Mário Rodrigues enfrenta dores de futebol e da política

Publicado em: 02/07/2018 03:00 Atualizado em: 02/07/2018 08:45

A jogada chama-se facão. E  quase sempre é gol. Foi assim o gol de Paulinho contra a Sérvia. O volante corre sozinho pela direita e cruza a zaga em horizontal, por trás do meio-campo até chegar à área, onde  penetra entre   os zagueiros. Está sozinho quando a bola chega, lançada pelo volante do lado esquerdo. O goleiro, em pânico nada pode fazer. Esboça uma reação qualquer, mas a bola entra no gol. Desesperado, talvez provoque um pênalti.

Foi assim que me senti ao ler o romance A Cobrança, de Mário Rodrigues, ganhador do Prêmio Sesc de Literatura pela segunda vez, publicado pela editora Record. Depois do “facão”, sentei-me para escrever estas mal traçadas linhas. Sangrava e estava atingido de morte. Restava-me pedir clemência ao centro-avante na hora do pênalti.

O  autor transita com enorme facilidade entre os dois temas e traz à tona um amplo debate sobre a Constituição Brasileira de 1988 quando os políticos brasileiros assumiam o compromisso de tornar a Pátria gigante, justa e em permanente progresso desaguando, porém, neste espantoso processo de corrupção e de subdesenvolvimento. Aterrador. O goleiro não pode fazer nada e lhe resta e escutar os gritos de bravata e de escândalo da torcida. Enxuga o rosto, se ajoelha perto da trave  reza. Deus está perto, ele tem certeza.

O texto tem início com uma incrível metáfora: dolorosa e cruel. O protagonista está nascendo em parto doloroso numa maternidade popular, quase no mesmo instante em que nasce a Constituição. A mãe, com filho e tudo, é expulsa da maternidade: “Chegara ao posto de saúde uma grávida mais nobre indicada pelo prefeito.” Conta o narrador: “Era um final de tarde. 5 de outubro de 1988.”

Um pouco adiante, no começo do capítulo, escrevera: “Aquela tarde em Brasília, capital federal, estava nublada. Um vento frio e extemporâneo lufava sobre as águas do Paranoá. ..Declaro promulgada.  Documento da liberdade, da dignidade, da democracia social do Brasil. Que Deus nos ajude.”

Daí em diante, sem recorrer ao panfleto, Mário Rodrigues promove um debate sobre a Constituição e o destino do Brasil. Leiam logo este livro que enriquece a literatura brasileira.

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