Entre medos, descobertas e sonhos: o caminho de quem espera um filho
Dia da Gestante: histórias de mães mostram os desafios da gravidez e a importância do pré-natal para garantir segurança à mãe e ao bebê
A gravidez pode começar com um teste positivo inesperado, depois de anos sem imaginar uma nova gestação, ou nascer de um desejo planejado. Pode vir também acompanhada de outros sentimentos, como ansiedade e medo, e, em alguns casos, de condições de saúde, como hipertensão, diabetes ou outras complicações. Também pode ser marcada pela expectativa de conhecer o rosto de um filho que ainda está na barriga.
Neste sábado (15), Dia da Gestante, histórias de mulheres acompanhadas no Hospital da Mulher do Recife mostram que, apesar de cada gravidez ser única, informação, acolhimento e acompanhamento médico são pontos comuns para atravessar os nove meses com mais segurança.
Aos 32 anos, a analista financeira Priscila Borges está com 35 semanas e espera Antony. Mãe de dois filhos, de 14 e 10 anos, ela não planejava uma nova gestação. Antes de engravidar, havia enfrentado três abortos e, no ano passado, passou por um período de estresse relacionado ao trabalho, com crises de ansiedade, dores de cabeça e pressão alta.
A gravidez, descoberta durante uma mudança de emprego, trouxe de volta o medo de passar por situações anteriores. “Eu já vinha com medo dos abortos que eu tinha tido no passado, mais nova. E hoje, descobri a gravidez aos 32 anos. Já tinha aquele medo do aborto, medo de passar por todo aquele trauma novamente”, conta.
O acompanhamento no hospital se tornou parte importante desse processo. Além da obstetra, Priscila teve atendimento com psicóloga e neurologista. As crises de ansiedade e os sintomas de pressão foram acompanhados enquanto ela buscava uma solução para a situação profissional que enfrentava.
“Eu vinha muito desesperada, realmente pedindo socorro a toda a equipe do hospital. Eu não aguentava trabalhar, era um fardo”, lembra. Com o suporte recebido, ela conseguiu deixar a empresa e afirma que percebeu mudanças no próprio estado emocional. “Eu tive uma equipe médica para dizer: ‘não, você não está sozinha’.”
Agora, perto de conhecer Antony, Priscila também enfrenta o acompanhamento relacionado à glicose, após alterações que levaram à investigação de diabetes gestacional. O que poderia representar mais uma fonte de preocupação, segundo ela, foi tratado com orientação. “Todas as fases em que apareceu alguma situação que eu tive que saber lidar, eu não precisei me preocupar porque eu não estava sozinha.”
Uma gravidez planejada e um susto no caminho
Para a confeiteira Jéssica Fernanda, de 22 anos, a história foi diferente. A gravidez foi planejada e a expectativa era grande para a chegada de Maya. Com 32 semanas e dois dias, porém, ela precisou ser internada após apresentar um quadro de pré-eclâmpsia.
Jéssica conta que não sabia que tinha hipertensão crônica antes da gravidez. O diagnóstico durante a gestação trouxe preocupação, principalmente depois que recebeu a informação de que poderia precisar permanecer no hospital até o nascimento da filha.
“Quando falaram que eu ia ter que ficar aqui até ela nascer, eu fiquei desesperada. Mas como o meu quadro mudou, a pressão estabilizou e os médicos disseram que eu poderia ir para casa, fiquei mais tranquila”, relata.
A experiência também mostrou para ela a importância do cuidado contínuo. “Eu estou até surpreendida. As enfermeiras são bem atenciosas, vêm sempre aqui, escutam o coração do bebê e medem a nossa pressão.”
Pré-natal começa cedo
Para a obstetra Helaine Rosenthal, o cuidado deve começar assim que a gravidez é descoberta, ou até antes, quando possível. O acompanhamento permite identificar doenças já existentes, alterações que surgem durante a gestação e fatores que podem transformar uma gravidez de risco habitual em uma gestação de alto risco.
“Assim que ela descobre a gravidez, já deve fazer o pré-natal. Quanto mais precoce, melhor”, orienta.
Segundo a médica, a primeira consulta é usada para conhecer o histórico da gestante, avaliar doenças anteriores, antecedentes familiares, hábitos de vida, condições sociais, pressão arterial, peso e outros aspectos da saúde. A partir daí, são solicitados exames e definido o acompanhamento necessário.
Em uma gestação de risco habitual, Helaine explica que as consultas costumam ser mensais até 28 semanas, passam a ser quinzenais até cerca de 36 semanas e, depois, tornam-se semanais até o parto. Nos casos de alto risco, a frequência é definida de acordo com a condição de cada paciente.
“O pré-natal não acaba. O pré-natal só acaba no momento do parto. E a gente tem ainda o acompanhamento pós-parto”, pontua.
