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Sem uso há 15 anos, Chalés do Carmo seguem sem prazo para reabertura em Olinda

Projetos técnicos de arquitetura e engenharia estão em elaboração, segundo a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco. Planejamento prevê alocação de uma filial do Conservatório Pernambucano de Música nos imóveis

Por Guto Moraes e Nicolle Gomes

Cada casa tem o nome de uma das filhas do ex-morador

 Os “Chalés do Carmo”, imóveis tombados da avenida Sigismundo Gonçalves, no Sítio Histórico de Olinda, continuam sem previsão para receber o Centro de Difusão do Carnaval. A informação foi apurada pelo Diario nesta terça-feira (28). A criação da filial do Conservatório Pernambucano de Música foi anunciada pelo Governo de Pernambuco, há um ano, em julho de 2025.

As quatro estruturas, com fachada geminada e enfileiradas, foram construídas no século XIX e se tornaram referências da arquitetura eclética luso-brasileira nas proximidades da Praça do Carmo. Hoje, sem manutenção contínua, acumulam anos de desgaste. Ali, o romantismo dos arcos ogivais, platibandas e medalhões ornamentais cedeu lugar à hostilidade, seja pelos novos adornos de arame farpado concertina ou pelo concreto dos muros improvisados.

Desapropriados pelo Estado em 1977, os chalés estão oficialmente sem uso desde 2011, quando sediaram a edição pernambucana da CasaCor, segundo a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe). No entanto, a vizinhança afirma que o complexo arquitetônico abriga anualmente um centro de coleta para a reciclagem, para onde é destinado o material recolhido da cidade patrimônio ao longo do Carnaval de Olinda.

Etapa dos projetos técnicos

Anunciado pelo Governo do Estado em julho de 2025, o plano de recuperação dos chalés concluiu, em setembro do mesmo ano, a licitação para a elaboração dos projetos técnicos de arquitetura e engenharia. Os projetos devem ser finalizados até o fim do ano, segundo a Fundarpe.

Essa fase está orçada em R$ 391.337,57, valor obtido via PAC Seleções em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Os valores referentes ao custo total das obras de restauração e adequação estrutural não foram detalhados.
Em nota enviada à reportagem, a Fundarpe destacou que os estudos técnicos vão contemplar intervenções de acessibilidade, requalificação acústica e climatização para abrigar os instrumentos musicais.

O projeto prevê ainda a criação de um espaço museográfico no corredor de integração entre os quatro imóveis, resgatando a memória do conjunto arquitetônico e a história do próprio Conservatório.

Apesar do avanço no detalhamento dos projetos, o órgão estadual não apresentou uma data ou cronograma oficial para o lançamento do edital da obra e a posterior entrega do equipamento.

 

 

A vizinhança

“Antes essas casas eram abertas ao público, mas, depois de um tempo, foram abandonadas. As pessoas invadiam e roubavam, ficou uma coisa horrível para a própria população”, relata a nutricionista Mônica de Paula Machado, 57 anos, moradora do bairro que passava pelo local. “A gente se sente inseguro, assustado.” A vulnerabilidade do patrimônio obrigou o governo do estado a implementar equipes de vigilância 24 horas.

O empresário Fernando Ribeiro, 70, é proprietário de um estabelecimento comercial ao lado do casario. Para ele, a burocracia dos tombamentos é o principal adversário da requalificação. “A dificuldade deste ou de qualquer outro casarão na área é o Iphan, que coloca uma pedra em cima. São mil casas abandonadas aqui dentro. Olinda está virando um cemitério. Esse visual aqui é péssimo. Os turistas chegam, andam pelas ruas e eu fico com vergonha do que a cidade oferece”, reclama.
Provocado sobre o impacto do abandono para o seu negócio é categórico: “Se melhora aqui, melhora para todo mundo. Não apenas para mim.”

Testemunhas dos chalés

Desde criança, o pescador Fernando Antônio, 65, reside próximo aos casarões. No passado, adiciona ele, os imóveis contavam com escadas para a faixa de areia da Praia do Carmo, extinta pelo avanço do mar. Um dos guardiões do lugar, Fernando avalia que a segurança só foi implantada, no local, após a repercussão midiática. “Quando estava abandonado, as pessoas começaram a invadir e levar portas, janelas. Eles arrancaram tudo. Era a gente que chamava a polícia ou a guarda municipal.”

O vizinho lembra todos os usos dados aos imóveis nas últimas décadas, inclusive sua época residencial, quando era amigo das filhas dos, então, proprietários. “Quando elas viram esse estrago aí, choraram”, conta, ao recordar a visita das antigas moradoras três anos atrás. Ao longo do tempo, atesta, o complexo já abrigou um colégio em um dos imóveis, o Instituto Nossa Senhora dos Milagres, nos anos 1960; outro, foi a Pensão Olinda. O Fórum de Olinda e a Casa da Cidadania também integram o histórico.

“Infelizmente, nada deu certo até hoje”, lamenta o morador, que enumera os residentes de um passado remoto e já não recorda o nome de cada imóvel. Em homenagem às filhas do comerciante João Fernandes de Almeida , elas se chamam Julieta, Beatriz, Zulmira e Cecília Os registros podem ser conferidos em suas fachadas posteriores. “Hoje está mais tranquilo porque tem ‘vigia’ e, também, porque não tem mais o que levar”, conclui o pescador.