Direita amplia força nas urnas
Nomes associados ao bolsonarismo e à direita foram eleitos em diferentes estados, aumentando a possibilidade de uma bancada conservadora expressiva na próxima legislatura
O primeiro turno das eleições de 2026 deixa uma fotografia política marcada pelo avanço da direita e do campo conservador em diferentes regiões do país. Além da disputa presidencial, candidatos desse espectro conquistaram governos estaduais e ampliaram sua presença no Senado, na Câmara e nas Assembleias Legislativas, indicando uma mudança na correlação de forças que deverá influenciar o próximo ciclo político.
Na corrida pelo Palácio do Planalto, a direita também chega fortalecida ao segundo turno. Flávio Bolsonaro terminou a primeira etapa à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, em uma disputa que será decidida pelos eleitores em 25 de outubro.
O resultado das eleições para o Senado reforça essa tendência. Nomes associados ao bolsonarismo e à direita foram eleitos em diferentes estados, aumentando a possibilidade de uma bancada conservadora expressiva na próxima legislatura. A nova composição da Casa terá papel importante nas negociações com o futuro presidente e em temas como indicações para tribunais superiores, reformas constitucionais e pautas econômicas e sociais.
O movimento, entretanto, não significa a formação de um bloco político homogêneo. Partidos como PL, PP, Republicanos, União Brasil e Novo reúnem grupos com diferentes posições e interesses. Parte do chamado Centrão também transita entre diferentes campos políticos conforme as alianças regionais e nacionais. O segundo turno presidencial e a formação das alianças no Congresso serão decisivos para definir como essa nova correlação de forças se traduzirá na política brasileira dos próximos anos.
Hiperativismo judicial
Para o cientista político Thales Castro, o fortalecimento da direita tem explicações tanto no cenário internacional quanto na conjuntura brasileira. Ele aponta, entre os fatores externos, uma onda de guinada à direita ou à centro-direita em países latino-americanos, citando Chile, Peru, Paraguai, Equador e Colômbia.
No ambiente doméstico, Castro destaca o desgaste na relação entre os Poderes, especialmente em relação ao Supremo Tribunal Federal. Na avaliação do cientista político, o que chama de “hiperativismo judicial” e a percepção de falta de mecanismos de accountability e transparência sobre a atuação da Suprema Corte contribuiriam para esse cenário.
Outro fator apontado por Castro é o ambiente econômico. Ele cita o aumento da carga tributária e a insegurança jurídica como elementos que, em sua avaliação, favoreceriam uma agenda de direita baseada em redução do tamanho do Estado, menor carga tributária, regras mais claras, liberdade econômica e facilitação dos negócios.
Castro também identifica um processo de desgaste do campo de centro-esquerda liderado pelo PT. Para ele, o longo período de predominância petista no cenário nacional — interrompido pelo governo de Michel Temer e posteriormente pelo governo Jair Bolsonaro — contribuiu para uma espécie de “fadiga da máquina” política associada ao partido.
Ressentimento social
Já o cientista político Juliano Domingues amplia a análise para fatores sociais e culturais. Segundo ele, estudos das ciências sociais apontam que o crescimento da direita e, sobretudo, da extrema-direita resulta de uma combinação entre insegurança econômica, ressentimento social e reação a políticas de inclusão.
Domingues observa que, após períodos de ampliação de direitos e de maior presença de grupos historicamente marginalizados em espaços de poder, determinados setores podem interpretar essas mudanças como perda de posição, prestígio ou autoridade. Na avaliação do pesquisador, a direita, especialmente a extrema-direita, tem conseguido transformar esse desconforto em mobilização política.
Outro elemento seria a predominância de uma cultura marcada pela competição, pelo individualismo e pela ideia de que o sucesso depende fundamentalmente do mérito individual. Nesse contexto, segundo Domingues, identidades coletivas e de classe podem perder força.
Essa mudança também altera a maneira como parte da população interpreta políticas redistributivas. Para o cientista político, pessoas que ascendem socialmente podem passar a se identificar mais com os valores de grupos situados acima delas na estrutura social do que com suas próprias origens. Benefícios e políticas de inclusão, nesse cenário, deixam de ser percebidos como direitos e passam a ser interpretados como privilégios concedidos a outros.
Quando a trajetória de ascensão social é interrompida, acrescenta Domingues, a frustração tende a crescer. A direita e a extrema-direita conseguem, então, oferecer uma explicação simples para esse sentimento: o indivíduo teria avançado pelo próprio esforço, mas estaria sendo impedido de continuar por um sistema que favoreceria quem não merece. É nesse ponto, segundo ele, que o ressentimento ganha dimensão política.
A interpretação de Domingues acrescenta, assim, uma dimensão social à análise eleitoral. O avanço da direita não estaria relacionado apenas a conjunturas econômicas, decisões institucionais ou ao desempenho dos governos, mas também à maneira como diferentes grupos percebem mudanças sociais, oportunidades, reconhecimento e seu próprio lugar na sociedade.