Da navegabilidade ao BRT: Grande Recife tem rastro de obras inacabadas da Copa de 2014
Para Ricardo Leitão, ex-secretário extraordinário da Copa do Mundo de 2014, a opção de transporte fluvial para turismo não deve ser descartada pelas gestões futuras
O plano de ações anunciado para a Copa do Mundo de 2014 ultrapassou a construção da Cidade da Copa e da arena em São Lourenço da Mata, incluindo projetos de melhoria na mobilidade urbana. Entre outros debates à época, a navegabilidade do Rio Capibaribe estava em pauta. Embora o plano seja anterior a 2014, a ideia ganhou força como uma alternativa de conexão entre o centro e a Zona Oeste do Recife.
Foi no dia 27 de julho de 2012 que o então governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), deu o pontapé inicial no projeto que prometia garantir aos recifenses um corredor de transporte fluvial. Na época, a previsão era de que o programa Rios da Gente ficasse “totalmente pronto” até março de 2014 e era considerado o “primeiro corredor fluvial do país”.
No Diário Oficial do Estado dessa data consta que Eduardo afirmou que o “sonho de tornar o Capibaribe navegável é antigo e alimentado por muitas gestões, mas só agora vai ser concretizado”. “É o primeiro projeto desse tipo em todo o PAC da Mobilidade nacional. A dragagem do Capibaribe vai ser feita em 18 meses e teremos 12 barcos e sete estações. Isso vai ajudar as pessoas a chegarem de forma mais rápida aos seus destinos”, disse o governador.
Segundo o projeto, o processo de dragagem totalizava um valor de R$ 102 milhões e iria remover lixos e escombros de 17 quilômetros do Capibaribe, beneficiando cerca de 335 mil passageiros por mês. O transporte teria capacidade para 86 usuários sentados e passaria pelos bairros de Santana, Torre, Derby, Boa Vista, Santo Antônio e Santo Amaro.
Em 18 de janeiro de 2013, foi iniciada a primeira etapa da dragagem do Rio Capibaribe. “Hoje é um dia histórico. A população usará esse meio de forma rápida e prazerosa”, disse o governador Eduardo Campos no dia.
Publicado na edição do Diario que anunciava o início da dragagem, o projeto da navegabilidade apontava que as cinco estações da Rota Oeste eram próximas ou integradas com o metrô, com as linhas do Sistema Estrutural Integrado (SEI) e com um corredor de BRT.
No dia 13 de setembro de 2013, foi assinada a ordem de serviço para a construção das estações de embarque e desembarque de passageiros no Rio Capibaribe. Poucos meses depois, em fevereiro de 2014, o projeto foi interrompido.
O Diario visitou o local onde supostamente seria a Estação Santana, ao lado do Parque Santana, na Zona Norte do Recife. Atrás de tapumes prateados e correntes enferrujadas, a beira do Rio Capibaribe está escondida por restos de árvores, folhas secas e troncos esquecidos.
“Na perspectiva de transporte coletivo, viu-se que não dava certo e (o projeto) foi suspenso”, afirma Ricardo Leitão, ex-secretário extraordinário da Copa do Mundo de 2014. Segundo Leitão, outro motivo para a interrupção do projeto foi a falta de repasse de verba da União.
Mesmo assim, Leitão defende que o Recife pode ter um transporte fluvial para turismo, como os que são feitos no Rio Capibaribe com barcos planos e baixos. “Do ponto de vista de transporte coletivo para Arena, o projeto foi encerrado; não é uma alternativa de transporte coletivo nesse momento. Por exemplo, em Paris funciona porque as pontes de lá são arqueadas, um barco passa embaixo, mas aqui não é possível”, avalia.
Expansão no transporte público
Para receber um torneio mundial, em uma arena localizada a 23 km do Marco Zero, na área central do Recife, o Governo de Pernambuco precisava garantir que o transporte público fosse rápido e de qualidade.
Deste modo, junto à apresentação da Cidade da Copa, em janeiro de 2009, o Governo de Pernambuco anunciou que os terminais integrados seriam ampliados, saindo de quatro para dez, e que a infraestrutura viária também cresceria. As expansões eram planejadas para estarem prontas até o ano seguinte.
A expectativa gerada pelos projetos que idealizaram a transformação no transporte público, no entanto, foi em parte frustrada devido às obras inacabadas. A exemplo da Estação Elevada de BRT Bom Pastor, na Avenida Caxangá, que integra o corredor Leste - Oeste, ligando o Centro do Recife a Camaragibe. E é uma das principais rotas para a Arena de Pernambuco.
As obras para os corredores exclusivos de ônibus tiveram custo de R$ 296 milhões, repassados pelo Tesouro Estadual e pelo PAC da Copa. Segundo o governo estadual, as linhas dariam “maior fluidez ao trânsito nos sentidos Norte-Sul e Leste-Oeste”.
Porém, para moradores e trabalhadores do entorno, a estrutura incompleta na Caxangá virou um dos maiores elefantes brancos daquela Copa. O projeto original previa que o viaduto abrigasse uma estação de ônibus com acesso por escadas e até elevadores, como lembra a atendente de supermercado Arlene Monteiro, de 53 anos.
