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FESTIVAL DE CANNES

Distintas camadas do desejo na adolescência dão vida ao drama 'Enzo'

Filme dirigido por Robin Campillo (de '120 Batimentos por Minuto') foi destaque na Quinzena dos Realizadores, mostra paralela do Festival de Cannes

André Guerra - Enviado especial

Publicado: 15/05/2025 às 12:35

 /Divulgação

(Divulgação)

Exibido na denominada Quinzena dos Realizadores, mostra paralela ao Festival de Cannes criada em 1969, o drama Enzo revela suas muitas camadas de modo gradual. E, talvez por essa razão, o filme dirigido por Robin Campillo e escrito por Laurent Cantet (que originalmente dirigiria o projeto, mas faleceu em 2024 em decorrência de um câncer) seja tão surpreendente.

A trama mostra o personagem-título, um menino de 16 anos (vivido por Eloy Pohu), rompendo com aquilo que se espera de um jovem burguês de uma família que, ao menos na superfície, é perfeitamente funcional. Mesmo sem qualquer habilidade evidente, ele se voluntaria para um trabalho de aprendiz de pedreiro, ambiente no qual começa a desenvolver uma relação de admiração (que paulatinamente ganha outros contornos) para com Vlad (Maksym Slivinskyi).

O filme não obriga o espectador a embarcar nessa jornada emocional, tampouco o puxa diretamente para dentro da experiência. As motivações do personagem demoram a se revelar e ele próprio parece desconhecê-las. A câmera sugere suas intenções e impulsos com sutileza, confiando na capacidade de dedução do público a partir, sobretudo, das interações do elenco.

Os diálogos são quase sempre tangenciais. Nunca dá a impressão de que as pessoas estão conversando sobre o assunto da cena — o que faz total sentido na medida em que Enzo parece viver à deriva: ele não deseja a vida organizada e financeiramente estável que os pais preservam e prefere trabalhar na obra, mas também não demonstra talento ou força de vontade nesse mundo braçal, e menos ainda qualquer consciência de classe ou engajamento específico nos males do mundo (exceto seu fetiche pela 'virilidade masculina' da guerra)

O ponto forte de Enzo, no entanto, está em reconhecer esse não-lugar do personagem e evitar respostas fáceis para sua personalidade. O diretor prefere alusões de atmosfera e sensualidade à verbalização dos sentimentos, na maior parte das vezes. O lado sensorial do filme perceptível desde as primeiras interações, especialmente no cuidado com o clima da casa dos pais e nos closes intensos que revelam as tensões sexuais.

A cena dele com a menina na piscina exemplifica essa sensibilidade háptica, com o som da água, sem recorrer a movimentos de câmera artificiais. O contato gradual com o personagem de Maksym Slivinskyi (excelente do início ao fim) potencializa essa vocação, especialmente na cena do primeiro toque.

A construção da idealização do protagonista em relação ao outro corpo, assim como as pulsões e confusões que surgem, ameaça, no terceiro ato, descarrilar para confrontos melodramáticos que contrastariam com a contenção de todo o resto. Ainda assim, o reencontro do filme com o realismo  reafirma com solidez sua dimensão dramática.

Não é fácil desenvolver uma qualidade tátil tão intensa a partir de um formalismo tão contido, mas esse trabalho consegue justamente isso ao explorar profundamente os desejos do protagonista. Um trabalho inteligente e amadurecido em sua contenção que não faria feio na competição oficial do festival.

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