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RISCO ONLINE

Caso de adolescente que esfaqueou o pai após suposta indução no Roblox mostra riscos do aliciamento digital

Especialistas explicam como criminosos se infiltram em jogos online e manipulam crianças e adolescentes dentro de casa

Adelmo Lucena

Publicado: 04/05/2026 às 06:00

Pais devem ficar atentos aos jogos e sites utilizados pelos filhos/Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Pais devem ficar atentos aos jogos e sites utilizados pelos filhos (Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil)

Horas de dedicação a um jogo de celular trancado em um quarto levou a uma situação que fez com que o caso de um adolescente de 14 anos fosse parar nos jornais de Pernambuco. O jovem foi apreendido no Recife após esfaquear o próprio pai enquanto ele dormia. À polícia, o menino relatou ter recebido orientações dentro da plataforma Roblox. O caso, ainda sob investigação, pode ser mais um de aliciamento de menores de idade em ambientes virtuais.

Segundo dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil, do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), mais de 24 milhões de crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos usam a internet no país, o equivalente a 93% dessa população. Entre eles, a maioria acessa plataformas com interação direta entre usuários, como jogos online e redes sociais, muitas vezes sem supervisão constante dos responsáveis.

É nesse ambiente que criminosos encontram espaço para agir e o processo raramente começa com violência explícita. Na maioria das vezes, ele se constrói pela confiança.

“O criminoso nunca vai se apresentar como alguém de má índole. Pelo contrário: será sempre alguém com uma foto simpática, aparentemente disponível, acolhedor e disposto a ajudar. Porque o objetivo principal é ganhar confiança”, afirma o professor e especialista em segurança digital Eronides Meneses.

Segundo ele, o principal erro dos pais não é necessariamente negligência, mas o excesso de confiança na falsa segurança do ambiente doméstico. “Os pais veem os filhos dentro de casa, no quarto, e acreditam que eles estão seguros. Porém, deixam esse acesso livre, sem qualquer tipo de supervisão, e é aí que mora o perigo.”

Jogos como Roblox, Free Fire, Fortnite e plataformas paralelas como Discord se tornaram espaços de convivência para milhões de adolescentes.

“Crianças e adolescentes precisam de supervisão constante, assim como acontece na vida real, também na vida digital. Você está entregando um equipamento que pode transformá-los em verdadeiras marionetes de quem está do outro lado da tela. Eles podem ser seduzidos para o crime, para situações de violência, porque querem ser aceitos naquele grupo em que estão inseridos, muitas vezes dentro de jogos online”, explica Eronides.

O aliciamento

Segundo ele, esse tipo de aliciamento segue um roteiro conhecido e o criminoso busca ganhar confiança da vítima. A aproximação também costuma acontecer por meio de recompensas aparentemente inofensivas.

“Eles se infiltram em ambientes frequentados por crianças e adolescentes, como jogos online, oferecendo brindes, vantagens dentro do jogo, ajuda para alcançar objetivos ou evoluir de fase. Também atuam em aplicativos de comunicação, como o Discord, fingindo ter a mesma idade ou apenas um pouco mais velhos.”

No caso investigado em Pernambuco, a promessa teria sido justamente a entrega de Robux, moeda virtual utilizada dentro do Roblox. “Nesse caso específico, foi relatado que houve a oferta de moeda virtual dentro do jogo, como Robux, do Roblox, como recompensa pela participação no desafio. O adolescente, sem a noção real do perigo, acredita que aquilo é apenas uma brincadeira ou algo reversível. Muitas vezes, a criança sequer compreende a gravidade da situação”, complementa Eronides Meneses.

Exposição em excesso culmina em cenários críticos

Para a psicóloga e psicopedagoga Kátia Guerra, a exposição a este tipo de plataformas sem supervisão influencia diretamente o desenvolvimento emocional e psicológico das crianças e adolescentes. “Isso porque a criança ou o adolescente ainda está em processo de construção das suas referências internas, como autorregulação, senso crítico, limites e percepção de risco”, elucida.

Ela explica que, do ponto de vista da neurociência, a permanência prolongada nesses ambientes pode afetar a forma como o cérebro responde a estímulos e ameaças. “Em ambientes digitais abertos, eles podem entrar em contato com conteúdos, linguagens e dinâmicas que ultrapassam sua capacidade de elaboração emocional. Do ponto de vista da neurociência, isso pode gerar uma ativação constante de sistemas de alerta, favorecendo impulsividade, ansiedade e dificuldade de regulação.”

Segundo a especialista, muitas vezes o uso excessivo da internet não é a causa principal, mas um sintoma de fragilidades emocionais já existentes. “Em muitos casos, o que se observa não é apenas o uso do jogo, mas uma tentativa de preencher um vazio, uma busca por conexão onde há, muitas vezes, desamparo emocional”, observa.

Após o endurecimento das regras de segurança do Roblox no início do ano, com maior restrição ao chat de voz e exigência de verificação etária para determinadas interações, usuários menores de 18 anos fizeram manifestações on-line como forma de se mostrarem contrários ao novo cenário.

Crianças são sinais de “alerta”

O especialista em segurança digital Eronides Meneses afirma que as vítimas mudam de comportamento no período do aliciamento. “Passam a esconder o celular quando o pai ou a mãe se aproximam, criam senhas, não deixam ninguém ver o aparelho. Esses pequenos sinais são importantes. Quando o filho esconde algo, é porque existe alguma coisa que ele não quer que os pais descubbram”, alerta Eronides.

A psicóloga Kátia aponta mudanças emocionais semelhantes. “Entre eles, destacam-se alterações no humor, como irritabilidade frequente, tristeza ou ansiedade sem causa aparente; mudanças no padrão de sono; isolamento social progressivo; perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas; queda no rendimento escolar; e uma necessidade excessiva de estar conectado.”

Diante desse cenário, a orientação dos especialistas é reduzir o tempo de tela e fortalecer vínculos. “Estratégias baseadas no medo ou no controle excessivo tendem a gerar afastamento, resistência e, muitas vezes, ocultação de comportamentos. O caminho mais efetivo é o da construção de vínculo e diálogo”, afirma Kátia.

“Conversar sobre o ambiente digital precisa partir de uma postura de curiosidade genuína e interesse real pelo universo da criança ou do adolescente. Perguntar sobre os jogos, sobre o que eles gostam, com quem interagem, cria uma ponte de comunicação”, complementa.

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