“Todos nós que moramos aqui no bairro ficamos empolgados porque além de fazer esse viaduto, informaram que iam fazer uma parada, não fizeram. Aí o ônibus só vai reto e para lá na frente. Por causa disso, eu preciso andar 15 minutos todo dia até chegar aqui”, conta. Arlene afirma que, caso a estação funcionasse, sua caminhada seria reduzida para 5 minutos.
O corredor Leste-Oeste tinha o maior peso no transporte de torcedores para os jogos em São Lourenço da Mata. No entanto, no primeiro jogo do Mundial, em 14 de junho de 2014, estavam em operação apenas as estações Derby e Cordeiro, as únicas concluídas a tempo.
Terminal também ficou na promessa
Uma outra promessa do governo de Pernambuco para a Copa do Mundo foi a reforma do TI de Camaragibe e a construção do Ramal Cidade da Copa, que começa na Avenida Dr. Belmino Correia, nas imediações da Estação de Metrô e do TI até a BR-408. Contudo, as obras do terminal não foram realizadas e ainda falta uma etapa do alargamento do ramal.
“Eu vi derrubando as casas para fazerem o Ramal da Arena. Na época, a gente achou ruim porque foi muito triste. Idosos faleceram porque eram muito apegados às suas casas, 40 anos morando no mesmo lugar e precisaram sair. Muita gente até hoje não recebeu a indenização também”, lembra a comerciante Lúcia de Lima, de 47 anos.
Segundo Lúcia, seu comércio é prejudicado por conta da poeira excessiva causada pela retomada das obras. “O problema é aguentar. Quando terminar eu acho que a gente vai estar com problema de pulmão, infelizmente. Eu estou orando a Deus, pedindo livramento para que a gente não tenha, porque é muita poeira quando não está chovendo aqui”, comenta ela.
Na época à frente da Secretaria Extraordinária da Copa do Mundo de 2014, o jornalista Ricardo Leitão aponta que a gestão criou uma linha de metrô e de ônibus para torcedores que quisessem chegar à Arena de Pernambuco.
“Puxamos um ramal do metrô da rodoviária até a Estação Cosme e Damião, que nós construímos junto a um terminal integrado. Criamos um modal ferroviário e de ônibus para quem vinha do TIP chegar até a arena. Chegando à Estação Cosme e Damião, havia ônibus fazendo a ligação até o estádio. Desse ponto até lá dá cerca de dois quilômetros, a pessoa podia ir até a pé”, explica o ex-secretário.
Na avaliação do ex-secretário, o plano de mobilidade para a região torna possível que torcedores que venham pela BR-232, pela BR-101 Norte ou Sul ou pela Estrada da Batalha, em Jaboatão dos Guararapes, consigam chegar na BR-408 a partir de qualquer ponto de entrada da Região Metropolitana. Mesmo assim, segundo ele, a população reclamou. “Por quê? Porque as pessoas aqui no Recife vão a pé para os estádios de futebol”, comenta.
Questionado se houve planos para criar uma linha de metrô que deixasse os torcedores mais próximos da arena, Ricardo negou. “Não tem sustentação econômica porque a arena tem uma demanda muito específica, que é a do jogo. Esse ramal só se viabiliza quando houver fluxo na Cidade da Copa e não apenas fluxo para a arena. Porque o fluxo para a arena é intermitente”, afirma.
O que diz o governo do estado
Em nota, a Secretaria de Defesa Social (SDS-PE) informou que “a região do entorno da Arena de Pernambuco conta com policiamento permanente, incluindo uma viatura operando 24 horas por dia, além do efetivo do Pelotão Tático, responsável pela realização de rondas ostensivas diuturnas e ações preventivas voltadas ao reforço da segurança e à ampliação da presença policial na localidade”.
Sobre a situação de falta de iluminação, o Diario procurou a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação (SEDUH). A pasta foi questionada acerca das obras no Corredor Leste-Oeste de transporte, mais especificamente sobre a previsão de entrega para o Viaduto Prefeito Augusto Lucena, na Caxangá, e o plano de estrutura para o BRT elevado.
Além disso, também foram solicitadas à SEDUH a previsão de entrega do TI Camaragibe e informações sobre as mudanças do planejamento das intervenções, originalmente pensadas para a Copa do Mundo de 2014.
Sobre o projeto de navegabilidade do Capibaribe, foi indagado à SEDUH sobre a existência de algum plano para as estações fluviais que tiveram as primeiras estruturas iniciadas e abortadas no projeto de mobilidade para a Copa do Mundo de 2014. Nenhum dos questionamentos foi respondido pela SEDUH até o fechamento desta matéria.
Em relação à finalização do Ramal da Arena, a Companhia Estadual de Habitação e Obras (Cehab) foi consultada. À pasta, também foram solicitadas informações sobre o andamento das obras da Academia Integrada de Defesa Social (Acides). O Diario não obteve retorno até a última atualização.
Por fim, a equipe de reportagem procurou a gestão da Arena de Pernambuco a respeito das falhas técnicas e relatos de falta de manutenção das dependências do equipamento abordados na matéria. Não houve resposta até o fechamento da reportagem. O espaço para resposta segue aberto.