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Violência contra a mulher ultrapassa a agressão e muda vida de famílias inteiras

No Agosto Lilás, relatos de famílias e sobreviventes mostram que a violência contra a mulher ultrapassa a agressão e permanece na vida de quem convive com a perda, as sequelas e a memória do medo

Por Adelmo Lucena

Por trás de cada caso de violência doméstica, há familiares que também enfrentam dor, medo e consequências

A violência contra a mulher não termina após a agressão e permanece na mãe que se pergunta por que não percebeu os sinais, no filho que cresceu com uma sequela física e na criança que aprendeu a se esconder dentro de casa para fugir da violência. Neste Agosto Lilás, histórias como as de Renata Alves e Maristela Just ajudam a dimensionar um problema que, em Pernambuco, matou 88 mulheres em 2025.

O número, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, representa um aumento de 14% em relação aos 77 feminicídios registrados no estado em 2024. É também a maior quantidade de casos registrada em Pernambuco desde 2017, quando o crime passou a ter classificação específica nas estatísticas de mortes violentas. A média de 2025 equivale a uma mulher assassinada a cada quatro dias. Por trás de cada registro existem famílias que tentam reconstruir a vida.

O silêncio das agressões sofridas por Renata Alves

Para Kátia Alves, mãe de Renata Alves Costa, a lembrança do relacionamento da filha é acompanhada pelo silêncio das agressões vividas pela vítima, que nunca foram percebidas.

Renata tinha 35 anos quando foi assassinada, em 6 de agosto de 2022, dentro do apartamento onde morava, em Campo Grande, na Zona Norte do Recife. O namorado, o psicólogo João Raimundo Vieira da Silva de Araújo, foi condenado em fevereiro de 2026 a 71 anos, 2 meses e 26 dias de prisão.

Renata e João Raimundo estavam juntos havia cerca de oito meses e passaram a morar no mesmo apartamento em 28 de março daquele ano. As últimas imagens da vítima mostram os dois entrando no elevador. Três dias depois do assassinato, ele foi preso no aeroporto de Natal, quando tentava embarcar para São Paulo.

A investigação da Polícia Civil apontou que a violência já fazia parte da relação e, segundo os investigadores, João Raimundo praticava violência física, doméstica e psicológica contra Renata. Ele teria escondido dela o uso de tornozeleira eletrônica, afirmava ser médico e mantinha armas dentro de casa.

Quando Renata descobria as mentiras, ainda segundo a investigação, ele recorria à chantagem emocional. No apartamento onde os dois moravam, foram encontradas quase 200 munições.

Na época do assassinato de Renata, ele usava tornozeleira eletrônica e o equipamento foi retirado pouco antes da tentativa de fuga. O acusado também chegou a trabalhar como psicólogo do Tribunal de Justiça da Paraíba, atuando no Juizado de Violência Doméstica e Familiar.

Para a mãe de Renata, alguns comportamentos só ganharam outro significado depois da morte. “Ela não ia a lugar nenhum com ele junto com a família e amigas. Ela dizia que não queria uma relação séria com ele, por isso não o apresentava à família. Eu só o vi uma vez, no aniversário dela.”

Para Kátia, o sentimento de ter perdido a filha para o feminicídio é de culpa. “Fica a nossa não percepção do que ela estava passando, a culpa por não termos percebido e tomado alguma atitude que pudesse salvá-la. E a falta eterna dela que sentimos todos os dias até a nossa morte.”

A mãe commplementa: “Oriento que as mulheres que estejam passando por um relacionamento abusivo não deixem chegar ao ponto de não ter mais jeito, que saiam o mais rápido possível do relacionamento antes de não conseguirem mais. Alerto que as famílias e amigos que desconfiarem que alguma parente ou amiga esteja sofrendo violência do companheiro não acreditem no que ela diz e que invadam a privacidade da mesma e tentem tirá-la da situação. Sei que não é fácil, mas é possível”.

O caso de Renata mostra que nem sempre a violência aparece de maneira que possa ser reconhecida por quem está fora da relação. Mas há casos em que a violência atinge diretamente os filhos e deixa marcas que atravessam décadas.

A criança que presenciou o assassinato da mãe

Em 4 de abril de 1989, Zaldo Magalhães Just Neto tinha dois anos. A mãe dele, Maristela Ferreira Just, foi assassinada pelo ex-marido, José Ramos Lopes Neto. O crime aconteceu na casa dos pais de Maristela, onde ela morava depois da separação e, segundo o processo, José invadiu o imóvel e se trancou em um quarto com a ex-esposa e os dois filhos.

Maristela foi morta a tiros, Zaldo foi atingido na cabeça e a irmã dele, Natália, então com 4 anos, levou um tiro no ombro. O irmão de Maristela, Ulisses Ferreira Just, também foi baleado quando tentou socorrer a irmã e os sobrinhos. Zaldo sobreviveu, mas ficou com sequelas permanentes no lado esquerdo do corpo e Natália se recuperou após tratamento fisioterapêutico.

