Planos de contenção do avanço do mar no Recife e Região Metropolitana estão travados
Segundo a Secretaria de Meio Ambiente de Pernambuco, o problema já atinge 30% das praias pernambucana
Publicado: 17/03/2026 às 16:45
Avanço do mar no Recife (Foto: Crysli Viana/DP Foto)
O avanço do mar, que atinge 30% das praias pernambucanas, segundo a Secretaria de Meio Ambiente, Sustentabilidade e de Fernando de Noronha de Pernambuco (Semas-PE), ainda está longe de ser resolvido. No dia 7 deste mês , por exemplo, completou dois anos que a Prefeitura do Recife lançou uma licitação para a contratação de estudos e projetos para implementar soluções.
Além disso, uma proposta voltada para resolver o problema no trecho do litoral pernambucano, entre Itamaracá e o Cabo de Santo Agostinho, já anunciada pelo governo do estado também ainda não saiu do papel.
De acordo com a professora do Departamento de Oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Tereza Araújo, a realidade do avanço do mar é preocupante para a capital.
“[É preocupante], especialmente por Recife ser uma cidade que está praticamente no nível do mar, com alguns locais até abaixo do nível da maré. Por isso vemos tantos alagamentos, até mesmo em dia de sol com maré muito alta. Outro fator é a questão da urbanização. É uma cidade espremida entre o rio e o mar”, explicou a especialista ao Diario.
A professora ressalta que a própria disposição da cidade, com uma grande ocupação na costa, corrobora para o aumento do nível do mar. “A costa está sendo ocupada, o nível do mar está subindo, ninguém está cuidando, são efeitos que vão se somando. A costa ocupada não deveria, foi uma falta de planejamento, e o nível do mar está subindo, é uma bola de neve”.
A docente aponta que os estudos são primordiais, como mapeamento de áreas vulneráveis a possíveis aumentos de nível do mar. Ela diz, ainda que o avanço do mar “não espera”: “Não podemos prever nem barrar a natureza”, comenta.
EFEITOS
Quem trabalha na praia percebe o avanço do mar todos os dias, e os efeitos dele. Uma dessas pessoas é o comerciante Walter Ferreira atua há um ano na Praia de Boa Viagem, na Zona Sul do Recife.
“Às vezes é um pouco complicado, avançou muito. Aquela engorda que todo mundo fala, seria uma boa ajuda. Atrapalha bastante, em algumas áreas, porque a água avança toda e acaba atrapalhando um pouco o trabalho da gente. O que complica tanto aqui é que a gente não tem tanta extensão de areia. Deu certa hora, a maré encheu, todo mundo sai, não fica lá no canto nenhum, aí isso atrapalha bastante”, disse.
Vinicius de França, que atua há dois anos também na região de Boa Viagem, compartilha da mesma ponderação: “O avanço do mar afeta muito o tempo e modo de trabalho. A maré sobe rápido, tem pouca areia e os clientes vão embora. Isso que afeta muito a gente”.
RECIFE
A contratação, pela Prefeitura do Recife, de estudos e projetos para implementação de soluções com vistas ao enfrentamento do avanço do mar na orla marítima dos bairros de Brasília Teimosa, Pina e Boa Viagem, em uma faixa que compreende 9,3 quilômetros de extensão, foi anunciada em março de 2024.
A ideia é atuar onde há redução da faixa de areia e comprometimento da infraestrutura urbana, devido ao avanço do mar e à erosão costeira. O trabalho deveria ter sido concluído em fevereiro do ano passado.
Em 20 junho de 2024, a prefeitura homologou a licitação e contratou a empresa responsável pelo levantamento. À época, foi divulgado que o investimento na estruturação desse projeto era de R$ 3,3 milhões, que o prazo de execução era de oito meses.
Conforme apurou o Diario, o estudo segue em andamento. A previsão é de que ele seja finalizado no segundo semestre deste ano. Após a conclusão dos levantamentos, os resultados servirão para execução das soluções necessárias para conter o avanço do mar e promover a recuperação dessas áreas públicas.
Segundo a prefeitura, a ação integra o projeto Orla Parque, que tem como objetivo requalificar toda a orla da capital pernambucana, integrando Boa Viagem e Pina à Brasília Teimosa, transformando-a num grande parque linear, com a criação de centralidades, melhorias na segurança e iluminação, construção de novos banheiros, além de reforma de toda a estrutura física do calçadão e aumento da área verde.
JABOATÃO
A orla de Jaboatão dos Guararapes também é uma das mais atingidas pelo avanço do mar. Há 13 anos, a engorda da praia foi feita nas praias de Candeias e Piedade. Com o tempo, o mar voltou a avançar e a situação voltou à estaca zero.
“Em 2013 foi feita a engorda da praia, que precisa de monitoramento contínuo. A natureza não espera. Aparentemente a prefeitura não fez o devido acompanhamento, e agora o problema se avolumou em um trecho específico”, afirmou a professora Tereza Araújo.
Em novembro de 2025, a Semas divulgou apoio a um projeto emergencial para conter avanços marinhos em Jaboatão. A execução, de acordo com o projeto, seria feita pela prefeitura, e previa intervenções em dois trechos: 250 metros entre o Residencial Candeias II e a Rua Major Médico Vicente Fonseca de Matos, e outros 130 metros, nas proximidades da Rua Gilberto Carlos Zazar, na divisa entre Candeias e Barra de Jangada.
Segundo as informações da pasta, o planejamento previa implantação de um muro de enrocamento aderente, estrutura de absorção de energia das ondas e proteção das construções. Além disso, incluía escavação, nivelamento do terreno e colocação de manta geotêxtil para estabilização do solo e prevenção da perda de sedimentos.
O Diario solicitou informações sobre o andamento do projeto emergencial em Jaboatão à prefeitura do município, mas não obteve resposta até a última atualização desta matéria. Em 8 de dezembro de 2025, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), por meio da Defesa Civil Nacional, reconheceu situação de emergência em Jaboatão dos Guararapes em decorrência de erosão costeira ou marinha.
MUNICÍPIOS
Procurados pelo Diario, os municípios de Paulista e Cabo de Santo Agostinho, no Grande Recife, informaram que não há ações municipais de contenção de avanço do mar, e que contam com o projeto da gestão estadual.
Já a Prefeitura de Olinda informou, por meio de nota, que as iniciativas relacionadas à engorda da orla estão sendo conduzidas de forma integrada em âmbito metropolitano, sob coordenação do governo do estado. O município destacou que encaminhou um projeto à gestão estadual para contribuir com o planejamento.
Segundo informações apuradas pelo Diario, esse estudo mais amplo sobre as obras de engorda das praias contará com um investimento de R$ 18 milhões, mas está pendente da aprovação da Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026, ainda em tramitação na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe).
Em nota, o governo do estado destacou que a recuperação da faixa de areia é um “compromisso” e que permanece “dialogando com os municípios para debater soluções”.