Tio Márcio: A Arquitetura do Afeto
O engenheiro e empresário Márcio de Albuquerque Nascimento faleceu na sexta-feira (20), aos 89 anos, no Recife
Carlos Frederico de Albuquerque Vital
Publicado: 22/03/2026 às 15:29
O engenheiro e empresário Márcio de Albuquerque Nascimento faleceu na sexta-feira (20), aos 89 anos, no Recife (Foto: Cortesia)
Falar de Tio Márcio, que faleceu na sexta-feira (20), aos 89 anos, no Recife, é como abrir uma janela para um tempo em que o amor tinha raízes profundas e gestos silenciosos. Não foi apenas meu tio, foi presença, foi direção, foi uma espécie de farol íntimo que iluminou caminhos quando eu ainda aprendia a caminhar.
Minha história com ele começa cedo, ainda menino, quando deixei o Rio de Janeiro rumo ao Recife e fui acolhido por sua casa como quem encontra abrigo e destino. Trago comigo, como quem guarda um relicário, a lembrança de ter sido o pequeno guardião das alianças no dia em que ele selou sua união com minha amada Tia Aurora. Gesto simples, mas carregado de eternidade. Ali começava não apenas um casamento, mas uma obra rara: um amor inteiro, indivisível, vivido em sua forma mais fiel.
Aurora foi seu princípio e seu fim em matéria de afeto. Sua única namorada, sua única companheira, sua travessia inteira. Cinquenta anos depois, nas Bodas de Ouro, não celebrávamos apenas o tempo, mas a resistência delicada de um sentimento que não se desgastou, ao contrário, se lapidou na rotina, no respeito e na escolha diária de permanecer.
Mas Tio Márcio não edificava apenas no campo do amor. Havia nele uma crença serena no futuro dos outros. Foi ele quem me empurrou, com firmeza e generosidade, para o Direito, ainda nos anos 90, como quem aponta um horizonte e diz: “Vá, você pode”. E fui. Como fez com seus filhos Márcia, Pedro, Alexandre e Daniel, também me incluiu nesse círculo de cuidado e expectativa.
Trabalhamos juntos, divergimos, nos confrontamos como só os que se amam profundamente conseguem fazer. E, ainda assim, o vínculo sempre prevaleceu, como uma raiz que não se rompe.
Engenheiro de ofício e reconstrutor por natureza, Márcio de Albuquerque Nascimento, meu Tio Márcio, reergueu não apenas empresas, mas histórias. Participou, com o mesmo entusiasmo, da reconstrução de espaços e símbolos, como quem entende que tijolos também carregam memória. Torcedor do glorioso Sport Club do Recife, de alma vibrante, encontrava no futebol uma extensão de sua paixão pela vida.
Mas sua maior obra não foi de concreto, nem de números. Foi de gente.
Os netos, oito ao todo, eram sua verdadeira celebração. Neles, ele via o tempo seguir adiante sem perder o sentido. Assistir aos casamentos de dois deles, já no ocaso de sua jornada, foi como fechar um ciclo com as mãos abertas: o amor que começou com Aurora agora florescia em novas histórias.
Tio Márcio partiu como viveu, com leveza no gesto e grandeza no coração. Ajudou muitos, muitas vezes em silêncio, sem jamais contabilizar retornos. Há pessoas que passam pela vida; outras permanecem nela, mesmo depois da despedida. Ele pertence à segunda espécie.
Vá em paz, meu Tio. Leve consigo o que construiu de mais precioso: o amor que não se desfaz. Aqui, entre nós, você continua em cada encontro, em cada memória, em cada gesto que, sem perceber, aprendemos com você.