Entre os sinais que exigem atenção estão sangramentos, perda de líquido, dores abdominais persistentes e contrações. Já no fim da gravidez, dor de cabeça intensa, alterações na visão e outros sintomas relacionados à pressão devem levar a gestante a procurar atendimento.
“Uma hipertensão que ela não teve durante os nove meses pode aparecer no momento do parto ou semanas antes. Então, são sintomas que ela precisa procurar realmente uma urgência”, alerta a médica.
A médica também chama atenção para alimentação, atividade física e uso de medicamentos. O ácido fólico é recomendado desde antes da gravidez, quando ela é planejada, e no início da gestação. A reposição de ferro também é importante, enquanto outros suplementos devem ser avaliados individualmente.
“Quanto menos, melhor. Principalmente nessa fase da formação da criança”, afirma, ressaltando que medicamentos e suplementos não devem ser usados por conta própria.
Cuidar também é acolher
No Hospital da Mulher do Recife, o acompanhamento de gestantes de alto risco envolve uma equipe multiprofissional. Segundo a diretora-geral da unidade, Ana Karla Goes, o Dia da Gestante é um momento importante para reforçar a valorização desse cuidado e da própria experiência da maternidade.
“É um dia para celebrar a gestante, reconhecer a importância desse período e reforçar o quanto ela precisa ser acolhida e cuidada em todas as etapas da gestação”, afirma. A gestação, segundo ela, envolve transformações físicas e emocionais que exigem atenção contínua e uma rede de apoio estruturada.
A unidade recebe mulheres encaminhadas pela regulação municipal e acompanha casos como hipertensão, diabetes, gravidez gemelar e doenças autoimunes. “Quanto mais cedo você iniciar, você vai poder descobrir se já tem alguma doença pré-existente ou se está desenvolvendo outra”, explica.
Para ampliar esse cuidado, o hospital implantou em março deste ano o projeto de navegação da gestante. A iniciativa tem como objetivo acompanhar a mulher de forma mais próxima ao longo do pré-natal, ajudando a reduzir barreiras como dificuldade de transporte, distância, faltas a consultas ou necessidade de encaminhamentos para outros serviços.
A enfermeira navegadora Flávia Melo é quem realiza esse acompanhamento direto. Ela atua como um ponto de apoio entre a gestante e a rede de saúde, monitorando consultas, exames e necessidades individuais de cada paciente. “A gente acompanha essa gestante desde o início do pré-natal até o momento do parto, ajudando a organizar o fluxo de atendimento e garantindo que ela não fique desassistida”, explica.
Na prática, o trabalho inclui contato ativo com as pacientes, busca quando há faltas em consultas e articulação com outros profissionais da rede. Entre janeiro e junho, foram cadastradas 1.346 gestantes e realizados 2.029 atendimentos dentro da estratégia.
“A gente tenta, no máximo, acalmá-la e resolver as dificuldades que aparecem no caminho. Por isso a importância da navegação, que é esse acompanhamento mais próximo e contínuo”, afirma Flávia.
O hospital também oferece acompanhamento odontológico, orientação sobre amamentação e visitas de vinculação à maternidade no fim da gestação. A proposta é que a mulher conheça o espaço onde poderá ter o bebê e saiba quais serviços estarão disponíveis para ela e para a criança.
O parto que não precisa ser perfeito
Existe também um lado da gravidez que nem sempre aparece nas fotografias ou nas expectativas criadas antes do nascimento, mas citada por váris gestante: o medo. A mulher pode idealizar o parto, a amamentação e as mudanças no corpo, mas a experiência real pode ser diferente.
Por isso, informação e apoio são importantes desde o pré-natal. A orientação também se estende à amamentação. No Hospital da Mulher, as gestantes participam de atividades com o Banco de Leite para conhecer os primeiros momentos após o nascimento, os sinais de fome do bebê, a pega correta e o que esperar dos primeiros dias.
Para a diretora-geral Ana Karla, esse conjunto de ações reforça o sentido do Dia da Gestante. “A importância dessa data é trazer esse olhar para os cuidados com essa mulher durante a gestação, seja uma gestação de risco habitual ou de alto risco”, afirma. “É também um momento de reconhecimento, de valorização e de celebração da vida que está sendo gerada.”
Cada nascimento, segundo ela, é único. “Cada bebê que nasce, cada um é uma história diferente. A gente comemora a vida.”
E é justamente isso que Priscila espera levar para casa quando Antony nascer: a lembrança de que, mesmo diante dos medos, ela não precisou atravessar a gestação sozinha. “Todas as minhas dúvidas foram sanadas. Eu não me senti, em nenhum momento, intimidada.”
Jéssica também conta os dias para conhecer Maia. Depois do susto provocado pela pré-eclâmpsia, a expectativa agora é pelo encontro.