° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Praia Del Chifre, em Olinda, sofre com acúmulo de lixo e resíduos hospitalares

Resíduos hospitalares, plásticos e microplásticos se acumulam na faixa de areia. Degradação ambiental também pode influenciar o comportamento dos tubarões

Por Adelmo Lucena

Plásticos, embalagens, entulhos e outros resíduos se acumulam entre as pedras e a faixa de areia da Praia Del Chifre, em Olinda

Garrafas plásticas, embalagens, restos de entulho, microplásticos e até resíduos hospitalares fazem parte do cenário encontrado com frequência na Praia Del Chifre, em Olinda. A faixa de areia, localizada entre o estuário do Rio Beberibe e o mar, recebe diariamente lixo transportado pelas correntes e pelos rios que deságuam na região, transformando um dos principais pontos de ocorrência de incidentes com tubarão em Pernambuco também em um ambiente de poluição costeira.

A equipe do Diario de Pernambuco esteve no local e verificou que o lixo se acumula na areia, formando uma extensa faixa de resíduos composta, principalmente, por embalagens plásticas, copos descartáveis, garrafas, sacolas e outros materiais levados pela água.

Segundo a educadora ambiental e discente em Ciências Biológicas Munick Castanha, o que chega à praia não é apenas lixo doméstico.

“Os principais tipos de resíduos que a gente encontra em Del Chifre são hospitalares. A gente já encontrou ampolas com sangue e urina, canetas emagrecedoras, seringas de insulina, principalmente, e encontra muito, muito plástico. Microplásticos, plásticos de garrafas PET. A gente já encontrou até, inclusive, uma garrafa de água da Coreia."

Ela explica que é impossível determinar a origem exata dos resíduos, já que a praia recebe materiais carregados tanto pelas correntes marítimas quanto pelos rios da Região Metropolitana do Recife.

“A gente tem uma influência muito forte das marés e dos rios na praia, principalmente dos rios Capibaribe e Beberibe, que trazem resíduos por conta do descarte irregular. O pessoal descarta o lixo de forma incorreta, ele acaba entrando nos canais, chegando aos rios e desaguando em Del Chifre. Então, Del Chifre é diretamente impactada. São vários municípios envolvidos, e é impossível identificar exatamente de onde esses resíduos vêm."

De acordo com Munick, o cenário piora durante o inverno. “A chegada desses materiais começa a se agravar e a ficar mais constante e em maior quantidade a partir do mês de maio, no período chuvoso. O verão costuma ser mais tranquilo, mas, mesmo assim, ainda é muito poluído”, diz.

Impacto sobre os tubarões

Além dos impactos ambientais, a poluição também pode afetar diretamente os tubarões que habitam a região. O engenheiro de pesca e coordenador do projeto Ecotuba, Paulo Oliveira, explica que a degradação da qualidade da água interfere na saúde dos animais e pode alterar seu comportamento.

“Quando o animal está em um local poluído, essa poluição acaba alterando a sua fisiologia de forma direta, porque ele está em contato direto com essa água e com esses resíduos”, afirma.

Segundo ele, a redução da oferta de alimento provocada pela poluição obriga os tubarões a percorrer distâncias maiores.

“Se tem muito lixo, muito plástico e muita poluição, vai ter menos organismos que servem de alimento para esses tubarões. Então, eles vão ter que nadar mais, percorrer uma área maior em busca do alimento”, explica.

Essa mudança de comportamento pode aumentar as chances de encontro entre tubarões e banhistas. “Quanto mais resíduos na água, menor a quantidade de alimento. Logo, esses animais vão ter que nadar por uma área maior. Consequentemente, também ampliam a probabilidade de encontro entre o animal e o ser humano."

“Os tubarões podem estar ingerindo esses resíduos de forma acidental. O plástico permanece no estômago do animal e seus componentes acabam alterando a fisiologia dele. É uma qualidade de água muito ruim para os animais de maneira geral”, afirma.

Apesar da relação apontada pelo especialista entre a degradação ambiental e o comportamento dos tubarões, não há comprovação de que a poluição, isoladamente, seja responsável pelos incidentes registrados na região, que envolvem diversos fatores ambientais e biológicos.

Em janeiro deste ano, um menino de 13 anos morreu após ser mordido por um tubarão em janeiro. O caso foi o sexto incidente registrado na praia, que concentra todas as ocorrências envolvendo tubarões notificadas em Olinda.

O que pode ser feito

Para Munick Castanha, reduzir a poluição exige um conjunto de ações permanentes. “Na minha opinião, o mais urgente seria a implantação de ecobarreiras. Mas é um trabalho coletivo, que também envolve uma gestão efetiva dos resíduos sólidos, fortalecimento da educação ambiental e fiscalização do descarte irregular. Não adianta investir em ecobarreiras se a população continuar descartando lixo de forma incorreta”, defende.

Ela também ressalta a necessidade de ampliar a coleta de resíduos e tornar o serviço mais eficiente para minimizar os impactos ambientais.

O que diz a Prefeitura de Olinda

A Secretaria de Gestão Urbana de Olinda informou que realiza, de forma sistemática, a retirada de lixo e entulhos da Praia Del Chifre. Segundo a pasta, grande parte dos resíduos chega à área transportada pela correnteza a partir da Bacia do Pina, formada pelos rios Tejipió, Pina e Jordão, especialmente após o período mais intenso de chuvas.

A prefeitura acrescentou que promove mutirões em parceria com a Secretaria de Meio Ambiente para recolher os resíduos sólidos acumulados ao longo do litoral do município.