Pesquisa inédita em Pernambuco testa probióticos para salvar coral-de-fogo, ameaçado pelo aquecimento do mar
Projeto tem estudo financiado pela Arábia Saudita e testa uso de bactérias benéficas para aumentar resistência do coral-de-fogo ao aquecimento do mar e ao branqueamento na APA Costa dos Corais
Publicado: 18/05/2026 às 06:00
Vinte e quatro aquários com corais-de-fogo são mantidos pelo PCR em estudo (Foto: Marina Torres/DP Foto)
O aumento da temperatura do oceano já provocou a morte de cerca de 80% das colônias de coral-de-fogo monitoradas na APA Costa dos Corais, entre Pernambuco e Alagoas. Agora, uma pesquisa inédita desenvolvida no Nordeste brasileiro tenta encontrar uma alternativa para retardar o colapso dos recifes por meio do uso de probióticos para aumentar a resistência dos corais às ondas de calor marinhas.
O experimento é conduzido em um ambiente controlado em um prédio comercial no Bairro do Recife pelo Projeto Conservação Recifal (PCR), organização sediada na capital pernambucana. A atual pesquisa utiliza colônias da espécie Millepora alcicornis, conhecida popularmente como coral-de-fogo, uma das estruturas mais importantes para formação dos recifes do litoral nordestino.
A iniciativa é feita diante do avanço dos eventos de branqueamento registrados no Atlântico Sul. Estudos publicados em 2025 mostram que os recifes brasileiros vêm sofrendo impactos cada vez mais severos devido ao aquecimento oceânico e à acidificação da água do mar.
Uma das pesquisas mais recentes, publicada na revista Marine Environmental Research, identificou mortalidade em massa do coral-de-fogo após as ondas de calor marinhas registradas entre 2019 e 2020 no Nordeste. O estudo apontou que a colonização das estruturas mortas por algas dificulta a recuperação natural dos recifes.
Outro trabalho científico, divulgado em 2025 pela revista Environmental Science: Advances, demonstrou que a acidificação oceânica afeta diretamente o metabolismo energético do Millepora alcicornis, comprometendo processos bioquímicos essenciais para sua sobrevivência.
É nesse cenário que o PCR tenta desenvolver uma estratégia experimental baseada em microbiologia marinha. “O nosso maior desafio, inicialmente, foi coletar os corais e conseguir mantê-los em aquários, criando toda a estrutura necessária para realizar o experimento. É um esforço muito grande e uma atividade inédita. Nunca foi feito um experimento desse tipo em todo o Nordeste do Brasil com espécies daqui e nesse formato. Agora, estamos na fase de monitoramento para conseguir observar os resultados”, explica o coordenador do projeto, Pedro Henrique Pereira.
“Esses probióticos já demonstraram eficiência em outras partes do mundo. Experimentos realizados na Austrália e no Caribe mostraram que eles podem ser eficientes na melhoria da saúde dos corais. Então, agora teremos os primeiros resultados voltados para o Nordeste do Brasil, que devem começar a sair no próximo mês”, complementa.
O coordenador do projeto explica que a pesquisa tenta reproduzir em laboratório as condições ambientais enfrentadas pelos recifes durante eventos extremos de aquecimento do oceano.
Hoje, a estrutura experimental conta com 24 aquários e quase 100 fragmentos de coral-de-fogo monitorados diariamente por pesquisadores, estagiários e mergulhadores científicos.
“Existem aquários tratados com probióticos e outros sem o tratamento, justamente para possibilitar a comparação dos resultados. A mensagem principal desse experimento é que estamos tentando oferecer uma esperança de sobrevivência por mais algumas décadas para os recifes de corais, que são ecossistemas extremamente ameaçados e que estão morrendo de forma muito rápida. É uma tentativa de criar uma alternativa que permita aumentar as chances de sobrevivência dos corais”, destaca Pedro Henrique.
Como os probióticos agem nos corais
Os probióticos utilizados na pesquisa são compostos por consórcios bacterianos, conjuntos de bactérias benéficas capazes de interagir com o microbioma natural dos corais.
Os corais funcionam como “holobiontes”, organismos que dependem diretamente da interação entre o animal, microalgas simbióticas, fungos, vírus e bactérias para sobreviver. Quando o oceano aquece além do limite suportado, esse equilíbrio biológico entra em colapso e isso provoca o branqueamento.
