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RISCO

O risco invisível que vem da tomada; saiba como evitar sobrecarga elétrica e incêndio

O uso cotidiano de aparelhos eletrônicos, feito de forma automática e sem atenção, pode esconder perigos sérios à segurança, alerta especialistas

Cadu Silva

Publicado: 13/04/2026 às 06:00

O risco invisível que vem da tomada; saiba como evitar sobrecarga elétrica e incêndio/Foto: Marina Torre/DP

O risco invisível que vem da tomada; saiba como evitar sobrecarga elétrica e incêndio (Foto: Marina Torre/DP)

“A energia elétrica não tem cheiro nem cor. Quando você percebe, já está diante do efeito, que pode ser um choque ou um incêndio.”

O alerta é do gerente operacional da Neoenergia, Fábio Barros, e resume um risco que faz parte da rotina de milhares de pessoas dentro de casa, muitas vezes sem que elas percebam.

O uso cotidiano de aparelhos eletrônicos, feito de forma automática e sem atenção, pode esconder perigos sérios à segurança.

Carregadores conectados o tempo todo, extensões sobrecarregadas e equipamentos sem certificação estão entre os principais fatores que podem provocar choques elétricos, curtos-circuitos e até incêndios em residências.

De acordo com especialistas, o problema não está apenas nos equipamentos, mas principalmente na forma como são utilizados no dia a dia.

“O risco é uma combinação dos dois fatores: tanto a qualidade do equipamento quanto a forma de uso. Um aparelho fora do padrão ou utilizado de maneira incorreta aumenta muito a chance de acidente”, explica o engenheiro eletricista Fernando Carvalho, professor da César School, da Universidade de Pernambuco.

Sobrecarga silenciosa

Um dos principais perigos está na sobrecarga da rede elétrica, situação comum em residências onde vários aparelhos são ligados simultaneamente em uma mesma tomada ou em dispositivos como extensões e benjamins, conhecidos popularmente como “T”.

“A sobrecarga acontece quando você exige mais da instalação do que ela suporta. Com o tempo, isso gera aquecimento e pode provocar curtos-circuitos”, explica Fábio Barros.

Segundo ele, o uso desses adaptadores deve ser evitado sempre que possível. “Quando você usa extensão ou ‘T’, você multiplica o uso de uma única tomada, o que pode causar sobrecarga e acidentes”, afirma.

Fernando Carvalho reforça que esses dispositivos não devem ser usados de forma contínua. “O ‘benjamin’ é uma ligação improvisada, que deveria ser usada apenas em situações emergenciais. No uso constante, ele sobrecarrega a rede e aumenta o risco de aquecimento e incêndio”, alerta.

Ele também chama atenção para a capacidade elétrica dos equipamentos. “Hoje, muitos eletrodomésticos demandam mais energia, como airfryer, micro-ondas, máquina de lavar e ar-condicionado. Esses aparelhos precisam de tomadas e fiação compatíveis. Usar adaptadores nesses casos é um risco significativo”, explica.

Improvisos na rede elétrica também estão entre os principais problemas identificados. “Puxar um fio de uma tomada comum para ligar um equipamento mais potente, como um ar-condicionado, é um erro grave e pode sobrecarregar todo o circuito”, completa Fábio.

Carregadores e pequenos aparelhos exigem atenção

Apesar de compactos e presentes em praticamente todos os lares, os carregadores de celular estão entre os equipamentos que exigem maior cuidado.

O aspirante do Corpo de Bombeiros, Rafael Carneiro, explica que deixá-los conectados à tomada, mesmo sem uso, não é uma prática segura.

“Mesmo quando não está em uso, ele pode sofrer com picos de energia e apresentar falhas que levam ao superaquecimento”, afirma.

Fernando Carvalho chama atenção para outro fator: a qualidade dos dispositivos. “Carregadores falsificados ou de baixa qualidade podem fornecer uma tensão inadequada, o que danifica a bateria e pode gerar aquecimento excessivo. Em casos extremos, isso pode provocar incêndio”, explica.

O risco aumenta quando esses equipamentos são usados de forma inadequada. “É comum a pessoa colocar o celular para carregar na cama e continuar usando. O aparelho já aquece durante o carregamento e, com o uso simultâneo, esse aquecimento aumenta. Em contato com materiais inflamáveis, isso se torna perigoso”, diz.

Além disso, o uso de baterias não originais agrava ainda mais o cenário. “Quando você troca por uma bateria que não foi certificada, o sistema perde parte do controle de segurança. Isso eleva o risco”, completa.

Sinais de alerta nem sempre são percebidos

Embora a rede elétrica não seja visível, alguns sinais podem indicar que há algo errado na instalação.

Segundo o Corpo de Bombeiros, aquecimento excessivo e alterações físicas nos materiais são indicativos importantes.

“Aquecimento, derretimento ou mudança na cor dos fios e tomadas são sinais claros de que aquele ponto está operando acima da capacidade”, destaca Rafael Carneiro.

