Em meio à lama e prejuízo, moradores do Recife atingidos pela chuva tentam retomar rotina
Moradores da Comunidade Ribeirinha de Cajueiro, na Zona Norte do Recife, voltaram para suas casas nesta segunda (04) na tentativa de recomeçar a rotina após passarem dias em abrigos devido à chuva
Publicado: 04/05/2026 às 15:02
Andresa retira excesso de lama no retorno a sua casa após enchente na comunidade (RAFAEL VIEIRA/DP)
Em meio à lama e à contabilização dos prejuízos provocados pelas chuvas, moradores da Comunidade Ribeirinha de Cajueiro, localizada às margens do Rio Beberibe, na Zona Norte do Recife, deram continuidade, mais uma vez, ao processo de retomar a rotina de vida em suas residências, repletas de entulhos trazidos pela enchente.
O retorno para casa é forçado. O abrigo onde eles estavam, montado na Escola Municipal de Água Fria, foi fechado às 12h desta segunda-feira (04), para que as aulas da unidade escolar pudessem ser retomadas.
Com isso, moradores da Rua Nádia, como Eric Clemente, de 44 anos, tentam visualizar um possível retorno à rotina de vida em suas residências, em meio a lama e aos móveis danificados pela água.
“Estou vindo para minha casa para fazer a limpeza, mas já estou em alerta para possíveis chuvas que possam vir. Eu sei que eles têm que colocar o colégio para funcionar, mas como eu vou ficar aqui?, questionou.
“Estou tentando recomeçar novamente. Já é uma rotina comprar e perder móveis. Aqui, na minha casa, por exemplo, só se salvaram os meus documentos”, completou Eric, que está desempregado.
Além dele, outra moradora, que também estava no abrigo, voltou para residência a fim de retirar toda a lama que restou no local e resgatar o que sobrou.
“Infelizmente, vamos ter que dormir aqui, com toda essa catinga, pois não tenho outro lugar para ir”, lamentou Andresa Oliveira, que mora com dois filhos menores de idade.
Além do trabalho de retirada da enorme quantidade de lama acumulada na casa, “nos arriscarmos nela, pois podemos pegar doenças”. Andresa conta, no entanto, que a volta para casa é uma necessidade.
“Tem gente que vem roubar algumas coisas das casas atingidas”, explicou.
Tanto Eric quanto Andresa informaram que foram bem atendidos no abrigo municipal e que receberam colchões, comida, roupas e produtos de limpeza para retomarem a rotina.
“Infelizmente, todo ano a gente perde tudo, sai de casa e vai para o abrigo. Já é meio que uma rotina que estamos acostumados. Já fomos cadastrados para receber um auxílio, mas é só promessa”, reclamou.
“Quando chega a eleição é ‘meio mundo’ de promessas, mas a gente continua na mesma coisa”, desabafou.
Já a moradora Flávia Melo, de 40 anos, afirma que não terá direito à entrega de colchões, mesmo com boa parte dos móveis danificados.
A justificativa é que, conforme contou à reportagem do Diario, ela não dormiu no abrigo, pois foi para casa de parentes. A moradora pondera que, mesmo assim, cadastrou-se para receber o colchão.
Casos de leptospirose
Além dos prejuízos materiais, as enchentes provocadas pelas chuvas também ocasionam doenças para as famílias atingidas, como é o caso da prima de Eric, que contraiu leptospirose e estava sendo acompanhada no abrigo montado na Escola Municipal de Água Fria.
“Já tem casos de leptospirose aqui e estamos com medo de tocar até nas coisas sem equipamentos. Minha prima, por exemplo, foi constatado que ela está com leptospirose. Ela saiu comigo daqui da comunidade já com a enchente de sexta. Ela chegou no abrigo, começou a passar mal e quando foram ver era leptospirose”, afirmou Eric.
Por conta desses casos, a comunidade irá abrir nesta segunda (4) um espaço para receber doações de equipamentos de limpezas, como luvas e botas, além de roupas, alimentos, entre outras doações.
O local que receberá as doações será a sede do Projeto Sementes do Amanhã, localizado na Av Sebastião Salazar, nº 94, no bairro de Cajueiro.
Auxílio-moradia
Segundo os moradores da comunidade, cerca de 316 pessoas foram cadastradas pela Prefeitura do Recife para que fossem beneficiadas com um auxílio-moradia, que não teve valor informado.
Eles contam que o benefício estava previsto para chegar ainda no mês de maio, mas foi adiado para agosto deste ano.
“Eu e minha família moramos aqui, na comunidade, há 50 anos e estamos esperando o poder público vir tomar uma atitude, que, infelizmente, só virá quando alguém morrer”, previu Andresa.
“Não estou me vitimizando, mas não temos condições financeiras de morar em outro lugar. Estamos por necessidade. Sabemos que tem verba, mas a gente quer agilidade para sair daqui”, explicou.
Os moradores ainda afirmam que todas essas pessoas cadastradas serão transferidas para um habitacional que será construído no bairro de Dois Unidos, previsto para ser entregue, segundo eles, em 2028.
O que diz a Prefeitura do Recife
A reportagem do Diario de Pernambuco pediu à Prefeitura do Recife um posicionamento sobre as questões citadas pelos os moradores da Comunidade Ribeirinha de Cajueiro, mas obteve retorno até a publicação desta matéria.
O espaço segue aberto para atualização.