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Tenebris Somnia - Análise

‘Tenebris Somnia’ já está na lista de games mais marcantes do gênero no ano e é uma boa adição para quem quer uma experiência nova, mas que ofereça gostinhos de games e filmes que já consumimos.

Por Antônio Gois

Arte promocional de 'Tenebris Somnia'

A América do Sul sempre foi referência no horror. Unida talvez por suas origens trágicas e constante luta para manter o direito de ser criativa, a região sempre criou histórias na mídia que equilibravam o entreter e o choque, característica tão comum no gênero do medo.

No caso da Argentina, essa tradição em criar narrativas assombrosas está em evidência no cinema, com Demián Rugna (‘O mal que nos habita’), na literatura, com Mariana Enriquez (‘As coisas que perdemos no fogo’), e nos games, com o viral ‘MADiSON’ (BLOODIOUS GAMES, 2022), que se popularizou ao ser classificado como um dos jogos mais assustadores do mundo.

Agora, ao contrário da busca pelo fotorrealismo de seu hermano, ‘Tenebris Somnia’, game desenvolvido por Andrés Borghi e Tobías Rusjan associados à Saibot Studios, despertou o interesse do público ao unir um visual pixel-art 2D a cenas live-action, algo popularizado em jogos clássicos dos anos 90 que ficaram cada vez mais nichados à medida que o desenvolvimento tecnológico avançou para PCs e consoles. Ainda assim, o título, que teve seu lançamento no último dia 16 de outubro para Nintendo Switch, Nintendo Switch 2, PlayStation 5, Windows e Xbox Series X/S, conta com um “algo a mais” que deixa tudo mais interessante.

Em ‘Tenebris Somnia’ acompanhamos a história de Julia, uma jovem que, ao sofrer com pesadelos constantes envolvendo seu ex-namorado Iván, vai ao seu encontro apenas para descobrir que ele se envolveu com entidades de outra dimensão e acabou sendo aprisionado em uma realidade sombria. Lá, memórias se misturam com sonhos macabros em uma trama que vai muito além de uma relação conturbada.

Divulgação/New Blood Interactive - Screenshot de 'Tenebris Somnia'

‘TENEBRIS SOMNIA’

O formato de ‘Tenebris Somnia’ pode não ser exatamente original, já que, como explicado, games clássicos de terror já intercalavam — ou até uniam — gameplay e filmagens live-action, em uma época em que a escolha contornava limitações técnicas e era um modo de trazer realismo e imersão a algo fantasioso. Por outro lado, este jogo se torna autêntico quando o jogador é apresentado à sua forma e ao seu conteúdo, que aí sim se mostram como uma inovação interessantíssima não só ao gênero, mas à arte em geral.

Acontece que ‘Tenebris Somnia’ é um jogo envolto por cinema — coincidentemente ou não, um dos grandes expoentes da cultura argentina, o que já demonstra uma força autoral aqui. Julia, nossa protagonista, e Iván, seu ex-namorado e incidente incitante da história, se conheceram durante um curso de cinema, paixão compartilhada pelos dois. A sétima arte é o plano de fundo do enredo, servindo como cenário e inspiração (às vezes até os dois ao mesmo tempo, como visto em easter eggs de pôsteres nada discretos em uma sala de projeção, com direito ao conterrâneo ‘Cuando acecha la maldad’ em destaque). Isso se torna mais especial ainda quando descobrimos que no centro do enredo está um curta-metragem, ‘Devora’, dirigido por Iván, que funciona como um ponto de partida da ação que temos aqui. Para além do curta, ao qual somos apresentados por inteiro em certa altura do jogo, o game conta com entradas live-action que intercalam com as partes jogáveis para contar, ou melhor, mostrar, os acontecimentos.

Divulgação/New Blood Interactive - Screenshot de 'Tenebris Somnia'

Essas cenas são carregadas de um tom autoral (puxando até para um tom mais teatral em seus aspectos técnicos, como fotografia, atuação e direção de arte) e conversam muito bem com o enredo do jogo, estabelecendo uma metalinguagem curiosa para quem joga, já que é perfeitamente adequada ao que o game propõe, mas vai além das cutscenes usuais que temos em jogos, até por oferecer outra versão do que nos acostumamos a controlar, enfrentar, ouvir — considerando as boas faixas originais, tanto em 8-bit quanto na convencional — e, especialmente, ver.