O engenheiro Fernando Carvalho explica que esses sinais estão diretamente ligados à sobrecarga. “Quando a instalação está sobrecarregada, é comum perceber o desarme frequente do disjuntor, tomadas quentes, fios aquecendo e até quedas de energia em determinados pontos da casa”, afirma.

Outro indicativo importante é o comportamento dos aparelhos. “Lâmpadas oscilando ou equipamentos que desligam sozinhos podem indicar que a rede está sendo exigida além do limite”, acrescenta.

Ele também faz um alerta técnico importante. “Muita gente resolve o problema trocando o disjuntor por um mais potente. Isso é perigoso, porque o disjuntor foi dimensionado para proteger aquela instalação. Ao aumentar a capacidade dele, você perde essa proteção”, explica.

Além disso, o cheiro pode denunciar o risco. “Cheiro de plástico queimado indica que o isolamento dos fios pode estar derretendo, o que pode evoluir para um curto-circuito”, completa.

Como ocorre um curto-circuito

Um dos principais riscos associados à sobrecarga é o curto-circuito, que pode ser o ponto de partida para incêndios.

Fernando Carvalho explica que o problema acontece quando há contato direto entre os condutores elétricos. “Em uma instalação, você tem fios com funções diferentes. Quando eles encostam diretamente, sem um equipamento intermediando essa passagem de energia, ocorre o curto-circuito”, detalha.

Segundo ele, esse contato gera uma corrente extremamente elevada. “Essa corrente provoca um aquecimento muito rápido, que pode derreter a fiação e gerar faíscas, iniciando um incêndio”, afirma.

O risco aumenta em instalações antigas ou comprometidas. “Com o tempo, o isolamento dos fios resseca ou se deteriora. Quando esse isolamento falha, os fios podem se tocar e provocar o curto”, explica.

Ele também destaca o papel da qualidade dos materiais. “Extensões muito baratas, sem certificação, utilizam materiais de baixa qualidade. O isolamento pode não suportar o aquecimento e falhar com mais facilidade”, completa.

Casas antigas demandam revisão da rede elétrica

A atenção deve ser redobrada em imóveis mais antigos, que muitas vezes não foram projetados para suportar a quantidade de aparelhos eletrônicos utilizados atualmente.

“Em imóveis mais antigos, é fundamental revisar a instalação elétrica com um profissional e, se necessário, fazer a substituição da fiação e dos disjuntores”, orienta o bombeiro.

Fernando Carvalho destaca que o problema tende a se agravar com o tempo. “As instalações antigas foram projetadas para uma realidade com menos equipamentos. Hoje, você adiciona ar-condicionado, computadores, eletrodomésticos, e isso sobrecarrega a rede”, explica.

Ele também chama atenção para o envelhecimento dos materiais. “Os isolantes dos fios ressecam com o tempo e perdem eficiência. Isso aumenta o risco de falhas e curto-circuito”, diz.

Outro ponto crítico é a ausência de dispositivos modernos de proteção. “Muitas instalações antigas não possuem o DR, que é um dispositivo fundamental para proteger contra choques elétricos”, acrescenta.

Fábio Barros ressalta que o mais importante é a qualidade da instalação. “Mais importante que a idade do imóvel é a qualidade da instalação. O ideal é fazer revisões periódicas com profissionais capacitados”, afirma.

Como agir em caso de incêndio elétrico

Em situações de princípio de incêndio envolvendo equipamentos elétricos, a orientação é clara: nunca utilizar água.

“Nunca jogue água em incêndios causados por equipamentos elétricos. O correto é desligar a energia no disjuntor e, se possível, usar extintores adequados”, afirma Rafael Carneiro.

Fernando Carvalho reforça a importância da ação imediata. “A primeira medida é desligar o circuito elétrico no quadro de distribuição. Isso corta a fonte de energia que alimenta o fogo”, explica.

Caso não seja possível controlar a situação, a recomendação é deixar o local imediatamente e acionar o Corpo de Bombeiros.

Prevenção ainda é a melhor estratégia

Para os especialistas, evitar acidentes elétricos passa por mudanças simples de comportamento no dia a dia.

Retirar aparelhos da tomada quando não estão em uso, evitar sobrecargas e optar por produtos certificados são algumas das principais recomendações.

“É fundamental verificar se a instalação possui dispositivos de proteção, como disjuntores adequados e o DR. O disjuntor protege a instalação e o DR protege as pessoas contra choques”, orienta Fernando Carvalho.

Além disso, o cuidado ao manusear equipamentos também faz diferença. “Sempre que for mexer com qualquer equipamento elétrico, o ideal é estar com as mãos secas e, se possível, calçado”, orienta Fábio.

Entre os erros mais comuns, Fernando destaca o uso excessivo de adaptadores. “O uso de ‘T’ e extensões de forma contínua é um dos principais problemas. O ideal é adaptar a instalação, e não improvisar.”

Ele também reforça hábitos que devem ser evitados. “Evite carregar o celular sobre a cama ou próximo a materiais inflamáveis, principalmente durante a noite”, alerta.

No fim das contas, pequenas atitudes podem evitar grandes tragédias dentro de casa. “O risco começa quando o uso foge do que foi projetado”, resume Fábio Barros.

 

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