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DATA MAGNA

Data Magna: ruas do Recife guardam os nomes da Revolução de 1817

Personagens do levante republicano de 1817 seguem presentes no cotidiano da capital pernambucana

Adelmo Lucena

Publicado: 06/03/2026 às 04:00

Revolução de 1817/Foto: Divulgação

Revolução de 1817 (Foto: Divulgação)

Nesta sexta-feira (6), Pernambuco celebra a Data Magna, marco da Revolução de 1817. No Recife, porém, a história está espalhada pelas placas azuis das esquinas, nos trajetos diários de ônibus, nos endereços comerciais e residenciais.

Quem passa pela Avenida Cruz Cabugá, caminha pela Rua Domingos José Martins ou atravessa a Rua Gervásio Pires raramente associa o nome da via a um projeto republicano que, por pouco mais de dois meses, rompeu com Portugal e instaurou um governo próprio na então capitania de Pernambuco. Mas todos esses nomes pertencem a personagens do levante que eclodiu em 6 de março de 1817.

Foi no Recife colonial que militares, padres, comerciantes e proprietários rurais se uniram contra a Coroa portuguesa. O movimento tinha raízes econômicas e políticas, como altos impostos, crise financeira agravada pela seca de 1816, insatisfação com a centralização do poder e influência das ideias iluministas que já circulavam entre setores letrados e maçons. A revolução tomou a cidade, destituiu o governador e implantou um governo provisório republicano, o que era algo inédito no Brasil até então.

A experiência durou cerca de 75 dias. Terminou em maio, com a retomada do controle pelas tropas portuguesas e uma repressão dura, que incluiu execuções e prisões. Mesmo derrotado, o movimento deixou marcas na identidade pernambucana. E é essa memória que reaparece na geografia da capital.

“De certa forma, a experiência de autonomia em 1817 deu a Pernambuco uma posição mais radical no debate sobre a independência. O movimento reforçou a defesa de um modelo constitucional de governo, que poderia até manter a monarquia, mas necessariamente submetida a uma constituição”, explica o doutor em História pela Universidade de Salamanca e presidente do Instituto Arqueológico,

Ele ainda pontua que “há um legado material que permanece até hoje: a bandeira de Pernambuco. Criada durante a revolução e desenhada pelo padre João Ribeiro, ela reúne símbolos associados ao pensamento iluminista e à maçonaria. Em 1917, durante as comemorações do centenário do movimento, essa bandeira foi oficializada como símbolo do estado.”
Cruz Cabugá: a aposta internacional

A Avenida Cruz Cabugá, uma das principais ligações entre Recife e Olinda, homenageia Antônio Gonçalves da Cruz, conhecido como Cruz Cabugá. Comerciante ligado às articulações do movimento, ele foi escolhido para a missão estratégica de viajar aos Estados Unidos em busca de reconhecimento diplomático e apoio material para a nova república.

A iniciativa mostrava que havia um projeto político que buscava legitimidade internacional. A revolução caiu antes que qualquer apoio externo se concretizasse. Cabugá não voltou ao Brasil para enfrentar a repressão que atingiu seus companheiros.

“Ele acabou realmente contratando oficiais franceses que haviam sido exilados depois da derrota de Napoleão, lá na Europa. E também tentou conseguir o reconhecimento dos Estados Unidos para a nossa independência. Nessa terceira parte da missão ele não teve sucesso”, complementa George Cabral.

Domingos José Martins: liderança civil e execução pública

Domingos José Martins - Crédito: Pintura de Oscar Pereira da Silva
Domingos José Martins (crédito: Crédito: Pintura de Oscar Pereira da Silva)

No Bairro do Recife, a pequena Rua Domingos José Martins lembra um dos principais articuladores civis da revolução. Comerciante e figura influente entre os liberais pernambucanos, ele integrou o núcleo dirigente do governo provisório.

Após a derrota, foi preso e executado no Recife. Sua morte o transformou em um marco do movimento. O nome permanece na malha urbana como referência direta a um dos rostos mais ativos da experiência republicana de 1817.
Foi nesta rua onde funcionou a primeira senzala urbana do Brasil. Antes de receber o nome atual, a via era conhecida como Rua da Senzala Velha, uma referência ao passado escravocrata da área.

Gervásio Pires: o homem do governo

Gervásio Pires - Crédito: Pintura feita por Manuel de Araújo Porto-Alegre
Gervásio Pires (crédito: Crédito: Pintura feita por Manuel de Araújo Porto-Alegre)

A Rua Gervásio Pires, na Boa Vista, remete a um dos integrantes do governo provisório instalado após a tomada do poder. Comerciante respeitado, ele teve papel administrativo na organização da nova ordem política.

Durante a evolução houve tentativa de estruturar um estado por meio da elaboração de normas, organização de forças militares, definição de cargos e responsabilidades. Gervásio Pires esteve nesse esforço. Depois da repressão, foi preso e só anos mais tarde voltou à vida pública.

Padre João Ribeiro: fé e ruptura

Entre os religiosos que aderiram ao movimento estava Padre João Ribeiro, também lembrado em logradouro da capital. Sua participação mostra que o levante teve forte presença do clero, a ponto de ser chamado, por alguns historiadores, de “Revolução dos Padres”.

Com a derrota, cercado pelas tropas que retomaram o controle da capitania, João Ribeiro tirou a própria vida. O gesto foi interpretado como ato extremo de resistência diante da prisão e da provável execução.

“Sobre a participação dos religiosos, é importante destacar que uma das instituições com grande relevância na formação das elites intelectuais em Pernambuco e nas províncias vizinhas foi o Seminário de Olinda. A instituição foi fundada em 1800 pelo bispo Azeredo Coutinho, que defendia a ideia de que os sacerdotes deveriam atuar também como agentes de desenvolvimento e de melhoria para a sociedade”, explica Cabral.

Manuel Correia de Araújo: representação agrária

Manuel Correia de Araújo era um senhor de engenho e proprietário rural que fazia parte da elite agrária pernambucana que, em 1817, decidiu romper com a Coroa portuguesa.

Correia de Araújo integrou o governo provisório instalado após a tomada do poder no Recife, representando os interesses do setor agrícola numa capitania cuja economia girava em torno do açúcar.

A insatisfação desse grupo tinha base econômica, como impostos elevados, crise de produção agravada pela seca de 1816 e a percepção de que Pernambuco sustentava a Corte sem receber contrapartidas proporcionais.

Com a derrota da revolução, os integrantes do governo provisório foram perseguidos. Muitos acabaram presos ou executados. A memória de Correia de Araújo permanece associada à experiência republicana de 1817 e à participação ativa da elite rural no projeto de ruptura com Portugal.

Padre Roma

Revolução dos Mártires - Antônio Parreiras (1860–1937)
Revolução dos Mártires (crédito: Antônio Parreiras (1860–1937))

O padre José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima, conhecido como Padre Roma, também esteve envolvido na articulação política da Revolução Pernambucana de 1817. Natural da então capitania de Pernambuco, ele aderiu ao movimento republicano que buscava romper com o domínio da Coroa portuguesa e implantar um governo autônomo na região.

Na revolução, ele uniu-se com grupos que conspiravam no estado e que criticavam a opressão colonial, buscando libertação

Durante o levante, Padre Roma foi encarregado de levar a revolta para a Bahia, numa tentativa de ampliar o apoio ao novo regime proclamado em Recife. No entanto, acabou denunciado às autoridades portuguesas, preso ainda em 1817 e executado pouco depois. Hoje, uma rua no bairro da Tamarineira, Zona Norte do Recife, leva seu nome.

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