° / °
Vida Urbana
PASSARINHO

"Pensei que ia levar a gente de novo", diz sobrevivente de deslizamento em Olinda

Moradores do Passarinho, bairro no limite entre Recife e Olinda, reviveram pânico durante nova madrugada de chuva, nesta terça-feira (5); sobrevivente do deslizamento da sexta (1º) temeu por nova tragédia

Cadu Silva

Publicado: 05/05/2026 às 15:10

Dona Cremilda e as marcas do deslizamento no Passarinho/KAROL CAVALCANTI/DP

Dona Cremilda e as marcas do deslizamento no Passarinho (KAROL CAVALCANTI/DP)

“Quando ouvi a zoada da chuva, pensei que ia levar a gente de novo”. O relato é da sobrevivente do deslizamento da última sexta-feira (1º), no bairro do Passarinho, em Olinda, na Região Metropolitana do Recife, durante a madrugada de chuva desta terça-feira (5).

“Fiquei sem dormir”, contou Cremilda Chaves de Araújo, de 53 anos, traumatizada pelo deslizamento que, quatro dias antes, tirou a vida da jovem Bruna Karine da Silva e o filho, de apenas seis meses.

Além do trauma e pânico que o barulho de chuva provoca, a tragédia recente no Passarinho deixou marcas no corpo de Cremilda. Ela estava na rua quando a barreira desabou e parte do barro a atingiu. 

“Eu só senti um empurrão nas minhas costas. Quando levantei, já estava cheia de sangue, toda doida. Eu gritava: ‘socorro, minha gente”, relembra.

Socorrida por vizinhos, foi levada para uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), onde passou horas em observação. “Eu cheguei sem saber que horas era. Fiquei no soro, tudo escuro. Saí já de noite.”

As dor, física e emocional, persiste dias depois. “Meu cabelo estava cheio de barro, com pedra na cabeça. Até hoje dói. Eu não consigo mastigar direito, como bem pouquinho. Sinto dor por dentro, tenho febre. Só quem sabe sou eu”, diz.

“Eu escapei por um milagre. Se não, eu tava dentro de um caixão”, contou, atribuindo a Deus a sua sobrevivência.

A dor física de Cremilda, no entanto, se transformou em emocional durante a madrugada desta terça.

“Quando vi as águas caindo, pensei que vinha pra carregar a gente de novo. Eu fiquei traumatizada. Eu nunca pensei que ia passar por isso”, afirma.

Segundo ela, a cena que presenciou durante o deslizamento não sai da cabeça. “Foi uma cena de terror. Eu vi gente morrer debaixo da barreira. Com 53 anos, nunca vi isso na minha vida.”

O medo não é isolado. Entre os moradores, a chuva passou a ser sinônimo de alerta constante. Morador do local há 12 anos, Luciano dos Santos, de 47 anos, também revive o momento do deslizamento.

Ele conta que estava acordado, tentando escoar a água da chuva, quando percebeu o risco.

“Eu ainda chamei a menina que morreu com o bebê, mas ela não escutou por causa da chuva. Quando virei as costas, não vi mais casa nenhuma. Foi tudo de repente”, relata.

De acordo com ele, houve apenas um estralo antes da terra ceder. “A gente só escutou um barulho e veio tudo. Foi gente gritando, gente soterrada. Não é lugar pra viver, não.”

Sem poder retornar para casa, Luciano agora depende de abrigo provisório.

“A gente fica esperando uma resposta. Dizem que vão derrubar as casas, mas não dizem pra onde a gente vai. A gente mora aqui não é porque quer. É por necessidade”, afirma.

A rotina de incerteza também atinge o jovem Sidney Gabriel, de 23 anos, que reside no local há quase 4 anos. “Um dia durmo na casa da minha mãe, outro no meu tio, outro na minha irmã. Hoje eu não sei nem onde vou dormir”, conta.

