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"Super-humanos": iniciativa criada na pandemia hoje atende 2,6 mil famílias por mês

Criada durante a pandemia de Covid-19, a ONG Vizinhos Solidários hoje atende milhares de famílias e mobiliza voluntários em ações dentro e fora de Pernambuco

Nicolle Gomes

Publicado: 19/08/2026 às 07:00

Trabalho da ONG completou seis anos este ano/Foto: Divulgação/ONG Vizinhos Solidários

Trabalho da ONG completou seis anos este ano (Foto: Divulgação/ONG Vizinhos Solidários)

Tudo começou com 30 marmitas, feitas em uma cozinha caseira. Poucos dias depois da Organização Mundial da Saúde (OMS) classificar a Covid-19 como pandemia, o desejo de ajudar quem mais precisava mobilizou vizinhos de um mesmo prédio em Boa Viagem, na Zona Sul do Recife. A iniciativa se transformou em uma rede de solidariedade que hoje alcança cerca de 2.600 famílias por mês.

Maria Eduarda Fernandes, à época com 45 anos, decidiu que iria, com as próprias mãos, fazer comida para quem estava em situação de rua.

"Tudo começou de uma maneira despretensiosa. O pessoal perguntou o que eu estava fazendo e disse que queria ajudar. Daí veio o nome 'Vizinhos Solidários', porque cada um, na sua casa, fazia um pouquinho de cada coisa. Chegaram a sair cinco, seis carros por noite", relembra hoje, aos 51 anos.

O gesto individual de preparar as refeições para distribuir à população em situação de rua do Recife logo ganhou o reforço de outros moradores do prédio de Eduarda, que passaram a contribuir com a ação. Daí nasceu o Instituto Vizinhos Solidários, um projeto que tem um propósito de inspiração pessoal, ela conta.

“Aos 5 anos, eu acompanhava minha avó no Hospital Infantil para fazer entrega em datas comemorativas, como Dia das Crianças e Natal. Essa pegada social sempre existiu dentro da minha família. Minha bisavó entregava sopa também toda noite na porta da casa dela, em Casa Amarela. Acho que veio no sangue”, adiciona.

O trabalho social logo se transformou na vida da fundadora. Ela conta que encerrou as atividades de sua empresa privada para dedicar-se integralmente à gestão do projeto, que atualmente atende famílias do Pina e do interior de Pernambuco.

A distribuição de alimentos continua sendo uma das principais frentes de atuação da instituição, com entrega diária de cestas básicas às famílias atendidas. Mas o trabalho não termina na alimentação. A ONG também mantém ações voltadas à saúde e ao bem-estar dos moradores.

Às sextas-feiras, são disponibilizados atendimentos psicanalíticos voltados ao tratamento de vícios, depressão e apoio emocional. Nos sábados, crianças neurodivergentes ou com problemas respiratórios são acolhidas, detalha a diretora-presidente.

A atuação da ONG também se estende para além da rotina do Pina. Segundo Eduarda, em 2022, os voluntários participaram da mobilização em apoio às vítimas do incêndio nas palafitas do bairro. Dois anos depois, o projeto enviou cerca de 70 toneladas de doações às vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul.

A fundadora destaca, também, que a continuidade das atividades não depende de “heroísmo”, mas de compromisso.

“Nós não somos super-heróis, somos super-humanos, porque precisamos ter esse olhar de enxergar a necessidade do outro. Eu nunca vou conseguir sentir a sua dor. Mas eu vou conseguir enxergar o seu sofrimento”, acrescenta.

Seis anos depois das primeiras marmitas, a ONG já planeja novos passos. Para 2027, a expectativa é conseguir uma nova sede no interior do estado, para melhor viabilizar o trabalho na localidade.

Eduarda comenta que o trabalho diário exige mais do que entusiasmo passageiro, e é imprescindível para concretizar a empatia na vida de quem precisa.

"Existe uma diferença muito grande entre motivação e disciplina. Motivação vai embora. A disciplina é estar ali todo dia porque sabe que alguém precisa de você. O telefone vai tocar e pode ser uma necessidade. Não existe um motivo mais justo do que esse: cuidar do outro", afirma.

Diante de um trabalho que tem alcançado tantas pessoas e feito a diferença em tantas vidas, Eduarda compartilha como é ser uma agente de solidariedade. “O sentimento é de transparência, gratidão e dever cumprido”, conclui.

 

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