E isso é uma escolha fascinante, especialmente levando em conta que ‘Tenebris Somnia’ tem sua jogabilidade completamente pensada em um game 2D em pixel-art, objetivamente o contrário do que se propõe uma obra cinematográfica com atores de carne e osso. Se de um lado temos realismo objetivo em texturas e objetos, facilidade para o gore e a expectativa de que o espectador está ali para assistir, do outro temos cenários e personagens formados por quadrados distinguíveis, abertura para o surreal visual-virtual e a necessidade do jogador de levar a história adiante e enfrentar os desafios propostos pelos desenvolvedores.

É curiosa, mas não difícil de entender, a escolha pela forma 2D. O cenário dos games em duas dimensões que são construídos por pixels teve uma grande ascensão nos anos 2010, em jogos construídos em RPG Maker que se tornaram grandes clássicos do gênero (‘Corpse Party’ e ‘Ao Oni’, por exemplo) ao contarem histórias pesadas com gráficos menos bizarros ou apelativos. Com isso, esse estilo permite uma liberdade criativa na questão visual e de história, sendo consideravelmente mais acessível, mas criando uma grande dependência na potência do enredo.

Esse é outro acerto de ‘Tenebris Somnia’. O game realmente tem uma história para contar e acredita nela com todas as suas forças, algo realmente louvável tendo em vista o peso que seu enredo carrega. Mesmo que alguns diálogos com maior exagero dramático e expositivo não estejam à altura dos temas sensíveis propostos aqui, a trama é carregada de momentos de tensão e de embrulhar o estômago. A perspectiva do amor — ou a falta dele — como luto e violência é algo palpável e atual, especialmente quando testemunhado pelo ponto de vista de uma protagonista feminina, que busca emancipação e liberdade a todo momento.

Divulgação/New Blood Interactive - Screenshot de 'Tenebris Somnia'

A história que temos aqui é interessante e desenvolve um folclore próprio, que é usado de forma equilibrada, quase como uma licença poética para o enredo, que valoriza essa conversa que o jogo propõe com as linguagens que apresenta. Em grande parte, o game dosa bem as apresentações dos muitos conceitos que traz, tanto de sua própria dimensão fantasiosa quanto dos personagens e suas relações problemáticas. Por isso, trechos no final acabam perdendo esse ritmo a partir do momento em que o enredo já estabelece uma resolução clara para o problema, mas o jogo ainda demora a trazer uma definição.

Apesar disso, do começo ao fim, o bonito visual pixelado é explorado com felicidade. Ele usa muito bem o contraste de cores fortes com visuais sombrios e sóbrios, trazendo cenários marcantes e locais que merecem ser revisitados. Isso mostra a importância de um design de arte que conversa com os outros pilares da obra, tendo como resultado a originalidade de criações visuais impactantes, desde os detalhes dos cenários e dos personagens até os inimigos bizarros e ambientes de atmosfera pesada — sem deixar de mencionar alguns efeitos visuais bem interessantes que vão além do estético, funcionando também como mecânicas que alteram a gameplay.

Divulgação/New Blood Interactive - Screenshot de 'Tenebris Somnia'

Junto a isso, a jogabilidade que temos aqui também adiciona à experiência. O combate, mais presente do que o usual para games que usam o mesmo estilo, funciona bem, em grande parte por conta das animações da protagonista e pelo nível de dificuldade balanceado, mas peca pela ausência de atalhos que ajudem os jogadores a se manterem focados na sobrevivência. Os inimigos comuns cumprem seu papel, o que acaba dando mais destaque às lutas contra os chefes, que vêm em partes importantes da história e chamam a atenção por sua complexidade de ataques, desafios do cenário e visuais surpreendentes. Apesar disso, é claro que em games do tipo os quebra-cabeças são as principais maneiras de desbloquear o caminho e seguir na trama. Aqui, a grande maioria deles tem um nível confortável; são criativos no uso dos ambientes e na relação de objetos, e não deve ser problema para boa parte dos jogadores; ainda assim, um ou outro certamente vai levar a uma revisão de cenários e tentativas de cliques em objetos aleatórios que, confesso, estão mais na conta da minha capacidade do que na dos desenvolvedores.

‘Tenebris Somnia’ é mais um ótimo exemplo do horror que está sendo produzido atualmente na América do Sul, que tem coragem de ressignificar um formato antigo como inovação, pondo estilos teoricamente opostos como complementares e colocando-se como um dos grandes lançamentos do gênero no ano. Aqui, temos um game que brilha nos momentos em que conversa com a própria obra e se permite fazer uma metalinguagem que é muito bem recebida, já que serve a tudo, do enredo até a jogabilidade, mas, especialmente, à imersão, chave para qualquer uma das artes que o jogo reverencia.

Nota: 85
Plataforma: PC
*Uma chave do jogo foi cedida para a produção desta análise.