"Revolta e frustação": filha de vítima da Tragédia da Hemodiálise desabafa 30 anos após o caso que deixou 60 mortos em Caruaru
A ‘Tragédia da Hemodiálise’, caso de intoxicação que matou cerca de 60 pacientes renais em Caruaru, no Agreste, completa 30 anos. O Diario conversou com Lucimary Passos, advogada e filha de vítima que até hoje continua sem receber indenização determinada pela Justiça ainda em 1996
Publicado: 23/02/2026 às 07:00
Até hoje, algumas vítimas e familiares continuam sem receber indenizações determinadas pela Justiça ainda em 1996, quando teve início a 'Tragédia da Hemodiálise' (Foto: Léo Caldas/Acervo DP)
"Revolta e frustação”. É assim que a advogada Lucimary Passos descreve a busca por justiça dos últimos trinta anos, decorrente da ‘Tragédia da Hemodiálise’. Ela é uma entre tantas pessoas que ainda aguardam indenizações determinadas pela Justiça ainda em 1996. Na ocasião, morreram cerca de 60 pacientes do Instituto de Doenças Renais (IDR) de Caruaru, no Agreste, intoxicados pela microcistina-LR, toxina presente na água usada nos procedimentos na clínica.
Na sexta (20), foram completadas três décadas da primeira morte do caso, que viria a ser uma das grandes emergências de saúde pública do Brasil. Foram cerca de 140 pacientes intoxicados pela microcistina-LR, durante o processo de hemodiálise, a primeira vez no mundo que houve registro de contaminação nessas circunstâncias.
Lucimary representa 26 famílias, e entre elas, a própria. O pai dela, José Francelino dos Passos, tinha 69 anos quando faleceu, cerca de dois anos após a intoxicação.
Segundo diz a jurista ao Diario, José ficou 45 dias internado no Hospital Barão de Lucena (HBL), no Cordeiro, na Zona Oeste do Recife, onde os pacientes vinham ser tratados, e mesmo após voltar para casa, nunca se recuperou das sequelas.
“Percebemos o quanto o debilitou porque, anteriormente, mesmo com a questão do problema renal, meu pai ia fazer a diálise tranquilamente, fazia as coisas dele, comprava, pagava, ia para a rua, de maneira muito independente e depois de tudo, ele passou a ser completamente dependente das filhas, já que ele já era viúvo. E aí a gente se assombrou. Foi um processo cada dia mais crescente de debilitação”, relembra.
Ela conta como foram os primeiros momentos de desconfiança de que algo estava errado, quando as primeiras mortes aconteceram.
“Uma semana antes das primeiras mortes, meu pai fez hemodiálise tranquilamente. Quando começou a acontecer, foi um horror e desconhecimento. Era carnaval, fizemos uma programação de viajar, queríamos que ele fosse, mas ele, muito independente, ficou. Quando voltamos, ele parecia outra pessoa de espírito. As feições estavam desfiguradas, mas ele disse que não aconteceu nada. Entre isso e a manifestação dos sintomas, foi muito rápido. Quando percebemos piora, corremos para o IDR. A gente sentiu que tinha algo anormal, só que não sabíamos de nada”, recorda.
Ela acompanhou o internamento do pai e relata como foi passar 45 dias em meio a dúvidas e medo.
“A gente se defrontou com a realidade de, antes de amanhecer um dia, escutar pelos corredores, nas enfermarias vizinhas, os gritos de parentes quando recebiam a notícia da morte. O primeiro ‘bom dia’ era a mortandade de quatro, cinco, seis pessoas, assim, no corredor. Acredito que foi particularmente bastante prejudicial para os pacientes, porque eles escutavam. Meu pai era muito ativo e lúcido. Queríamos poupá-lo, mas ele percebia, perguntava se tinha sido alguém da hemodiálise. Depois, infelizmente, chegavam amigos, parentes de outras pessoas de outra enfermaria e faziam esse comentário dentro”, recorda a advogada.
Justiça
Ainda em 1996, os sócios do IDR, os nefrologistas Bráulio Coelho e Antônio Bezerra Filho, foram condenados a indenizar as vítimas e famílias. Eles foram absolvidos das ações penais, em 2002. Apesar da condenação, poucas pessoas foram indenizadas. Segundo a jurista, quem ainda espera pelas indenizações “não encontra saída”.
