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GAV aposta R$ 392 milhões no Nordeste e enfrenta desafio de crescer sem esgotar destinos

Nova estratégia da empresa prioriza hotelaria e experiência do cliente, ao mesmo tempo que expansão do turismo amplia pressão por saneamento, mobilidade e preservação ambiental em regiões como Porto de Galinhas

Por Adelmo Lucena

Atualmente, a GAV possui 15 empreendimentos no portfólio

A expansão da hotelaria no Nordeste colocou a GAV Hotéis e Resorts diante do desafio de crescer sem pressionar ainda mais a infraestrutura e o meio ambiente dos destinos turísticos. A empresa prevê investir R$ 392 milhões em 2026 e decidiu concentrar sua estratégia na operação hoteleira, mas reconhece que o avanço do setor precisa ser acompanhado por saneamento, mobilidade e ações de preservação.

Em Porto de Galinhas, onde a GAV já registra ocupação superior a 80%, essa discussão ganha dimensão prática diante do aumento do fluxo de turistas e da chegada de novos projetos ao litoral.

A mudança ocorre no ano em que a companhia completa 12 anos e passa por um reposicionamento. Criada com atuação na incorporação imobiliária pelo modelo de multipropriedade, a empresa agora quer dar mais peso à hotelaria e à experiência de quem utiliza os empreendimentos. Agora, a GAV Resorts passou a se chamar GAV Hotéis e Resorts.

Segundo o CEO Manoel Vicente Pereira Neto, a mudança acompanha a própria transformação do portfólio da empresa, que atualmente reúne 15 empreendimentos, sendo oito em operação.

Mais turistas, mais pressão sobre os destinos

Em Ipojuca, município onde está localizado Porto de Galinhas, o número de visitantes estrangeiros cresceu 77% entre janeiro e julho deste ano, segundo dados citados pela Secretaria Municipal de Turismo. O avanço foi o maior registrado entre os destinos nordestinos no período. No ano passado, apenas o público argentino aumentou 247% em Porto de Galinhas.

Para a GAV, o crescimento da demanda já aparece nos resultados comerciais. Manoel afirma que as vendas da companhia no destino cresceram mais de 120% em um ano. O empreendimento da empresa já ultrapassa 80% de ocupação.

“Olhando para o destino Porto de Galinhas, por exemplo, do ano passado para cá tivemos crescimento de mais de 120% no número de vendas. É uma escadinha. Está crescendo a cada dia. Acredito que, em mais uns 12 meses, estaremos 100% consolidados em relação à média do destino. Nosso empreendimento já está acima de 80% de ocupação e, quando falamos disso, eu digo que não queremos simplesmente estar iguais ao destino. Temos que estar iguais ou melhores, porque o empreendimento é mais novo e mais completo”, diz o CEO.

O destino de Porto de Galinhas está próximo do Recife e conta com a estrutura aeroportuária da Região Metropolitana, o que facilita o acesso de turistas de outras partes do país e do exterior. O aumento da procura deixa explícito que, quanto maior o número de visitantes e empreendimentos, maior a necessidade de infraestrutura capaz de sustentar esse crescimento.

É nesse ponto que o saneamento aparece como uma das principais preocupações. Manoel afirma que os empreendimentos da GAV possuem estruturas próprias de tratamento quando não existe uma rede pública capaz de atender à demanda.

“Existe a questão da sustentabilidade ambiental e, principalmente, do saneamento básico. Não é desculpa: nós, como GAV, precisamos do poder público para fazer a parte do saneamento básico. Em todos os nossos empreendimentos, temos estação de tratamento de esgoto e estação de tratamento de água, a não ser quando o município já está preparado para isso."

"A tecnologia da nossa estação de tratamento de esgoto leva o tratamento a cerca de 85%, e depois passa por um processo que permite chegar a até 99%. Então nós preparamos nosso saneamento básico independentemente do poder público”, complementa.

Infraestrutura precisa acompanhar expansão

O secretário municipal de Turismo de Ipojuca, Deomaci Ramos, reconhece que o crescimento turístico exige investimentos simultâneos em infraestrutura. Segundo ele, a conclusão do saneamento básico da vila de Porto de Galinhas já começou, com intervenções em ruas da localidade. A responsabilidade pelo saneamento básico, conforme explicou, é do Governo do Estado.

O município também atua na drenagem, na mobilidade e na requalificação de espaços públicos. Uma nova rota de acesso à região foi requalificada e passou a funcionar como alternativa para reduzir os congestionamentos na saída de Porto de Galinhas, principalmente em períodos de alta temporada.

