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Aluguel no Recife: morar sozinho exige enfrentar o 3º metro quadrado mais caro do país

Preço médio para morar de aluguel no Recife é de R$ 63,39/m². Capital pernambucana só fica atrás de São Paulo e de Belém

Por Thatiany Lucena

O designer recifense Well Ferreira, de 33 anos, mora sozinho há um ano no bairro da Boa Vista, área central do Recife

Morar de aluguel no Recife tem se tornado cada vez mais desafiador para quem mora sozinho ou ainda mantém o sonho da casa própria. Segundo dados do índice mensal do levantamento FipeZap de locação residencial de abril, realizado em parceria com o Grupo OLX, a capital pernambucana foi a terceira com o aluguel mais caro entre as 22 capitais brasileiras monitoradas pelo índice.

O preço médio para morar no Recife é de R$ 63,39/m², ficando atrás de São Paulo, que tem o aluguel mais caro (R$ 64,20/m²) e Belém (R$ 63,43/m²). Logo abaixo da capital pernambucana estão Florianópolis (R$ 61,07/m²) e Rio de Janeiro (R$ 58,48/m²).

Quem mora sozinho há um ano e passa por esses desafios é o designer recifense Well Ferreira, de 33 anos. Morador do bairro da Boa Vista, ele afirma que o principal desafio de morar só é a organização financeira. “Preciso saber o meu limite de gastos, separar o dinheiro de aluguel, feira, energia e internet, além de ter uma quantia para emergências”, conta.

Ele chegou a quase desistir de ir para seu próprio canto quando ficou sem emprego durante um período. "Morar só é muito mais do que ter esse status, é liberdade, é ter seu cantinho de paz”, destaca.

Mas para manter essa rotina, Well teve que cortar algumas despesas. “Muitas vezes, quase todo o salário vai para as contas da casa, sobrando pouco para planos e lazer. Deixei de lado viagens, compras e cancelei streamings. É uma vida diferente, mas não abro mão”, disse.

O recifense atualmente paga R$ 1.500 no aluguel, mas considera o valor mais acessível, quando comparado a outros alugueis em apartamentos em outros bairros, como Jaqueira e Graças, onde os valores chegam a custar R$ 3 mil. “Atualmente, tenho um salário que consigo pagar todas minhas contas sem muitas dificuldades, mas preciso deixar meus gastos sempre alinhados e também preciso fazer freelas para complementar a renda”, reforça.

De acordo com o levantamento FipeZap, o preço do aluguel subiu, de forma consecutiva, de janeiro a abril de 2026. No último índice, a alta foi de 0,32%. Ainda no levantamento, o retorno médio do aluguel residencial foi estimado em 6,08% ao ano no país.

Entre os dez bairros analisados pela pesquisa, os mais caros para morar de aluguel são: Pina R$ 77,90 /m², Parnamirim R$ 71,30 /m² e Tamarineira R$ 67,8 /m². Já entre os mais baratos aparecem Imbiribeira R$ 56,9 /m² e Cordeiro R$ 36,6 /m².

O Recife ainda aparece como a capital mais rentável para locação de imóveis residenciais, com o índice 8,55% ao ano (a.a.), seguido por Manaus (8,38% a.a.) e Cuiabá (8,31% a.a.).

Insegurança é outro desafio

Para a jornalista e publicitária Aline Cunha, 31, que atualmente mora no bairro Porto da Madeira, na Zona Norte do Recife, e está planejando sair da casa dos pais, outro obstáculo que deve enfrentar é a insegurança e o fato de preferir morar em casa ao invés de apartamento.

“Infelizmente, por causa de todo o contexto que a gente vive na cidade, como a falta de segurança, eu só consigo me ver optando por procurar moradias que sejam apartamentos, por causa de aspectos como portaria, que oferecem a sensação de proteção, principalmente para mim que gosto de sair à noite. Porém, sempre morei e amo morar em casa, mas uma mulher sozinha em uma casa é um alvo fácil”, aponta.

Ainda de acordo com ela, outra questão que causa dúvidas é a escolha entre alugar ou se planejar para dar entrada no financiamento de um imóvel. “Em relação a possível compra de apartamento ou aluguel, o meu plano é estabelecer o teto que eu tenho, o que quero ter de aluguel ou de parcela e como estou conseguindo reorganizar meus gastos para poder adequar essa nova realidade. Por exemplo, aluguel com a parcela, condomínio, conta de luz e etc. São custos que eu não tenho, mas vou precisar incluir na minha rotina”, disse.

Mudanças econômicas entre gerações

Segundo o economista e planejador financeiro Danilo Miranda, questões econômicas atuais também acabam interferindo ainda mais nos planos de quem se planeja para morar sozinho.“Na década de 90 até o início dos 2000, o aluguel correspondia a uma porcentagem menor da renda familiar. Considerando dois salários mínimos, o aluguel representava em torno de 25% da renda, mas hoje corresponde a 40%”, explica.

Segundo Danilo, isso acontece porque há um “descompasso” entre a variação do preço do aluguel no decorrer dos anos e o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Em 2025, enquanto o preço do aluguel variou em média 10% ao ano, conforme dados do FipeZap, o IPCA variou 4.26% ao ano”, aponta.

Ainda de acordo com ele, considerando dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), nos últimos cinco anos, o salário mínimo variou cerca de 7% ao ano. Miranda explica que o índice não chega a acompanhar a alta do preço dos alugueis, o que acaba diminuindo o poder de compra da população.