“Pelo caminho de penhora de bens, pelo menos até o momento, a gente não encontra saída. Porque não tem como penhorar algo de um devedor que ele não tenha nada em canto nenhum, de forma nenhuma. Eu não vejo outro caminho. No campo judicial, a gente diz: ‘Ganhou, mas não levou’. Temos uma ação ganha, uma ação com 30 anos de existência”, compartilha.
Processo
Lucimary compara a busca por justiça dos últimos 30 anos à “via-crúcis”.
“A sentença foi favorável a nós e determinava que o Instituto pagasse 90 salários para parentes de vivos e 100 para familiares de vítimas fatais. A parte ré sabia que a busca seguinte seria para levantar meios de pagar isso. De imediato, começamos a buscar e não encontramos praticamente nada. Ninguém tinha carro, dinheiro ou bens. Eles recorreram, mas a sentença foi mantida. Aí começou nossa via-crúcis, na tentativa de encontrar alguma coisa que tivesse em nome, sob a responsabilidade deles, para que fôssemos contemplados”, recorda.
A única forma encontrada, à época, era o pagamento das indenizações com o dinheiro do convênio do IDR com o SUS, pontua a advogada.
“Uma colega pediu que esse pagamento feito pelo SUS a eles fosse 40% destinado às indenizações. Eles reagiram até ameaçando não dar continuidade às assistências aos pacientes, diziam que não tinham condição de pagar e iriam fechar. A justiça considerou parte das delegações e reduziu para 20%, o que também os deixou inconformados, não queriam nenhum desconto de nada”, detalha.
Segundo a advogada, o sistema de recursos foi usado como mecanismo para retardar os pagamentos.
“A gente tem um sistema recursal bastante amplo e longo e que contempla, principalmente, aquele que não tem intenção de pagar. Ele vai tentando barganhar, passar adiante com mais procedimento, com mais um instrumento que o sistema permite para fazer esse adiamento daquilo que ele é devedor. E foi o que aconteceu, tanto que o processo chegou até o Supremo (STF). Procedimentos seguiram para o Supremo até chegar de volta à vara. Quando retornou, não tinha nada, nem um sabonete que a gente pudesse dizer: ‘Pronto, vamos pegar aquele sabonete ali para lavar essa culpa’. Não tinha mais nada”.
Lucimary relata que só recebeu duas parcelas da indenização, mas nada além disso.
“A indenização do processo do meu pai foi em cima de R$ 54 mil, na época, mas existiram valores muito mais elevados e até um pouco menores. Nós recebemos duas parcelas. Depois, eles fizeram um mecanismo e não estavam mais pelo SUS, e não houve mais nenhum pagamento. Várias pessoas não foram alcançadas (pela indenização)”, conta.
A luta continua
Até hoje, o impasse na justiça é o mesmo: conseguir bens dos sócios para realizar a penhora. O sentimento de, após tantos anos, continuar lutando, é de revolta, diz Lucimary.
“É um sentimento, primeiro, de revolta. Porque não se admite que, num estado democrático de direito, a justiça não funcione. E segundo, de frustração, porque não tínhamos outro caminho que não fosse a busca por justiça, porque vimos o comportamento de instituições que achávamos que poderiam nos ajudar diante de uma história de completa injustiça, irresponsabilidade e ganância, que não teve um resultado à altura”, expressa.
Passados todos esses anos, muitas pessoas não conseguiram ver a completa resolução do caso, com as devidas indenizações feitas. Mesmo assim, Lucimary afirma que não vai parar de lutar.
“Daquele grupo, acredito que praticamente realmente não existe quase ninguém por conta da especificidade da doença, do tempo cronológico, da idade das pessoas. Quem vai receber alguma coisa, caso saia, serão já os sucessores. Mas a gente vai continuar lutando. Exatamente dessa forma, com a imprensa, a sociedade que apoia a causa, para que a gente continue lembrando”, reforça.
IDR
O Diario não conseguiu localizar a defesa dos sócios do IDR, Bráulio Coelho e Antônio Bezerra Filho.