A Prefeitura também iniciou uma reforma na Praça do Relógio, conhecida como Praça das Esculturas, um dos principais pontos da vila.

Para Deomaci, a expansão turística precisa beneficiarquem também quem vive na cidade. “Temos também ações de requalificação de espaços públicos, sempre pensando em proporcionar um lugar melhor para o morador e para o turista. Na Secretaria de Turismo, temos uma visão muito clara: um lugar bom para o turista precisa ser um lugar bom para o morador. Estamos trabalhando nesse formato”, afirma.

A preocupação com a capacidade de suporte dos destinos também aparece na avaliação do CEO da GAV sobre a quantidade de novos empreendimentos que estão surgindo no litoral entre Pernambuco e Alagoas. Para ele, a expansão precisa ser acompanhada por planejamento do poder público, inclusive nos processos de licenciamento.

Um dos problemas apontados por Manoel é o crescimento de imóveis originalmente classificados como residenciais que acabam sendo utilizados para aluguel turístico. Ele cita Gramado, no Rio Grande do Sul, como exemplo de destino que já adotou restrições temporárias à aprovação de novos empreendimentos turísticos como forma de regular o mercado.

Turismo regenerativo

Em Porto de Galinhas, a Secretaria de Turismo defende uma mudança de conceito no turismo, passando da ideia de apenas preservar os recursos naturais para a de turismo regenerativo. A proposta é fazer com que a atividade turística deixe uma contribuição positiva no território.

Entre as iniciativas estão ações de recuperação de corais, preservação do manguezal e proteção do cavalo-marinho. O município também mantém diálogo com empresas do setor para ampliar iniciativas de ESG.

“Quanto à sustentabilidade, Porto de Galinhas está na vanguarda da inovação e do turismo regenerativo. Temos, por exemplo, a Biofábrica de Corais, uma startup que iniciou aqui um trabalho de recuperação de corais. A biofábrica faz o plantio de corais. E é importante esclarecer: coral não é planta; é um animal, assim como nós. Também temos práticas de preservação do manguezal e do cavalo-marinho. E o ESG é muito importante. O hotel tem esse setor e estamos conversando para fazer esse trabalho de forma conjunta”, explica Deomaci.

A participação do setor privado é considerada fundamental nesse processo e a GAV prepara uma nova ação ambiental em Porto de Galinhas. Depois de uma atividade de limpeza realizada em uma área de manguezal, a empresa deve promover outra ação, desta vez em um trecho da praia, dentro da política de ESG e em parceria com o município.

A lógica é ampliar a responsabilidade para além da construção e operação dos hotéis. A conservação passa a envolver também trabalhadores, empresas e visitantes, em uma tentativa de reduzir os impactos provocados pelo próprio fluxo turístico.

“O sucesso do turismo não é responsabilidade unicamente do poder público. É resultado da união de esforços entre poder público, iniciativa privada e trabalhadores. Precisamos também conscientizar nossos trabalhadores sobre a utilização da praia, sobre a importância de deixar aquele espaço tão limpo quanto o encontramos. A Secretaria de Turismo está apontando justamente esse caminho para o turismo regenerativo: não apenas sustentabilidade, mas fazer com que o turista chegue aqui, tenha uma experiência e deixe o lugar melhor do que encontrou”, afirma o secretário.

Expansão 

Mesmo diante dos desafios, a GAV mantém uma estratégia de crescimento acelerado. Desde 2020, a companhia lançou sete empreendimentos no Nordeste, distribuídos entre Pernambuco, Ceará e Alagoas. Atualmente, estão em construção o Oikos Maragogi e o Areya Barra Resort, ambos em Alagoas, com inauguração prevista para 2027.

No Ceará, a empresa lançou o Jeriquiá Dunas Resort, em Cruz, e prepara a entrega do Jeriquiá Lagoa Resort para o fim deste ano. Até 2029, somente Ceará e Alagoas devem receber mais de 1,3 mil novas unidades da GAV.

Em Pernambuco, a empresa emprega cerca de 1,4 mil pessoas e mantém dois empreendimentos em Muro Alto, sendo eles o Porto Alto Resort e o Porto 2 Life, inaugurado em novembro de 2025, com 990 apartamentos.

A companhia também pretende ampliar sua presença nas regiões Norte e Sul, com recursos destinados à construção de unidades, expansão da hotelaria, infraestrutura turística e operações. A expectativa é alcançar faturamento de R$ 3,7 bilhões em 2026.