Deputada federal Luiza Erundina recebe título de Doutora Honoris Causa da UFPE
Homenagem reconhece trajetória da assistente social e ex-prefeita de São Paulo na defesa dos direitos sociais, da democracia e da participação popular; cerimônia reuniu lideranças políticas e representantes da universidade nesta sexta-feira (6)
Aos 91 anos, a ex-prefeita de São Paulo e deputada federal Luiza Erundina (PSOL) recebeu, na tarde desta sexta-feira (6), o título de Doutora Honoris Causa da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Natural de Uiraúna, no Sertão da Paraíba, a parlamentar teve a trajetória reconhecida pela atuação em defesa dos direitos sociais, da democracia, dos trabalhadores e da participação popular. A solenidade ocorreu no Auditório Professor Denis Bernardes, no Centro de Ciências Sociais Aplicadas (CCSA), no campus Recife.
A homenagem reconhece uma trajetória de mais de seis décadas dedicada ao Serviço Social e à vida pública. Primeira mulher eleita prefeita de São Paulo, em 1988, Erundina construiu sua atuação política a partir da militância nos movimentos sociais e da defesa de políticas públicas voltadas às populações mais vulneráveis. Em 2026, aos 91 anos, também foi eleita deputada estadual por São Paulo, com 169.567 votos, tornando-se a parlamentar mais velha eleita para uma Assembleia Legislativa no país.
Durante a cerimônia, Erundina recebeu a homenagem com emoção e dedicou o título aos profissionais do Serviço Social. Em seu discurso, destacou a importância da categoria na construção de uma sociedade mais justa e na luta pela democracia. A parlamentar também aproveitou a ocasião para refletir sobre os 90 anos do Serviço Social no Brasil, celebrados em 2026, e a transformação da profissão ao longo das últimas décadas.
“Agradeço, profundamente sensibilizada, o honroso título de Doutora Honoris Causa que me outorgou o egrégio Conselho Universitário da Universidade Federal de Pernambuco. Ao ser agraciada com essa honraria, eu a recebo com humildade e emoção e a dedico aos meus colegas de profissão, os assistentes sociais brasileiros, a quem devo a inestimável parceria na construção do nosso projeto profissional ao longo de seis décadas, servindo aos setores populares da sociedade e à luta em defesa da democracia em nosso país”, afirmou.
A escolha do tema do discurso também foi relacionada à origem da homenagem. Segundo Erundina, a indicação de seu nome ao Conselho Universitário partiu de docentes dos departamentos de Serviço Social da UFPE. Ela destacou o III Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais, realizado em São Paulo, em setembro de 1979, conhecido como “Congresso da Virada”, como um marco para a renovação da profissão no país.
“O Serviço Social, a meu ver, é uma das profissões mais impactadas pelos acontecimentos que marcaram os últimos 50 anos da história do nosso país. Antes da década de 1980, a atuação profissional dos assistentes sociais se caracterizava sobretudo por posições reativas e de adaptação passiva à realidade.”
A parlamentar também relembrou a chegada a São Paulo, em 1971, após deixar a Paraíba por causa da perseguição política durante a ditadura militar. Na capital paulista, trabalhou como assistente social em favelas da periferia, onde acompanhou a realidade de trabalhadores nordestinos e a luta por moradia.
Erundina relacionou as lutas no campo e na cidade à estrutura econômica brasileira. “No campo, a luta é por terra para trabalhar; na cidade, a luta é por moradia. E o inimigo era e é sempre o mesmo: a apropriação privada dos meios de produção, dogma do capitalismo”, disse.
A entrega do título foi acompanhada por representantes da universidade e lideranças políticas. Entre as participantes estava a senadora eleita por Pernambuco Marília Arraes (PDT), que destacou a capacidade de Erundina de continuar atuando politicamente e inspirando novas gerações, mesmo após décadas de vida pública.
“Ter Erundina ao nosso lado, com essa jovem de coração, de espírito e de disposição, aos quase 92 anos, começando e recomeçando em todas as oportunidades, inspirando gerações, é uma história que tem que ser conhecida e acompanhada. Isso mostra que não é sobre pessoas. Quem tem a disposição que Erundina tem e esse compromisso é porque tem a consciência de que aquilo que está fazendo representa um projeto de Brasil melhor, de Brasil soberano, de Brasil mais justo.”
A deputada federal eleita Liana Cirne (PT) também destacou a influência política de Erundina. Para ela, a parlamentar exerceu papel de professora para outras gerações, não necessariamente em uma sala de aula, mas por meio de sua atuação na vida pública. Liana lembrou a origem paraibana da ex-prefeita e as dificuldades enfrentadas pelos nordestinos em São Paulo.
“Como política, você é professora. Como política, você é uma inspiração para todas e todos nós. Você foi a primeira mulher prefeita de São Paulo. Uma paraibana que saiu em busca de refúgio político da Paraíba para São Paulo, uma terra em que os nordestinos, naquela época e ainda hoje, são muitas vezes tratados como inferiores intelectual e politicamente.”
O reitor da UFPE, Alfredo Gomes, destacou a importância de receber Erundina entre as personalidades agraciadas com o título honorífico da instituição. Segundo ele, a trajetória da parlamentar representa um exemplo de resiliência e dedicação à população brasileira.
“É uma grande felicidade tê-la entre os nossos e as nossas doutoras. Isso é muito importante e representa a felicidade que a nossa comunidade sente ao se identificar com essa trajetória belíssima de resiliência e também de muita entrega à população brasileira. Parabéns!”, declarou.
Trajetória política
Formada em Serviço Social pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Erundina nasceu em 30 de novembro de 1934. Sua trajetória política ganhou projeção nacional quando foi eleita prefeita de São Paulo, em 1988, pelo Partido dos Trabalhadores (PT), tornando-se a primeira mulher de um partido de esquerda a comandar a capital paulista. Ela permaneceu no cargo até 1992.
Depois da passagem pela prefeitura, construiu uma trajetória de sete mandatos como deputada federal. Na Câmara dos Deputados, participou de iniciativas relacionadas à habitação popular, aos direitos das mulheres, à educação, à saúde e à mobilidade urbana.
Entre as leis associadas à sua atuação estão a Lei das Brinquedotecas (Lei nº 11.104/2005), que tornou obrigatória a instalação de brinquedotecas em unidades de saúde que oferecem atendimento pediátrico em regime de internação, e a Lei nº 11.634/2007, que assegurou às gestantes atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) o direito de conhecer previamente a maternidade onde receberão assistência durante o parto.
Erundina também participou da criação do Dia Nacional do Forró, celebrado em 13 de dezembro, e da iniciativa que declarou o arquiteto Oscar Niemeyer patrono da Arquitetura Brasileira.
Eleita deputada estadual em São Paulo em 2026, com 169.567 votos, a parlamentar ocupará uma das 94 cadeiras da Assembleia Legislativa paulista a partir de 2027. Entre as pautas que defende estão a tarifa zero no transporte público, o passe livre, a proteção de mulheres, crianças e adolescentes, a democratização da comunicação e a ampliação da participação popular nas decisões do poder público.