Durante episódios extremos de calor, os corais expulsam as zooxantelas (microalgas responsáveis por grande parte da produção de energia do organismo por meio da fotossíntese). Sem essas algas, os corais perdem a cor, entram em estresse fisiológico e podem morrer por falta de energia. Os probióticos tentam atuar nesse processo.
Segundo pesquisas recentes conduzidas por cientistas da King Abdullah University of Science and Technology, bactérias benéficas podem fortalecer mecanismos naturais de defesa dos corais, reduzir processos inflamatórios, melhorar a cicatrização dos tecidos e aumentar a tolerância ao estresse térmico.
Os micro-organismos também podem auxiliar na produção de compostos antioxidantes capazes de reduzir os danos celulares provocados pelas altas temperaturas.
Uma revisão científica publicada em 2025 na revista npj Biodiversity apontou que bactérias fototróficas e outras comunidades microbianas associadas aos corais têm potencial para atuar como “escudo biológico” contra o aquecimento do mar. Nos experimentos do PCR, os pesquisadores inoculam os probióticos diretamente na água dos aquários antes de submeter os corais a temperaturas elevadas.
“A gente inocula esse probiótico na água para observar se os corais que recebem o tratamento vão se tornar mais resistentes às mudanças climáticas e à variação de temperatura. Então, vamos aquecer a água dos aquários com corais tratados com probiótico e dos aquários com corais sem probiótico. Depois, vamos comparar ao longo do tempo como esses corais reagem ao uso do probiótico”, explica Pedro Henrique.
“O segundo passo do projeto é levar esse experimento para o mergulho em campo. A ideia é ir até os recifes de corais, selecionar algumas colônias, marcá-las, acompanhar sua evolução ao longo do tempo e aplicar também o probiótico para verificar se esses corais resistem melhor ao aquecimento das águas”, complementa.
Coral-de-fogo perdeu 80% das colônias monitoradas
O coral-de-fogo é considerado uma das estruturas fundamentais para formação dos recifes costeiros do Nordeste. Além de ajudar na dissipação da energia das ondas, funciona como abrigo para diversas espécies marinhas e participa da manutenção do equilíbrio ecológico dos recifes.
No entanto, nos últimos anos, a espécie entrou em colapso populacional em áreas monitoradas da APA Costa dos Corais.
“Essa espécie era muito abundante aqui no litoral de Pernambuco. É uma espécie muito importante porque participa da formação dos recifes de corais. Escolhemos essa espécie por dois fatores: primeiro, porque ela é emblemática e muito importante para os recifes de corais; segundo, porque está sofrendo uma taxa de mortalidade extremamente alta. Então, estamos tentando proteger uma espécie hoje ameaçada de extinção”, pontua o coordenador do PRC.
Os dados citados pelo pesquisador dialogam com o estudo publicado este ano por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que analisou os impactos do branqueamento em recifes do Nordeste brasileiro.
O levantamento mostrou que a mortalidade variou conforme profundidade, circulação da água e nível de proteção ambiental dos recifes, mas atingiu índices considerados alarmantes em diferentes pontos monitorados.
O experimento desenvolvido em Pernambuco acompanha uma corrida científica internacional para tentar retardar o avanço da crise climática sobre os recifes de coral.
Em 2025, pesquisadores da Flórida conseguiram reduzir o avanço de uma doença letal em corais utilizando tratamentos probióticos em campo. O estudo foi tratado como uma das experiências mais promissoras já registradas no uso de microbiologia aplicada à conservação marinha.
Mesmo assim, os pesquisadores alertam que essas estratégias não substituem a redução global das emissões de gases de efeito estufa.
Investimentos
Na esteira para combater os efeitos do aquecimento dos oceanos, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou R$ 6,6 milhões em recursos não reembolsáveis para o projeto Coral Vivo Regenera, que prevê ações de conservação em áreas de recifes de Pernambuco, como o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, a APA Recifes de Serrambi e os recifes de Porto de Galinhas, em Ipojuca.
Com investimento total de R$ 14 milhões, o projeto integra a chamada pública BNDES Corais, voltada à recuperação de ecossistemas recifais ao longo da costa brasileira.
As ações incluem monitoramento da biodiversidade marinha, produção de conhecimento científico, incentivo ao turismo sustentável e educação ambiental em escolas públicas. Segundo o BNDES, a iniciativa busca fortalecer a conservação de ecossistemas que sustentam atividades como pesca, turismo e proteção costeira, além de apoiar alternativas de renda para comunidades tradicionais.