Um ano do caso Esther: contradições dos réus desafiam a Justiça
Com acesso exclusivo ao processo, o Diario revela versões conflitantes dos três acusados no caso da menina de 4 anos, assassinada em São Lourenço da Mata
Publicado: 21/10/2026 às 05:00
Criança foi encontrada morta em uma cacimba, no terreno de casa próxima de onde morava com a família (Foto: Sandy James/DP Foto)
Um ano após chocar Pernambuco, o assassinato da menina Esther Isabelly, de 4 anos, ainda tem perguntas sem respostas. A Justiça tem pela frente o desafio de desvendar um jogo complexo de versões contrastantes dos três réus no caso.
A menina brincava no Campo do Botafogo, no bairro do Pixete, em São Lourenço da Mata, no Grande Recife, quando desapareceu, em 20 de outubro de 2025. Cerca de 21 horas depois, foi encontrada morta em uma cacimba na mesma região, em uma casa próxima de onde morava com a família.
Três pessoas respondem no processo: Fernando Santos de Brito, de 32 anos, apontado como autor do homicídio; e Fabiano Rodrigues de Lima, de 28, e Uilma Ferreira dos Santos, de 34, ambos acusados por ocultação de cadáver e fraude processual.
O Diario de Pernambuco teve acesso exclusivo ao processo. As investigações da Polícia Civil de Pernambuco (PCPE) apontam que Fabiano e Uilma modificaram propositalmente o estado da casa onde Esther foi achada para acobertar Fernando, que é ex-companheiro de Uilma e vizinho de Fabiano.
A acusação diz que os réus apresentaram inconsistências consideradas relevantes que acabam “reforçando o teor da denúncia”.
A busca da mãe
O relato da mãe da vítima, Fernanda Pereira Ramos, reconstitui os momentos que antecederam o sumiço e a primeira busca no local. Em depoimento, ela contou que estava em casa com amigos quando Fernando Santos de Brito se juntou ao grupo para beber cerveja, permanecendo no local até por volta das 16h30, momentos antes de a criança desaparecer.
Ao dar falta da filha, Fernanda foi até o Campo do Botafogo, onde a criança estava com irmãos, e foi informada pelos outros dois filhos, de 7 e 8 anos, de que um homem havia levado Esther. Um dos garotos apontou a casa de Fernando como o local para onde a irmã teria sido levada.
Fernanda declarou que foi imediatamente à residência, acompanhada da avó da garota. No local, Fernando permitiu a entrada das familiares para procurarem a criança.
A mãe disse que procurou nos cômodos da casa e chegou a olhar a cacimba onde o corpo foi achado no dia seguinte, mas não viu nada naquele momento. Ela chamou a atenção para o fato de o chão estar molhado com água e os móveis fora do lugar.
Fernando
Fernando Santos de Brito é o único dos três réus que permanece preso no Presídio de Itaquitinga, na Zona da Mata Norte.
A conduta dele é o centro da acusação desde as primeiras horas do desaparecimento de Esther. Segundo os autos, quando a mãe da vítima, Fernanda Pereira Ramos, foi até a residência dele após a indicação de um dos irmãos da criança, Fernando permitiu a entrada das familiares, mas negou que a menina estivesse no lá.
Apesar da localização do corpo na residência onde ele morava e de ter sido visto participando de protestos na comunidade montado a cavalo durante as buscas noturnas pela garota, Fernando nega qualquer envolvimento com o crime.
A defesa aponta “fragilidades materiais” indicadas por exames periciais do processo, como o laudo de DNA que concluiu que o perfil masculino obtido de material genético recolhido sob as unhas da vítima não apresentou compatibilidade nem com Fernando, nem com Fabiano.
Uilma
Uilma Ferreira dos Santos, ex-companheira de Fernando Santos de Brito, também nega qualquer participação no crime.
Em depoimentos à polícia e à Justiça, ela afirmou que já não residia no local do crime na época dos fatos e que estava em outro endereço quando Esther desapareceu. Ela também diz que não lavou a casa no dia em que Esther sumiu.
