existisse ali. São várias aldeias dentro da área em que o parque nacional está sobreposto", completa Sandra.

Mais recentemente, com apoio do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Estado de Pernambuco (Sebrae-PE), os indígenas do Catimbau estão abrindo as portas para turistas, para que conheçam sua cultura, ritos, história e artesanato.

"Nós abraçamos esta causa porque cansamos de viver escondidos", diz Nywá Kapinawá, indígena da Aldeia Malhador. "É uma oportunidade do mundo saber da nossa existência e da nossa história contada por nós mesmos e não por terceiros".

Segundo a gestora de Turismo e Economia Criativa do Sebrae Unidade Agreste Meridional, Gerlane Melo, a abertura dos kapinawá para o turismo tem sido pensada de forma cuidadosa.

"Não é um turismo massificado. É para quem realmente quer conhecer e vivenciar um ritual da aldeia indígena", ela resume.

"Quando nós começamos a criar a rota da ecoaventura e do artesanato, eu pedi para conhecer a Aldeia Malhador", lembra Gerlane. "Eles abriram a primeira vez para gente, eu levei os guias para ter essa vivência e todo mundo ficou encantado", acrescenta.

Há aldeias na região que demonstraram interesse em empreender com artesanato, mas optaram por não receber visitantes.

Gerlane reforça que a iniciativa vai além de um olhar meramente comercial. "É uma forma de gerar renda, mas também de eles contarem a vida que levam, mostrarem que existem".

Cobranças

Segundo Nywá, os kapinawá buscam viver em harmonia com a unidade de conservação. Entretanto, ele diz que a situação atual também gera prejuízos.

"A gente fica um pouco preocupado porque isso nos tira alguns direitos, o direito da caça, de construir uma nova morada", exemplifica.

Para o indígena, parte da população ainda os enxerga como uma "pedra no sapato".

"Nos dias atuais, se a gente for para a cidade caracterizado com nossas vestes, com pintura corporal, por muito somos mal vistos. São poucos para aplaudir nossa história".

Sandra Juká segue refletindo sobre a importância de trazer pessoas de fora para acompanhar os rituais. Teme estar usando das "forças sagradas" para apresentações. Mas, cansada de esperar, tem aceitado a ideia.

"Fomos invisibilizados com a criação do Parque Nacional. Isso nos cansa. Por isso que eu estava ali e é por isso que estou".

 

Ecoturismo

Há décadas o Sebrae-PE desenvolve ações para promover o Vale do Catimbau, como é conhecido o local. Mais recentemente, em uma parceria da unidade estadual com o Sebrae nacional, está previsto um investimento de R$ 4 milhões para promoção de melhorias nos pequenos negócios e no fortalecimento do destino, considerado o segundo maior parque arqueológico do Brasil.

O projeto pretende ampliar o fluxo de visitantes, gerar renda e consolidar a região como um dos principais polos de ecoturismo nacional. As ações devem ser executadas até o final de 2027.

Localizado a cerca de 280 km do Recife, o Parque Nacional do Catimbau tem aproximadamente 62,3 mil hectares e foi instituído pelo decreto de 13 de dezembro de 2002.

A reportagem procurou a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) para questionar sobre a situação de reconhecimento de territórios kapinawá, mas não obteve resposta até a publicação.

A reportagem visitou o Parque Nacional do Catimbau a convite do Sebrae-PE.