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Exames mostram "melhora constante" da saúde do papa Leão XIV

Mensagem do papa foi lida nesta sexta (16) na sede da FAO por conta do Dia Mundial da Alimentação

Por AFP

Papa Leão 14

Os exames médicos do papa Leão XIV, de 71 anos, mostram uma “melhora constante” de seu estado de saúde três dias após uma cirurgia para retirar um tumor cancerígeno do pulmão, afirmou o Vaticano nesta sexta-feira (16).

“Nesta manhã, o Santo Padre foi submetido a exames de sangue e a uma radiografia de tórax, que confirmaram uma melhora constante de seu estado geral”, afirma o comunicado. O pontífice cumpre “suas atividades diárias normais com total autonomia”, acrescenta a nota.

Nesta sexta (16), foi divulgada uma mensagem do papa sobre o Dia Mundial da Alimentação durante cerimônia na sede da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em Roma. O texto foi escrito por Leão XIV na segunda (12), um dia antes de o pontífice ser internado.

A mensagem foi lida pelo arcebispo Fernando Chica Arellano, que é o observador da Santa Sé junto à FAO e dirigida ao diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, por ocasião do Fórum Mundial da Alimentação (WFF). O evento encerra nesta sexta.

Confira na íntegra a mensagem do papa:

A Sua Excelência Qu Dongyu

Diretor-Geral da FAO

Excelência,

O tema do Dia Mundial da Alimentação deste ano é “Inovar hoje para alimentar amanhã”. Ao ajudar a terra a produzir os seus frutos, a humanidade não se limita a realizar uma operação técnica, mas cumpre o mandamento de guardar a terra e cultivá-la (cf. Gn 2,15), um mandamento que precede qualquer quadro jurídico e qualquer inovação tecnológica. No entanto, encontramo-nos atualmente numa situação paradoxal, em que o progresso global avança a um ritmo cada vez mais acelerado, enquanto a fome e a pobreza continuam a persistir. Não se trata de um problema técnico ou financeiro, mas sim de uma profunda crise antropológica e ética.

Hoje fala-se de inovação com grande desenvoltura. Todavia, este termo é muitas vezes utilizado apenas em referência ao desenvolvimento de dispositivos e algoritmos, ou à otimização do rendimento com o único objetivo de obter ganho econômico. É, portanto, necessário mudar o modo como concebemos esse progresso, pois a verdadeira inovação não substitui a criação, mas implica uma investigação respeitosa das leis complexas que guiam a obra das mãos do Criador. O uso de uma tecnologia adequada para cultivar a terra é uma expressão do papel da pessoa humana como colaboradora de Deus na obra da criação. Contudo, quando a tecnologia moderna é empregada na agricultura de formas que privam o solo da sua fertilidade natural ou afastam os agricultores de suas terras, movidos apenas por motivos econômicos, isso não pode ser considerado um progresso, mas uma forma sofisticada de destruição. Além disso, o uso irresponsável da tecnologia para interesses exclusivamente egoístas, em vez do bem comum, não só viola o princípio da solidariedade, mas também ignora o dever da humanidade de salvaguardar a criação. O tipo de inovação de que o mundo precisa, portanto, não se mede apenas pela quantidade de grão produzida, mas também pela tutela da dignidade humana que Deus concedeu a cada um de nós e pela integridade do ecossistema que somos chamados a preservar.

A fome não pode ser considerada uma anomalia estatística, pois é causada principalmente pela falta de vontade política e de solidariedade coletiva. Tampouco as carências alimentares são geograficamente inevitáveis. De fato, num período caracterizado por um progresso tecnológico sem precedentes, é intolerável que o pão seja considerado um privilégio e a água uma mercadoria disputada. O acesso regular a uma alimentação segura, adequada e suficiente, em consonância com a dignidade de cada pessoa, é um direito humano fundamental. Garantir este direito é uma obrigação de justiça que vincula tanto os Estados individuais quanto a comunidade internacional. Contudo, enquanto as inovações aceleram a produção, a distribuição é negligenciada. Os mercados de cereais são especulados na bolsa de valores, enquanto as sementes que germinam no solo acabam nas mãos de monopólios que sufocam a agricultura em pequena escala.

Para garantir que as necessidades alimentares de amanhã sejam satisfeitas, é necessário libertar a produção de alimentos de uma mentalidade puramente especulativa. O pão não deve ser nem um instrumento de pressão geopolítica nem um bem financeiro volátil. Nem jamais deve ser usado como arma de guerra. De fato, impedir que o pão chegue a uma pessoa ou destruir os meios com os quais é produzido constitui uma terrível ofensa à dignidade humana. O pão é precioso porque sustenta a vida que Deus nos deu. Devemos, portanto, superar a tentação de uma visão de curto prazo. O mito de que o crescimento pode ser infinito, apesar dos recursos limitados, atingiu o ponto de ruptura. Hoje, a inovação exige a adoção de um sentido de responsabilidade intergeracional que olhe para além dos balanços anuais. Inovação significa conciliar a tecnologia com a sabedoria, incluindo a sabedoria ancestral, mantendo ao mesmo tempo uma visão para o futuro. Não se trata de rejeitar os avanços tecnológicos, mas sim de integrá-los com a sabedoria dos agricultores, que amadureceram o seu conhecimento da terra e do clima através de séculos de observação consciente. Isto comporta também a tutela da água como um bem comum inalienável.

Senhor Diretor-Geral, encorajo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura e os seus Estados-membros a não se contentarem com análises abstratas ou declarações de eficácia limitada. Chegou o momento de dar provas de audácia moral. É essencial uma nova ordem alimentar global, na qual a inovação tecnológica esteja incondicionalmente subordinada ao respeito pela dignidade humana concedida por Deus e ao bem comum universal. Além disso, existe um imperativo ético urgente de reconverter os recursos investidos na indústria bélica para a pesquisa agrícola sustentável e para a regeneração dos solos degradados. O amanhã não é um período de tempo abstrato que nos aguarda passivamente; é antes a colheita do que semeamos hoje através das nossas decisões. Se semearmos uma inovação não ética, baseada no desejo de dominar a terra e excluir os fracos, colheremos aridez e conflitos. Se, pelo contrário, a inovação brotar do respeito pela ordem natural e da justiça para com quem tem fome, o amanhã trará uma mesa farta para o sustento da humanidade.

Com estes pensamentos dirigidos àqueles que se dedicam ao cultivo e à tutela da criação, invoco sobre todos as bênçãos de Deus Todo-Poderoso e asseguro o constante apoio da Santa Sé às iniciativas que auxiliam a FAO nos seus nobres esforços.

Do Vaticano, 12 de outubro de 2026.