A Justiça demorou mais de duas décadas para concluir o processo e em 2 de junho de 2010, José Ramos Lopes Neto foi condenado a 79 anos de prisão pelo homicídio de Maristela e pelas tentativas de homicídio contra os filhos e o ex-cunhado.

A prisão só aconteceu em outubro de 2021, quando o condenado foi localizado pelo Grupo de Operações Especiais durante uma visita a familiares no Espinheiro, na Zona Norte do Recife.

Trinta e sete anos depois do crime, Zaldo lançou o livro autobiográfico “Além das Cicatrizes”, no qual reúne lembranças da infância, as consequências físicas do tiro, episódios de bullying, tratamentos médicos e a espera da família pelo julgamento.

Voltar aos documentos significou também se deparar novamente com imagens da mãe morta. “Foi muito doloroso fazer e viver isso, pegar os laudos da época. Ver no processo que eu fui pesquisar para escrever. Tem a foto da biópsia da minha mãe morta. Então, foi muito dolorosa toda essa questão, mas também foi muita superação graças à família que nos criou.”

A família também precisou lidar com o conflito provocado pela disputa judicial e com o medo de possíveis ameaças. O que aconteceu na infância também passou a fazer parte do trabalho de Zaldo como escritor. No livro, ele aborda bullying, apelidos, legislação, estatísticas de feminicídio e a criação do Centro de Referência da Mulher Maristela Just, em Jaboatão dos Guararapes, que leva o nome da mãe.

“Trago todo o meu desenvolvimento escolar, toda a minha vivência em tempo de colégio. Abordo questões dos apelidos e uma visibilidade à questão do bullying e a lei que fala sobre o assunto”, complementa.

Segundo Zaldo, o livro também foi um desafio que o ajudou no processo de superação. “Graças ao apoio familiar que a gente teve. Sempre que a gente precisava, fosse em qualquer circunstância, a família estava perto. Então, lógico, como eu também digo, né, naquele 4 de abril de 1989 eu perdi minha mãe, consequentemente também meu pai. Ganhei a sequela física.”

O menino que aprendeu a reconhecer o medo

A violência doméstica também pode produzir marcas em quem não é a vítima direta da agressão. Foi o que aconteceu com o juiz Francisco Tojal. Ele nasceu em Aracaju e cresceu em uma família de classe média e na infância conheceu o medo dentro de casa e aprendeu a antecipar, pelos sons e pelos passos, o que poderia acontecer.

“Troquei as brincadeiras pelo isolamento, o sorriso pelas lágrimas, e perdi as contas de quantas vezes me escondi dentro da minha própria casa, em silêncio no quarto escuro, tentando adivinhar pelos passos no corredor o que vinha depois. As marcas físicas sumiram, mas a memória ficou.”

O estudo foi a maneira encontrada para construir uma trajetória diferente e, aos 12 anos, ao observar livros de Direito nas prateleiras de um supermercado que frequentava com a mãe, decidiu que seria juiz. Quase duas décadas depois de formado em Direito, Tojal diz que a experiência pessoal interfere diretamente na maneira como recebe pessoas que chegam ao Judiciário em situação de violência.

“Hoje, com quase 20 anos de formado em Direito, entendo que sou um homem que escolheu ser filho do amor, e não apenas da violência. A minha história me impede de olhar para a dor do outro de forma automática.”

Para ele, a violência doméstica não pode ser compreendida somente a partir do momento em que uma agressão física acontece. “Mais do que um episódio físico isolado, o que marca quem vive a violência doméstica é a dinâmica do medo. É a rotina de tentar prever a tempestade antes que ela desabe. Isso me ensinou muito cedo que a violência em casa é a mais perversa de todas, porque destrói o único lugar no mundo onde o ser humano deveria se sentir seguro: o seu próprio lar.”

Atualmente, a experiência também influencia a forma como ele entende a atuação da Justiça. “Por isso, eu costumo dizer que a lei não pode ser um fim em si mesma. Ela precisa estar à serviço da humanidade. E essa é a justiça em que eu acredito. Meu propósito é interromper ciclos de violência com o que insiste em ser humano.”

Sinais de alerta

O magistrado também cita situações que podem ser confundidas com ciúme ou preocupação, mas que representam tentativas de limitar a autonomia da mulher. “É quando o parceiro afasta a mulher dos amigos, da família, desestimula a sua independência financeira, controla quem ela segue nas redes sociais e faz ela duvidar até da sua própria voz. É o controle disfarçado de cuidado.”

No caso de Renata, a mãe conta que a filha não costumava apresentar o namorado à família e evitava sair com ele na presença de parentes e amigas. Em outros casos, os sinais podem aparecer de maneiras diferentes, mas o ponto em comum é que comportamentos de controle podem anteceder agressões mais graves.