Fabiano
Em depoimento, Fabiano Rodrigues de Lima afirmou que não estava em casa no momento do desaparecimento. Ele afirmou que passou o dia na casa de uma amiga e voltou por volta das 18h.
À Justiça, ele admitiu que ajudou Uilma a lavar o imóvel, apresentando como explicação o descongelamento de uma geladeira, e disse ainda que Uilma retirou água da cacimba e teria colocado fogo em objetos.
Em liberdade
Dois dos três réus do caso envolvendo a morte da criança Esther Isabelly Pereira da Silva, de 4 anos, respondem em liberdade.
Fabiano e Uilma foram soltos em dezembro de 2025, após o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) pedir a substituição das prisões por medidas cautelares.
O órgão argumentou que eles não haviam sido acusados de crime doloso contra a vida, não teriam agido com violência e não haveria risco suficiente para justificar a manutenção das prisões.
Em dezembro, o pedido foi aceito pela Justiça, que determinou o uso de tornozeleira eletrônica, a proibição de contato ou aproximação da família de Esther e a restrição de sair de São Lourenço da Mata.
Fabiano havia sido preso em flagrante, com Fernando, por ocultação de cadáver no dia 21 de outubro, poucas horas após a localização do corpo de Esther.
Eles foram levados ao Centro de Observação e Triagem Professor Everardo Luna (Cotel), em Abreu e Lima, no Grande Recife, e depois encaminhados ao Presídio de Itaquitinga, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, onde Fernando segue preso.
Já Uilma estava presa na Colônia Penal Feminina do Recife (CPFR), no Engenho do Meio, na Zona Oeste do Recife, desde 7 de novembro, após a Justiça decretar a prisão temporária dela.
Relembre
Segundo o processo do caso, Esther desapareceu no dia 20 de outubro de 2025, quando brincava no Campo do Botafogo, no bairro do Pixete, em São Lourenço.
O sumiço aconteceu por volta das 16h, quando ela estava com dois irmãos, de 7 e 8 anos. À Polícia, as crianças relataram que um homem encapuzado levou a garota.
Após tomar ciência do desaparecimento, a mãe de Esther procurou a filha. Fernanda disse à polícia que um dos irmãos de Esther chegou a indicar o imóvel como o local onde a garota estaria. Lá morava Fernando Santos de Brito.
“O homem permitiu a entrada da declarante, que procurou por Esther e não a encontrou, e ainda negou que tal criança tenha entrado na casa”, consta no depoimento de Fernanda à polícia.
Fernando morava em uma casa conjugada com Fabiano Rodrigues de Lima, que tinha 27 anos na época. No processo, consta que a mãe de Esther também olhou o local e chegou a procurar na cacimba onde o corpo da criança foi achado, mas não encontrou nada.
Cerca de 21 horas após o desaparecimento, o corpo da menina foi localizado, sem roupas, dentro da cacimba, no mesmo imóvel.
Crime
Esther morreu em decorrência de lesões na cabeça causadas por pancadas, segundo o Instituto Médico Legal (IML). O laudo aponta fraturas extensas no crânio e na face. Para a perícia, a menina já estava morta quando foi colocada na cacimba.
Os exames identificaram sangue humano no imóvel onde morava Fabiano. A análise genética apontou material compatível com o perfil de Esther e de uma mulher não identificada.
Em dezembro de 2025, o MPPE denunciou Fernando Santos de Brito por homicídio, com as qualificadoras de meio cruel e recurso que teria dificultado a defesa da vítima, além de ocultação de cadáver.
Fabiano Rodrigues e Uilma Ferreira foram acusados pelo órgão por ocultação de cadáver e fraude processual. Na ocasião, o órgão também pediu a liberdade deles e a manutenção da prisão preventiva de Fernando.
Em 17 de dezembro, a Justiça recebeu a denúncia do MPPE e tornou os três réus no caso.
Nas alegações finais apresentadas em julho de 2026, o MPPE e a assistência de acusação pediram que os três acusados sejam levados ao Tribunal do Júri.
Em outubro deste ano, a defesa de Fernando Brito apresentou as alegações finais e pediu a impronúncia do réu, sustentando a ausência de indícios suficientes de autoria para levá-lo a júri popular.