Ele participou do resgate logo após o deslizamento. “Eu acordei com o pessoal pedindo socorro, vi gente com o pescoço pra fora. Desci correndo pra ajudar. Foi desesperador.”

A dona de casa Jacilene Eulímpio da Silva, de 45 anos, descreve o impacto psicológico.

“Minha cabeça virou um filme de terror. Eu vi a casa de Bruna e do bebê soterrada, gente pedindo socorro. Não consigo mais ficar tranquila, principalmente quando chove”, afirma.

Hoje também vive de favor. “Cada dia é num canto. A gente perde até o sossego.”

Outra moradora do local, Vanessa Daiane, de 42 anos, afirma nunca ter presenciado algo semelhante.

“Eu tô sem dormir, sem paz, sem sossego. Quando chove, a gente acha que tudo pode acontecer de novo. Aqui é beira de barreira. Já caiu árvore, a água entrou dentro de casa”, relata.

A sensação de medo constante é reforçada por um histórico recente de deslizamentos fatais na mesma área.

As mortes de Bruna e do seu filho, na última sexta, e o trauma deixado nos moradores ficam nas trágicas estatísticas do município de Olinda, onde a comunidade do Passarinho se divide com o Recife.

Passarinho, no Recife

Em fevereiro de 2025, menos de um ano e três meses do último desabamento, outra tragédia foi registrada no lado da capital do estado.

No Córrego da Bica, no bairro de Passarinho, na Zona Norte do Recife, uma barreira deslizou durante a madrugada e atingiu uma casa, matando mãe e filha:

Maria da Conceição Braz de Melo, de 55 anos, e Nicole Melo Braz de Souza, de 23. As duas estavam em quartos separados quando foram surpreendidas.

Para quem vive na Comunidade do Cajá, no Passarinho, os episódios se conectam como parte de uma mesma realidade. “A tragédia é a mesma, só muda a vítima”, resume um Jacilene Eulímpio.

Enquanto as chuvas continuam e as encostas seguem instáveis, o sentimento predominante é de insegurança. “A gente só quer sair daqui com vida. O resto a gente corre atrás”, diz Luciano.

Em comum, entre o bairro do Passarinho, no Recife, e a comunidade, em Olinda, fica o medo dos moradores a cada barulho de chuva.

A reportagem do Diario de Pernambuco solicitou à Prefeitura de Olinda, onde aconteceu o último deslizamento, um posicionamento sobre o que está sendo a fim de evitar novas tragédias no local.

A nota na íntegra:

“A Prefeitura de Olinda informa que a área de deslizamento em Passarinho já era mapeada como de risco e havia recebido intervenções preventivas, como a colocação de lonas e, em alguns trechos, geomantas. A Defesa Civil segue monitorando o local e adotando medidas emergenciais para reduzir riscos, com previsão de novas ações como aplicação de geomanta.

A Prefeitura de Olinda destaca que vem ampliando de forma consistente os investimentos em contenção de encostas, com foco na prevenção de riscos e proteção de vidas. Ao todo, já foram captados cerca de R$ 80 milhões para intervenções em áreas de morro, contemplando obras em execução, em fase de licitação e em elaboração de projetos.

Entre as ações em andamento, há obras de contenção em sete localidades com investimento de R$ 6,2 milhões, além de novos pacotes que somam R$ 19 milhões e R$ 10 milhões em fase de licitação. Outros R$ 42 milhões e R$ 8 milhões estão destinados a projetos em elaboração, ampliando a cobertura das intervenções em áreas consideradas críticas.

A gestão municipal reforça que todas as áreas mapeadas como de risco estão inseridas no cronograma de ações e seguem recebendo intervenções gradativas, conforme planejamento técnico.

A Prefeitura de Olinda segue atuando com planejamento, responsabilidade e parcerias institucionais para garantir obras estruturantes, especialmente em períodos de chuvas intensas, reafirmando o compromisso com a segurança da população e a preservação de vidas.”

 

 

 

Mais de Vida Urbana

Últimas

WhatsApp DP
Mais Lidas