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Crimes israelenses cometidos na Palestina são denunciados em 'Naza', em cartaz nos cinemas

Premiado no Festival de Veneza e favorito ao Oscar de 2027, documentário 'Naza' está em exibição no Cinema São Luiz e no Museu do Homem do Nordeste

Julio Cavani

Publicado: 16/10/2026 às 14:54

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Documentário "Naza" foi filmado em Tel Aviv. (Foto: Vitrine Filmes/ Divulgação)

Sem exibir os rostos e com vozes alteradas para evitar o reconhecimento, funcionários do Exército de Israel concordaram em ceder entrevistas secretamente aos cineastas Yuval Abraham e Rachel Szor. O resultado é "Naza", filme que está em cartaz no Recife, no Cinema São Luiz e no Museu do Homem do Nordeste. Premiado em setembro no Festival de Veneza, o documentário já aparece em todas as listas de favoritos ao Oscar 2027.

A maioria dos entrevistados não vai ao campo de batalha na Palestina. Eles acionam bombardeios remotamente e os acompanham por meio de imagens de vídeo transmitidas por drones. Também utilizam algoritmos e outros sistemas tecnológicos, além de terem acesso ao conteúdo de telefones celulares usados por palestinos dentro de suas residências. O título do filme é o termo usado para denominar a quantidade de pessoas inocentes mortas na Faixa de Gaza como "efeito colateral" dos ataques a prédios onde supostamente estariam integrantes do Hamas.

Em algumas das entrevistas, repletas de descrições de detalhes, eles admitem assassinar dezenas de mulheres e crianças em bombardeios que não atingem os alvos originalmente planejados, mas consideram as mortes como algo normal na rotina de trabalho, como uma questão técnica e numérica. Questionados sobre sentimentos de culpa, respondem que apenas cumprem missões decididas por instâncias superiores, apesar de alguns admitirem que comemoram quando atingem seus objetivos e sentem raiva do Hamas. Além das mortes, também executam a destruição completa de todos os prédios e casas de cidades e bairros já evacuados.

"Naza" foi totalmente filmado em Tel Aviv, em Israel. Os depoimentos foram captados em coberturas de prédios da cidade, com os entrevistados sempre cobertos por sombras, em contraluz. As imagens da metrópole à noite levam o público a imaginar o que aconteceria se tudo fosse bombardeado, como ocorre cotidianamente na Faixa de Gaza, além de expor o contraste entre a sensação de segurança sentida pelos israelenses em comparação com a devastação vivida pelos palestinos que moram a menos de 100 quilômetros de distância dali.

Mais do que um registro documental, é um filme que utiliza elementos cinematográficos de som, câmera e luz para transmitir os horrores do genocídio de forma mais indireta e subliminar, mas ainda assim chocante. Não por coincidência, um dos produtores do documentário é o cineasta judeu britânico Jonathan Glazer, diretor do filme "Zona de Interesse" (vencedor de dois Oscars), que retrata a rotina de nazistas vizinhos do campo de concentração e extermínio de Auschwitz na Segunda Guerra Mundial.

Os diretores do filme são israelenses. Yuval Abraham também dirigiu "Sem Chão", vencedor do Oscar de Melhor Documentário em 2025, codirigido junto com os palestinos Basel Adra e Hamdan Ballal. 

Desde o lançamento de "Naza" em Veneza, onde ganhou o Prêmio Especial do Júri, o governo de Israel tenta reprimir a exibição do filme e impor sanções aos realizadores, além de investigar a identidade dos entrevistados. O documentário é um desdobramento de uma série de reportagens do jornal inglês The Guardian. A Federação Europeia de Jornalistas repudiou a postura das autoridades israelenses em relação a direitos da imprensa, como a manutenção do sigilo das fontes.

Além dos depoimentos, o filme também resgata imagens de arquivo e dados que mostram como os assassinatos cometidos pelo governo israelense são oficialmente considerados crimes de guerra ou crimes contra a humanidade. É resgatada também uma entrevista antiga com Benjamin Netanyahu em que ele considera como "terrorismo" exatamente os mesmos atos cometidos por sua atual gestão como primeiro-ministro. Segundo dados oficiais, mais de 74 mil pessoas já foram mortas por Israel na Palestina desde outubro de 2023, quando o Hamas foi responsável 1,2 mil mortes em território israelense.

SERVIÇO:

"Naza" (Inglaterra, 2026), de Yuval Abraham e Rachel Szor
Cinema do Museu (Avenida 17 de Agosto, 2187, Casa Forte)
Sexta às 19h, sábado às 14h10, domingo às 18h50, segunda às 17h40, quarta às 19h50. Ingressos a partir de R$ 5 (meia).
Cinema São Luiz (Rua da Aurora, 175, Boa Vista, Centro)
Sexta às 18h30, sábado às 16h30, quarta às 18h30. Ingressos a partir de R$ 8 (meia).

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