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Maioria nos negócios, minoria na renda: o desafio do empreendedor negro em Pernambuco

Segmento conquistou política pública específica no estado e encontra nas feiras um espaço de visibilidade e fortalecimento

Por Amauri Lins

Klyssya Tozer, proprietária do Salão Gana Hare

Os empreendimentos liderados por pessoas negras movimentam uma parcela significativa da economia pernambucana. De acordo com um levantamento do Sebrae, baseado em dados do IBGE, atualmente 663,5 mil negros e negras estão à frente de negócios em funcionamento no estado, o que equivale a 62,3% do total do mercado. O percentual está acima da taxa nacional, que segundo o mesmo estudo indica uma parcela de 52,3% de negros e negras entre os empreendedores brasileiros.

Os números revelam ainda que, apesar de ser maioria entre os donos de negócios no cenário local, a população negra precisa encarar um abismo no que se refere ao retorno financeiro. De acordo com o Sebrae, os afroempreendedores têm um rendimento real médio de R$2.334,28, enquanto os brancos que empreendem chegam ao valor médio de R$ 4.155,25, uma diferença de 78%.

Para o analista do Sebrae Omero Galdino Jr., a disparidade envolve diversos fatores, entre eles o preconceito institucionalizado em relação ao local de origem do empreendedor. “Essa questão da renda, do acesso ao crédito, a gente sabe que, infelizmente, quando um empreendedor vai buscar crédito, ele tem que passar algumas informações, uma delas o CEP. E aí esse CEP, se vai para uma comunidade ou um bairro que menos favorecido economicamente, o grau de risco que o banco dá é muito mais alto”, avalia.

Políticas públicas de incentivo ao afroempreendedorismo

Em novembro de 2023, Pernambuco instituiu a Política Estadual de Incentivo ao Afroempreendedor, a partir de um projeto de iniciativa da deputada estadual Socorro Pimentel (PSD). De acordo com o texto da lei 18.374/23, o afroempreendedorismo é definido como a “ação criativa e inovadora de construção de autonomia econômica e financeira, de geração de renda, a partir do trabalho em empreendimento econômico, considerando a riqueza cultural e a formação profissional de pessoas negras”.

O conjunto de normas visa fortalecer e estimular o empreendedorismo afro-brasileiro, através da promoção de ações de conscientização e da criação de redes de interação. Nesse ponto, novamente o estado sai na frente no comparativo com o cenário legislativo nacional. Em 2020 chegou a tramitar no Congresso Nacional um projeto de lei para estabelecer a Política Nacional de Apoio ao Afroempreendedorismo, de autoria do então senador Telmário Mota (PROS/RR), mas a proposta não avançou e foi arquivada no ano seguinte.

“Uma política que seja específica, eu acho que valida, reconhece que tem muita gente empreendendo, mas nem todo mundo parte do mesmo lugar, com a mesma condição. Então existe um problema conjuntural, um problema de política pública e acredito que essa política ela vem para tentar equilibrar a regra do jogo para todo mundo”, analisa Omero.

Empreendedorismo como alternativa de sustento

A opção pela abertura do próprio negócio muitas vezes é vista como uma alternativa à ausência de oportunidades no mercado de trabalho tradicional, uma vez que a taxa de desemprego no estado chegou a 9,2% no primeiro trimestre deste ano, segundo o IBGE. Em Pernambuco, 65,7% dos donos de negócios na informalidade são negros, como aponta o Sebrae.

Para Diane Gonçalo, que há 19 anos mantém uma marca de confecção de agbês, instrumento percussivo de origem africana, o maior incentivo para empreender veio da possibilidade de gerir o próprio tempo e administrar as demandas familiares.

“O ponto chave foi a criação da minha filha. Eu trabalhava, estudei, tenho ensino superior incompleto, porque eu não conseguia concluir, e a dificuldade de ter alguém que cuidasse da minha filha me fez optar por trabalhar pra mim. Eu não conseguia conciliar trabalho formal, CLT e cuidar dela. Eu sempre deixava ela na casa de alguém ou na casa de um tio, isso era minha maior dificuldade”, relata.

Klyssya Tozer, proprietária do salão afro Gana Hare, aponta que o contexto abusivo das relações de trabalho motivaram a sua busca pelo próprio negócio. “Eu já tive experiências com o trabalho CLT e para mim não era confortável as formas de trabalho, às vezes não tinha tanto respeito. Era aquele rolê do ‘manda quem pode, obedece quem tem juízo’. Dentro desse sistema, eu não me sentia confortável, eu não me adequava. E o empreendedorismo surge dentro disso”, diz.

Nesse contexto, há um movimento cada vez mais crescente de busca pela formalização através de modalidades mais simplificadas e de menor tributação, como o Microempreendedor Individual (MEI). O Sebrae aponta que no cenário de empresas formalizadas no estado, a população negra tem maioria de 52,1%. Para uma parcela dos proprietários, a regularização é vista como algo essencial desde a abertura do negócio.

“A importância de entender esse registro é por questões de benefício e, para mim, era como se eu tivesse me posicionando dentro do empreendedorismo, desse sistema. Desde muito jovem eu já entendia a importância de ter essa organização, sabe, de ter documento, registro, de funcionar com uma empresa, mesmo sendo muito pequenininha ou o meu negócio sendo pequeno”, afirma Klyssya.

Já para Amanda Maciel, que administra a marca de moda autoral recifense Pano Amostrado, o processo de formalização surgiu como uma necessidade no decorrer das atividades. “Sem isso a gente perde muita oportunidade, então quando eu fiz o CNPJ abriram outras oportunidades para mim, de fornecedores, de eventos. Então eu fui me formalizando e aprendendo”, expõe.

Feiras como espaço de fortalecimento e visibilidade

A atuação conjunta e em rede surge como o principal recurso para superar as barreiras enfrentadas em um mercado cada vez mais globalizado e competitivo. Nesse cenário, as feiras especializadas em empreendimentos negros ganham centralidade, como forma de reduzir as barreiras enfrentadas no mercado tradicional e garantir maior visibilidade para os negócios.

É o caso Expo Preta, do Shopping RioMar, que este ano chega à 5ª edição reunindo 20 marcas de afroempreendedores. Para Rayane Gomes, que participa do evento representando a Amora Pet, loja de acessórios para animais, é uma oportunidade de alcançar locais nunca antes imaginados.

“Enxergo como uma visibilidade muito grande estar dentro de um shopping como o RioMar, porque nem todo mundo conhece todas as marcas. Às vezes são marcas muito boas, mas desconhecidas por não ter tanta oportunidade. Então quando surgem essas oportunidades, eu não penso duas vezes em estar lá”, afirma.

Além da Expo Preta, a capital pernambucana também abrigou recentemente outras iniciativas como a Expo Afro, realizada em julho pelo Sebrae como parte integrante do evento Conexão Afro, e a Feira Ojá Afro, que acontece periodicamente no Sesc Santa Rita, na região central do Recife.