° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Criminosos utilizavam site de investimentos para aplicar golpes milionários, diz Polícia Civil

Operação Mirage prendeu 13 suspeitos que atuavam em um call center no Recife. Grupo simulava aplicações em criptomoedas e bolsa de valores por meio da plataforma Aglobal Traed

Por Cadu Silva

Coletiva da Operação Mirage

Criminosos utilizavam um site falso de investimentos para convencer vítimas a aplicar altas quantias em supostas operações financeiras e, depois, impedir qualquer resgate do dinheiro. O esquema foi desarticulado pela Polícia Civil de Pernambuco durante a Operação Mirage, que resultou na prisão em flagrante de 13 pessoas. Os detalhes foram apresentados nesta terça-feira (21), durante coletiva.

Segundo a corporação, os suspeitos atuavam em um call center instalado em um empresarial na Avenida Agamenon Magalhães, no Recife, de onde aplicavam golpes em vítimas de diversos estados do país por meio da plataforma Aglobal Trade, que, conforme a investigação, não possuía CNPJ.

As investigações começaram em 2024, após uma vítima procurar a Delegacia de Repressão ao Estelionato (DRE) informando ter perdido mais de R$ 1,5 milhão. Ao longo da apuração, a polícia identificou outras vítimas, entre elas uma que teve o prejuízo de aproximadamente R$ 800 mil.

Segundo a delegada Viviane Arruda, responsável pela investigação, a fraude possuía uma estrutura sofisticada e simulava todas as etapas de um investimento verdadeiro.

“Era uma fraude em que você simulava todo um painel de investimento financeiro, onde a pessoa acreditava que abriu uma conta desse investimento financeiro e acreditava que estava vendo esse sistema financeiro. Realmente dava aquela aparência de que estava fazendo um investimento nos locais corretos”, afirmou.

As vítimas recebiam login e senha para acessar uma plataforma que reproduzia gráficos, rendimentos e movimentações semelhantes aos de aplicações legítimas em criptomoedas, bolsa de valores e outros ativos financeiros. Conforme a polícia, nada estava conectado ao mercado financeiro, todo o sistema era criado apenas para convencer as vítimas a continuar fazendo depósitos.

Estrutura funcionava como uma empresa

Durante o cumprimento de sete mandados de busca e apreensão expedidos pela 17ª Vara Criminal da Capital, os policiais localizaram o escritório onde funcionava o esquema. No momento da abordagem, os 13 suspeitos estavam trabalhando.

“No momento em que chegamos, eles estavam em plena atividade aplicando os golpes”, destacou a delegada.

No local foram apreendidos computadores, notebooks, celulares e outros vestígios digitais que serão submetidos à perícia.

A estrutura chamou a atenção dos investigadores. Apesar de funcionar como um call center, o escritório não possuía qualquer identificação na porta nem no quadro de empresas do empresarial. Também não havia contratos ou documentos que demonstrassem uma atividade comercial regular.

A sala era revestida com isolamento acústico e possuía um quadro com metas mensais de arrecadação. Segundo a polícia, a organização tinha uma meta mensal de US$ 800 mil, o equivalente a cerca de R$ 4 milhões, com os golpes.

Os policiais ainda encontraram diversas anotações manuscritas utilizadas para orientar os operadores durante as conversas com as vítimas. Entre elas havia instruções para criar vínculo de confiança, abordar temas do cotidiano, comentar assuntos internacionais, como a guerra na Ucrânia, e desenvolver histórias capazes de convencer as pessoas a investir.

“Era um treinamento para que eles criassem uma relação de confiança com quem estava do outro lado da conversa”, explicou Viviane Arruda.

 

Pequenos resgates aumentavam a confiança

De acordo com a investigação, a estratégia do grupo incluía permitir pequenos resgates para convencer as vítimas de que os investimentos eram reais.Uma das pessoas que perdeu mais de R$ 1,5 milhão conseguiu sacar cerca de R$ 10 mil e, posteriormente, aproximadamente R$ 17 mil. Segundo a polícia, o dinheiro devolvido era parte do próprio valor investido e servia apenas para estimular novos depósitos.

Depois, quando a vítima tentava retirar uma quantia maior, era informada de que havia cometido um erro na plataforma, perdido o investimento ou precisava realizar novos aportes para recuperar os valores.

A delegada relatou que, em um dos casos, foi necessária a intervenção da própria família e da Polícia Civil para convencer a vítima de que estava sendo alvo de um golpe.

Empresa acumulava denúncias

Segundo a Polícia Civil, a plataforma utilizada pelos criminosos se apresentava como Aglobal Trade. A investigação aponta que a empresa não possuía CNPJ e acumulava dezenas de boletins de ocorrência registrados em diferentes estados, além de reclamações de vítimas na internet relatando dificuldades para sacar os valores investidos.

Conforme a polícia, quando uma plataforma começava a receber denúncias, o grupo criava outra página semelhante para continuar aplicando os golpes.

A facilidade para desenvolver novos sites também contribuía para a continuidade do esquema. “Hoje, com ferramentas de inteligência artificial, ficou muito fácil criar uma plataforma. Quando uma era descoberta, eles criavam outra e continuavam atuando”, afirmou Viviane Arruda.

Durante a operação, os investigadores encontraram documentos indicando que o grupo pretendia transferir parte da estrutura para o México. Segundo a polícia, havia reservas de passagens e hospedagem que apontavam para a mudança da base de atuação.

Os investigadores ainda apuram quem comandava toda a organização. Embora pessoas em posição de liderança estivessem entre os presos, a Polícia Civil acredita que outros integrantes participavam do esquema e segue analisando os equipamentos apreendidos para identificar os responsáveis.

Os 13 suspeitos presos em flagrante tiveram as prisões convertidas em preventivas e permanecem à disposição da Justiça. A expectativa da Polícia Civil é que novas vítimas procurem a corporação após a divulgação da operação, já que os golpes eram praticados em diferentes estados do país.