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Cientistas espanhóis descobrem que obesidade altera e prejudica o relaxamento do coração

O estudo permitiu comprovar que a ativação do receptor de glicocorticoides é um mecanismo causal da disfunção diastólica

Por Isabel Alvarez

Estudo revela que obesidade pode ser transmitida pelos genes e carga materna é mais determinante

Uma equipe de pesquisadores do Centro Nacional de Investigações Cardiovasculares Carlos III (CNIC), na Espanha, descobriu como a obesidade altera e prejudica o relaxamento necessário do coração. A descoberta pode abrir caminho para tratamentos personalizados de acordo com a causa específica da lesão cardíaca.

O estudo permitiu comprovar que a ativação do receptor de glicocorticoides é um mecanismo causal da disfunção diastólica (a incapacidade do coração de relaxar) precoce associada à obesidade. Os resultados foram publicados na Cardiovascular Research, revista científica internacional oficial da Sociedade Europeia de Cardiologia.

Segundo o CNIC, a insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEp) já representa mais da metade dos casos de insuficiência cardíaca e afeta cerca de 23 milhões de pessoas no mundo. A ICFEp é uma condição em que o coração mantém a capacidade normal de contração (fração de ejeção igual ou superior a 50%), mas apresenta dificuldade para relaxar e se encher de sangue adequadamente entre os batimentos.

“O aparecimento desta condição está intimamente relacionado a perturbações como obesidade, hipertensão arterial, hiperglicemia e apneia do sono. Como essas condições frequentemente coincidem no mesmo paciente, torna-se difícil determinar quais mecanismos cada uma ativa e por que os tratamentos não apresentam a mesma resposta em todos os casos”, explicou a instituição.

O trabalho, dirigido pelo pesquisador Enrique Lara-Pezzi, líder do grupo de Regulação Molecular da Insuficiência Cardíaca do CNIC, analisou separadamente o efeito precoce dessas quatro comorbidades no coração.

Para isso, a equipe utilizou modelos animais (camundongos) que reproduziam a evolução da doença associada ao envelhecimento e analisou o tecido cardíaco nas fases iniciais da alteração do relaxamento ventricular, antes do desenvolvimento da insuficiência. Por meio do sequenciamento de RNA de núcleo único — tecnologia que permite mapear a atividade dos genes em diferentes tipos celulares —, os pesquisadores analisaram cerca de 50 mil núcleos do ventrículo esquerdo.

"A obesidade e a hiperglicemia provocam a remodelação molecular mais intensa e extensa, com alterações em diferentes tipos de células presentes no coração. Além disso, a hipertensão e a hipóxia intermitente crônica, utilizada para reproduzir a apneia do sono, geraram modificações mais moderadas", afirmou Antonella Ausiello, pesquisadora do CNIC.

Apesar de compartilharem alguns efeitos, a obesidade e a hiperglicemia não danificam o órgão do mesmo modo. Nos modelos de obesidade, a equipe identificou a ativação do receptor de glicocorticoides como um dos principais mecanismos responsáveis pela lesão cardíaca.

Os resultados apontam que a ativação desse receptor pode constituir um alvo terapêutico específico e modificável para a disfunção diastólica associada à obesidade. Nos modelos de hiperglicemia, contudo, a inibição dessa mesma via não foi suficiente para restabelecer a função cardíaca, evidenciando que cada comorbidade induz a lesão por meio de mecanismos moleculares distintos — o que descarta uma estratégia terapêutica única aplicável a todos os pacientes.

Os autores destacam que os dados suportam o desenvolvimento de estratégias de medicina personalizada, dirigidas ao mecanismo molecular predominante em cada paciente. Eles ressaltam, porém, que os resultados foram obtidos em modelos experimentais e que será necessário confirmá-los em amostras humanas e ensaios clínicos antes de considerar sua aplicação terapêutica.