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Cooperativas colocam pequenos produtores de Pernambuco no mapa da exportação de uvas

Cooperativa de Petrolina registrou faturamento de R$ 272 milhões em 2025 e mais de 21,3 mil toneladas de uva comercializadas

Por Mariana de Sousa

Cooperativa no Sertão de Pernambuco reúne 40 produtores e movimenta uma cadeia econômica que gera milhares de empregos

No coração do Sertão pernambucano, o cooperativismo faz da cidade Petrolina uma força da fruticultura e coloca o Vale do São Francisco no mapa mundial da exportação de uvas. Um dos exemplos dessa força coletiva é a Coopexvale, cooperativa fundada em 2004 e hoje considerada a maior cooperativa de uvas de mesa da região.

Com faturamento de R$ 272 milhões em 2025 e mais de 21,3 mil toneladas de uva comercializadas, a cooperativa reúne 40 produtores e movimenta uma cadeia econômica que gera milhares de empregos diretos e indiretos. Da produção no campo, a Coopexvale chega até mercados exigentes da Europa e da América do Norte.

Atualmente, a cooperativa exporta para países como Reino Unido, Alemanha, França, Espanha, Canadá e Estados Unidos. Apesar da presença internacional, o mercado brasileiro ainda representa a maior parte das vendas: cerca de 70% da produção fica no Brasil e 30% segue para exportação.

“Tem muita gente que pensa que exportação é tudo, mas o mercado interno brasileiro é muito forte e paga tão bem quanto”, explica Jailson Lira, produtor rural e coordenador do comitê de exportação da Coopexvale.

A cooperativa trabalha exclusivamente com uva de mesa, cultivando mais de dez variedades desenvolvidas principalmente na Califórnia e adaptadas ao clima do Vale do São Francisco. São 640 hectares de uvas plantadas, tornando a Coopexvale a maior cooperativa da região em área produtiva.

“Nós produzimos frutas com a mesma qualidade das uvas da Califórnia, da Itália e da Espanha. O Vale do São Francisco hoje está antenado com o que existe de mais moderno no mundo”, afirma Jailson.

Logística busca garantir qualidade
Na estrutura, seis túneis de frio, nove câmaras frias, três docas de embarque, laboratório de análises, estação de tratamento de água e uma usina própria de energia solar com 1.452 placas solares. A logística busca garantir qualidade: em até seis horas após a colheita, a fruta já precisa estar resfriada para preservar sabor, textura e durabilidade.

“Você abre uma caixa de uva na Europa depois de 20 dias e ela parece ter sido colhida recentemente”, destaca o produtor.

O cuidado com o produto ajudou a consolidar marcas próprias reconhecidas nacionalmente, como Gota de Mel, considerada a linha premium da cooperativa. Algumas variedades chegam a ser comercializadas com preço até 30% superior ao valor médio do mercado.

“A gente derrubou aquele tabu de que só a fruta exportada é boa. Hoje fazemos fruta de excelência tanto para o exterior quanto para o consumidor brasileiro”, diz Jailson.

Cooperativa amplia força dos produtores
A força da cooperativa está justamente na união dos produtores. Sozinhos, pequenos e médios agricultores dificilmente conseguiriam acessar grandes redes de supermercados ou mercados internacionais. Juntos, conseguem dividir custos, ampliar a capacidade de negociação e alcançar novos clientes.

“Um produtor sozinho não consegue chegar nos mercados que a cooperativa chega hoje. O cooperativismo permite alcançar mercados maiores”, resume.

Além da exportação, o cooperativismo tem impacto direto na economia regional. A produção de uva irrigada é uma das atividades que mais geram emprego no Sertão pernambucano. Segundo os produtores, cada hectare de uva gera de quatro a cinco empregos diretos.

Pernambuco possui atualmente 123 cooperativas registradas na Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB-PE), reunindo mais de 190 mil cooperados, com o agronegócio concentrando a maior força do cooperativismo no estado, principalmente no Vale do São Francisco.

Administrativo é desafio do setor
Apesar do crescimento, o setor ainda enfrenta desafios. Muitas cooperativas têm dificuldades para manter a regularização fiscal, acesso a crédito e estrutura administrativa.

“Cooperativa não é apenas abrir um CNPJ. Existe toda uma responsabilidade de gestão, transparência e prestação de contas”, alertou a equipe da OCB.

Sucessão familiar em foco

Na Coopexvale, um dos principais focos agora é garantir a sucessão familiar e preparar a nova geração para continuar o trabalho iniciado pelos fundadores. Cerca de 20% dos cooperados já são sucessores, filhos de produtores que começaram a assumir funções dentro da cooperativa.

É o caso de Gabriela Olinda, filha de Jailson Lira e integrante do conselho administrativo da cooperativa. Há oito anos acompanhando o trabalho da família na fazenda Lira Agro, ela hoje participa também dos comitês de sucessão, jovens e mulheres da cooperativa.

A Lira Agro possui 40 hectares de uva de mesa e realiza até duas safras por ano. Cada ciclo produtivo dura cerca de 120 dias e exige irrigação, poda, manejo e acompanhamento constante das plantações.

“A uva exige muito cuidado. Ela precisa basicamente de sol e água, e o Vale do São Francisco consegue oferecer isso durante o ano inteiro”, explica Gabriela.

Na propriedade, cerca de 90% da mão de obra vem da comunidade local. Segundo a produtora, a fazenda prioriza ensinar e capacitar trabalhadores da região.

“A gente prefere muitas vezes pegar pessoas sem experiência para ensinar nossa forma de trabalhar. Isso também transforma a comunidade”, afirma.

Gabriela destaca que o cooperativismo foi fundamental para sua formação dentro do agronegócio.

“Eu entendi que a cooperativa não era apenas uma forma de comercializar fruta. Era uma forma de crescer junto, aprender com outros produtores e fortalecer toda a região”, conta.

A sucessão virou pauta estratégica dentro da Coopexvale. A cooperativa criou um comitê voltado para preparar jovens e famílias para o futuro da atividade.

“Não é só uma tendência. É uma necessidade garantir que os jovens assumam esse protagonismo e deem continuidade ao legado construído pelos fundadores”, diz Gabriela.

Hoje, ela ocupa o cargo de secretária administrativa da cooperativa, espaço que antes era ocupado pelo pai.

“Essa passagem de bastão já começou. Os mais antigos estão abrindo espaço para que os mais novos aprendam e assumam responsabilidades”, completa.