Juiz pernambucano denuncia xenofobia em restaurante no Rio Grande do Sul
Francisco Tojal relata ter sido alvo de xingamentos por causa do sotaque nordestino após perguntar sobre prato típico em Porto Alegre; tribunal pernambucano manifestou solidariedade e pediu apuração do caso
Publicado: 09/10/2026 às 21:23
Francisco Tojal diz ter sido alvo de xingamentos por causa do sotaque nordestino (Foto: Acervo pessoal)
O juiz Francisco Tojal Dantas Matos, do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), denunciou ter sido vítima de xenofobia em um restaurante de hotel em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Segundo o magistrado, o episódio ocorreu na terça-feira (6), quando ele estava na capital gaúcha para ministrar uma palestra sobre violência de gênero na infância e na adolescência, na Escola da Magistratura.
De acordo com o relato do juiz, a situação começou quando uma atendente sugeriu o prato típico à la minuta. Por não conhecer a refeição, ele pediu informações sobre o que era servido. Um homem que estava em uma mesa próxima teria reagido com deboche, questionando sua origem por desconhecer a comida regional. Em seguida, conforme a denúncia, o cliente passou a xingá-lo e tentou associá-lo a um grupo político.
Em vídeo publicado nas redes sociais, Tojal afirmou que a hostilidade estava relacionada ao seu sotaque e à sua origem nordestina. O magistrado também relatou ter ficado paralisado diante da abordagem e temido que a situação evoluísse para agressões físicas.
"Esse cidadão se levantou, se sentiu no direito de me xingar, de falar vários palavrões e ainda de me associar a um determinado grupo político, porque o momento de polarização e intolerância é imenso no nosso país."
"Ficou claro pra mim que o incômodo dele não era pela comida, era pelo meu sotaque, pela minha origem. O Sul é terra de gente acolhedora, mas nenhum cidadão brasileiro deve ser hostilizado no seu próprio país por ser de onde é. Eu sou nordestino com muito orgulho. Preconceito é crime e isso não se negocia", complementou o juiz.
O magistrado afirmou ainda que decidiu tornar o caso público para chamar a atenção para a xenofobia e evitar que outras pessoas passem por situações semelhantes. Ele ressaltou que o episódio não deve ser associado à população gaúcha como um todo e mencionou ter recebido manifestações de acolhimento e solidariedade de pessoas e instituições do estado.
Tojal registrou a ocorrência na Delegacia de Combate à Intolerância, em Porto Alegre. O caso foi noticiado nesta sexta-feira (9), após a divulgação do relato nas redes sociais.
TJPE repudia discriminação
Em nota, o Tribunal de Justiça de Pernambuco manifestou solidariedade ao magistrado e repudiou manifestações de xenofobia, preconceito e discriminação. A Corte destacou que Tojal estava no Rio Grande do Sul para uma atividade profissional relacionada ao enfrentamento da violência de gênero.
O tribunal defendeu a apuração dos fatos pelas autoridades competentes, com respeito aos procedimentos legais, e reafirmou o compromisso com os direitos humanos e o combate à intolerância.
“O Tribunal ressalta, ainda, que a diversidade cultural e regional constitui uma das maiores riquezas do Brasil e que nenhum cidadão deve ser alvo de constrangimento ou hostilidade em razão de sua origem”, diz o comunicado.
A Associação dos Magistrados do Estado de Pernambuco (Amepe) também manifestou solidariedade ao juiz e defendeu a investigação do episódio. No Rio Grande do Sul, a Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul (Ajuris) e a Escola da Ajuris repudiaram a hostilidade relatada e ofereceram apoio ao magistrado.