"Andava com ursinho", diz psicóloga que atendeu no Recife mulher que fingiu ter 12 anos
Amanda Maria Souza de Oliveira, que se apresentava como Gabrielly Souza de Oliveira, foi acolhida em equipamentos do Recife em 2023
Uma psicóloga que integrava a rede socioassistencial do Recife e atendeu em 2023 a cearense Amanda Maria Souza de Oliveira, mulher de 38 anos que está presa após afirmar ter 12 anos, diz que a equipe não acreditou em momento algum na versão de que ela seria menor de idade. "Ela demonstrava comportamento pueril na expressão corporal, voz infantilizada, mas a gente percebia traços de uma mulher adulta”, lembra.
Segundo a psicóloga, que não quis se identificar, os profissionais notavam uma encenação no comportamento da mulher. "A gente percebia que tinha um teatro ali, não era algo muito genuíno ou natural".
O Diario de Pernambuco noticiou com exclusividade que Amanda Maria Souza de Oliveira foi acolhida em ao menos três equipamentos da rede socioassistencial da Prefeitura do Recife em 2023, quando já tinha 35 anos. Na época, ela já dizia ter 12 anos e chegou a ficar em um abrigo para adolescentes.
"Ela ficava com um ursinho embaixo do braço. Falava que tinha sofrido abuso sexual e que tinha agulhas pelo corpo dela", diz a psicóloga ouvida pelo Diario.
Há registros de que a mulher se passou por menina em Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Goiás e Ceará.
Em setembro de 2023, meses após estar no Recife, ela deu entrada em um hospital infantil de Florianópolis-SC, ocasião em que os médicos encontraram várias agulhas no corpo dela. Antes, em 2017, ela foi acolhida em uma casa de apoio em Belo Horizonte-MG, com cerca de 200 ferimentos causados por agulha.
Documentação
Segundo a psicóloga, Amanda não tinha documentos e agia de forma escorregadia quando era abordada sobre o tema. "O que chamou muito a atenção da equipe foi a questão de uma irritabilidade quando a gente falava de encaminhar para retirar a documentação", diz.
"Na época foi até ventilado se a pessoa teria cometido um crime, porque é algo da rotina do serviço também", recorda-se a profissional.
"A gente ventilava bastante que, de fato, não aparentava ser uma criança de 12 anos, nem ser menor de idade. Mas a gente avaliou também a questão de haver um transtorno, de um déficit cognitivo", completa.
Acolhimento no Recife
Amanda foi atendida em julho de 2023 pelo Serviço Especializado em Abordagem Social (Seas), da capital, que atua em diversos bairros da cidade oferecendo acolhimento institucional, encaminhamentos para a rede de saúde, apoio para emissão de documentos e inclusão em programas e benefícios sociais para pessoas em situação de rua.
Na ocasião, ela aceitou ser acolhida e foi encaminhada ao Abrigo Noturno Irmã Dulce dos Pobres, no bairro de São José, área central do Recife. A mulher se apresentou como Gabrielly Souza de Oliveira e informou ter 12 anos. Ela também disse se chamar Gabrielly em outros estados onde alegou ser criança.
Como o abrigo Irmã Dulce dos Pobres atende adultos, ela não poderia seguir no local. O Conselho Tutelar do Recife, então, foi acionado e fez o encaminhamento de Amanda para a Casa de Acolhida Raio de Luz, localizada no bairro da Madalena, Zona Oeste da capital, voltada para adolescentes em situação de vulnerabilidade social.
Por causa de inconsistências no período de acolhimento, o caso foi encaminhado à delegacia, onde foi registrado boletim de ocorrência. Após os procedimentos cabíveis, ela foi liberada.
Cerca de 10 dias depois, Amanda procurou o Centro POP José Pedro, em Boa Viagem, Zona Sul do Recife, solicitando acolhimento temporário. O equipamento atende homens e mulheres adultos em situação de vulnerabilidade social.
Inicialmente, ela foi atendida pela equipe de psicologia do equipamento e disse ter 18 anos, a idade mínima para ser acolhida no espaço.
Durante o atendimento, entretanto, ela chamou a atenção da equipe por apresentar voz infantilizada, trejeitos compatíveis com alguém mais jovem e comportamento que indicava possível ocultação de informações pessoais.
Os profissionais fizeram verificações e identificaram que se tratava da mesma pessoa já atendida anteriormente pela rede socioassistencial. Após a confirmação da identidade, Amanda ainda permaneceu algumas horas no Centro Pop, mas deixou o local por iniciativa própria, sendo este o último contato registrado pela Prefeitura do Recife.
Estelionato e falsa identidade
Amanda viveu cerca de 14 meses como filha adotiva em uma casa em Joinville-SC. Ela foi presa em 2 de junho na residência em que estava morando e teria confessado integralmente à polícia a autoria dos fatos.
Segundo a Polícia Civil de Santa Catarina, para sustentar o disfarce e ganhar confiança da família, ela alegava falsamente ser portadora de autismo e outras condições clínicas.
A Justiça aceitou a denúncia do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) contra Amanda na terça-feira (9), tornando a mulher ré por estelionato e falsa identidade. Ela está presa preventivamente e deve passar por exame de sanidade mental.