Pernambuco registra quase 2 denúncias de abuso sexual infantil por dia no primeiro trimestre de 2026
De janeiro a março deste ano, Pernambuco contabilizou 175 casos, segundo a SDS-PE; especialistas reforçam a necessidade de atenção a sinais silenciosos e orientam pais sobre prevenção
Publicado: 18/04/2026 às 14:09
Abuso sexual é um crime silencioso, alerta especialista (MARCELO CASAL/AGÊNCIA BRASIL)
Pernambuco registrou, em média, 1,96 denúncia de abuso sexual infantil por dia no primeiro trimestre de 2026. Segundo a Secretaria de Defesa Social (SDS-PE), entre janeiro e março deste ano, foram contabilizados 175 casos no estado.
Os números revelam uma realidade que demanda vigilância constante de pais e responsáveis para proteger crianças e adolescentes de traumas com impactos prolongados no desenvolvimento.
A identificação desses crimes é complexa devido à natureza silenciosa das ocorrências, como explica a neuropsicóloga infantil Kátia Guerra.
“O sofrimento infantil raramente é verbalizado de forma direta. Ele emerge por meio do corpo, do comportamento e das relações.
O abuso constitui uma das experiências mais impactantes para a criança, ocorrendo, frequentemente, em contextos onde deveria haver proteção. Essa realidade desafia pais, profissionais e a sociedade”, inicia.
O perigo dentro de casa
Diferente do imaginário comum, o agressor costuma ser alguém próximo. A psicóloga pontua que abusadores se aproveitam de vínculos afetivos e de autoridade. O gestor do Departamento de Polícia da Criança e do Adolescente (DPCA), delegado Paulo Furtado, detalha esse padrão.
“São crimes que muitas vezes ficam escondidos. Geralmente envolvem parentes ou amigos próximos, como irmãos, pais ou avós. Nem sempre há violência física imediata. Em muitos casos, utiliza-se a intimidação e a vulnerabilidade da vítima”, comenta.
Nesse cenário, a instrução preventiva é fundamental. Kátia Guerra defende que a educação deve incluir a nomeação correta das partes do corpo e o ensino sobre limites corporais e privacidade. “Ensinar o direito de dizer ‘não’ de forma natural contribui para a construção da autoproteção”, diz.
Impactos e sinais de alerta
Passar por situações de abuso comprometem o desenvolvimento da criança, explica a profissional da saúde. São situações traumáticas e estressantes, que podem ter consequências durante toda a vida.
“Os impactos do abuso e da negligência na infância são profundos e duradouros. A exposição contínua ao estresse compromete a arquitetura cerebral, afetando sistemas responsáveis pela regulação emocional, atenção e capacidade de estabelecer vínculos saudáveis”, conta.
Mas nem todas as crianças conseguem falar sobre situações de sofrimento. A psicóloga alerta que, em muitos casos, os traumas se manifestam por meio de alterações comportamentais e emocionais bruscas, como regressões no desenvolvimento, isolamento, agressividade, medos intensos, dificuldades escolares e sintomas físicos recorrentes, como dores abdominais ou dores de cabeça.
Nesses casos, o comportamento deve ser compreendido como uma forma de comunicação, exigindo dos adultos uma escuta sensível e ampliada, diz a neuropsicóloga.
“Diante da suspeita de abuso, a conduta de pessoas adultas deve ser pautada pelo acolhimento, proteção e denúncia. É essencial evitar questionamentos invasivos ou reações que possam gerar medo ou retração na criança. A escuta deve ser cuidadosa, sem julgamento, e a busca por profissionais especializados, como psicólogos, médicos e equipes de proteção, deve ser realizada de forma responsável”, comenta.
Apesar da gravidade, os dados da SDS indicam uma queda de 30% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram registrados 250 casos. Para o delegado Paulo Furtado, o resultado reflete o aumento das prisões e da repressão. “O trabalho ostensivo encoraja as pessoas a denunciarem”, destaca.
Responsabilidade compartilhada
Os pais e responsáveis não são os únicos que podem procurar ajudar uma criança em casos de abusos. Na verdade, é uma responsabilidade de todos zelar pela segurança e bem-estar dos pequenos, destaca o delegado Paulo Furtado.
Professores e até vizinhos que cuidam da criança são considerados "garantidores do direito”. Se um desses responsáveis perceber sinais de abuso e não agir para proteger ou denunciar, pode responder pelo mesmo crime que o abusador.
“O garantidor tem um dever legal de cuidado, proteção e vigilância, de modo que se o pai ou se a mãe percebe que está acontecendo algo criminoso, contra o seu filho e podendo agir não faz, ele pode responder pelo mesmo crime”, reforça.
O delegado enfatiza, ainda, a importância de procurar as forças de segurança pública, mesmo que tenha se passado um tempo do crime.
“Sempre orientamos a procurar a polícia, ainda que tenha passado um determinado tempo. A gente sabe que os crimes eles se prescrevem, mas teve a Lei Joanna Maranhão, que dá mais tempo para as vítimas de abuso sexual denunciarem o agressor, permitindo que o prazo de prescrição só comece a contar após a vítima completar 18 anos”, afirma.
Procurar ajuda
A partir da identificação de um abuso sexual infantil, é preciso cautela na hora de pedir ajuda. Segundo o delegado Paulo, é importante procurar a polícia.
“Orientamos a mãe a ter cautela, para ganhar ainda mais confiança e se a criança chega a dizer algo nesse sentido de conotação sexual, que procure o DPCA. A legislação determina que a criança seja submetida a uma escuta especializada, realizada uma única vez em todos os protocolos para evitar uma revítimazação”, explica.
O auxílio psicológico também é um ponto importante, diz a psicóloga Kátia.
“A psicoterapia tem papel central na recuperação, pois oferece à criança a possibilidade de vivenciar novas experiências relacionais seguras. A partir disso, o sistema nervoso pode se reorganizar, permitindo o desenvolvimento de novas formas de sentir, pensar e se relacionar. O processo terapêutico envolve a construção de um ambiente de segurança, regulação emocional e ressignificação das vivências”, detalha.
Canais de denúncia
É possível realizar denúncias de forma sigilosa e segura. O canal Disque 100, da Central de Atendimento à Criança e ao Adolescente funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana.
Conselhos Tutelares também podem ser procurados. Presente em todos os municípios, é possível localizar a unidade mais próxima, consultando a lista disponível no site oficial.
Em situações de risco iminente, a Polícia Militar deve ser acionada imediatamente por meio do telefone 190.
Para registrar ocorrências relacionadas à violência contra crianças e adolescentes, é possível procurar delegacias especializadas no atendimento a esses casos.
O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) também recebe denúncias de violações de direitos. Os canais disponíveis são: Telefone: (81) 3225-5107 (atendimento de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h), o e-mail [email protected] e o site da ouvidoria do MPPE (www.mppe.mp.br/ouvidoria).