° / °
Vida Urbana
MARACATU

Maracatu Nação transforma trajetórias e afasta jovens da violência no Grande Recife

Histórias de mestres, mulheres e jovens revelam como o baque virado reorganiza rotinas e oferece pertencimento

Adelmo Lucena

Publicado: 02/02/2026 às 06:00

Ensaios de Maracatu Nação/Foto: Crysli Viana/DP Foto

Ensaios de Maracatu Nação (Foto: Crysli Viana/DP Foto)

Aos 12 anos, Fábio Sotero já ocupava ruas, quadras e ensaios como quem parecia destinado a fugir à regra da comunidade onde vivia. Em Jaboatão dos Guararapes, onde cresceu, a expectativa sobre o seu futuro não era otimista. Ele mesmo ouviu, mais de uma vez, que poderia seguir um caminho curto e associado ao crime. Hoje, conhecido como Mestre Fábio Sotero, ele preside a Associação dos Maracatus Nação de Pernambuco e comanda uma das mais expressivas nações de maracatu da Região Metropolitana do Recife, o Maracatu Aurora Africana.

Conhecido também como maracatu de baque virado, o Maracatu Nação tem origem ligada às populações negras escravizadas e libertas, especialmente no Recife e na Zona da Mata Norte, a partir dos séculos XVIII e XIX.

Foi esta manifestação cultural que entrou na vida de Fábio quando ele ainda era adolescente. No início dos anos 2000, surgiu o Maracatu Aurora Africana e seu primeiro desfile reuniu cerca de 30 pessoas. Hoje, no domingo de carnaval, o grupo leva cerca de 350 integrantes à avenida, mas o crescimento não é medido pelos números.

“Eu sempre digo que, se não fosse a arte, talvez eu não tivesse chegado até aqui. Inclusive, na época, a comunidade dizia que eu seria um dos primeiros a seguir esse caminho do tráfico porque eu era muito traquino”, relata Fábio.

No barracão do Aurora Africana, o maracatu funciona como espaço de convivência e permanência. Muitos dos integrantes chegaram com histórias de evasão escolar, envolvimento com o tráfico ou de pequenos delitos. Fábio lembra de jovens que chegavam aos ensaios depois de “aprontar”, como ele mesmo define, e que, aos poucos, passaram a construir outra relação com o tempo.

“Quando entraram no maracatu, começaram a conviver mais, a ter outra opção de vida. A gente também incentivou a escola, porque o maracatu começou dentro de uma escola. A pessoa passou a ter outro comportamento. Às vezes faltava uma coisa simples, como uma sandália. A gente dizia: não furta, fala com a gente. E a gente dá um jeito”, conta. Pequenos gestos, repetidos ao longo dos anos, ajudaram a estabelecer novos comportamentos.

Entre 2009 e 2012, essa atuação extrapolou os limites da comunidade. O Aurora Africana foi reconhecido como Ponto de Cultura e passou a desenvolver oficinas de maracatu dentro de uma unidade de internação de adolescentes. Jovens em cumprimento de medida socioeducativa passaram a sair escoltados para se apresentar com o grupo e retornavam sem registrar qualquer tentativa de fuga. Alguns, ao deixarem a unidade, procuraram o maracatu para continuar ligados à cultura.

É nesse mesmo território que a trajetória de Gabriela da Silva Lins se envolve à do Aurora Africana. Aos 34 anos, ela soma quase 15 de convivência com o maracatu, mas o primeiro contato veio antes, ainda nos grupos de dança de Moreno, sua cidade de origem. A ida a Jaboatão para apresentações culturais foi o ponto de inflexão. Em meio a ensaios surgiu o convite para ir ao maracatu.

Gabriela começou em uma ala que representava personagens históricos ligados à escravidão e permaneceu por alguns anos, até receber o convite para assumir a função de cabocla. No maracatu nação, o caboclo e a cabocla têm uma função precisa dentro do cortejo e são os primeiros a entrar na avenida e os últimos a sair. Abrem e fecham caminhos, observam o desfile em movimento e atuam para que não haja vazios entre as alas.

Para Gabriela, o maracatu também se apresentou como espaço de sustentação em um momento delicado da vida. Ela atravessava uma depressão quando passou a ser chamada com insistência para participar de atividades no barracão, entre elas confeccionar roupas, ajudar nos preparativos e acompanhar apresentações.

A rotina compartilhada ocupou o tempo, reorganizou os dias e ofereceu uma segunda família. “Teve uma fase da minha vida em que eu estava passando por uma questão e por alguns problemas pessoais. As pessoas ficavam me chamando: ‘vamos pra lá, vamos fazer alguma coisa, tem apresentação, vamos confeccionar roupas’. Elas foram me introduzindo nessas atividades, me trazendo de volta, e isso ajudou”, relembra.

Hoje, às vésperas do carnaval, Gabriela passa os dias no barracão, mas destaca que os ensaios de batuque começaram meses antes. A atuação dela se concentra na costura do desfile.

O som do batuque ouvido por acaso também mudou o rumo da vida de Tiago Lima da Silva, de 18 anos, também morador de Jaboatão. Foi ao passar pela Casa da Cultura de Ipojuca que ele teve o primeiro contato com o Maracatu Aurora Africana, grupo do qual hoje faz parte como batuqueiro e integrante da produção.

Sem qualquer experiência musical anterior, Tiago aprendeu no próprio maracatu a tocar a alfaia, instrumento de percussão que marca o ritmo do cortejo. O aprendizado foi coletivo, com o apoio dos mestres e dos demais integrantes. Para ele, o maracatu trouxe uma segunda família.

“Aqui a gente se trata como família. A relação é muito próxima, somos como uma família de amigos. Fiquei bem mais disposto a enfrentar coisas que antes eu não conseguia sozinho desde que entrei. O maracatu acabou sendo um apoio”, conta.

Maracatu Nação

A estrutura do Maracatu Nação remete às coroações dos reis do Congo, realizadas no período colonial, e mantém vínculos com as religiões de matriz africana, sobretudo o candomblé e a jurema.

Diferente do Maracatu de Baque Solto, manifestação rural associada ao carnaval da Zona da Mata, o Maracatu Nação é urbano, ritualizado e organizado em torno de uma corte real, com rei, rainha, dama do paço, porta-estandarte e personagens que carregam significados históricos e religiosos.

Ao longo do tempo, o maracatu enfrentou perseguições, estigmatização e tentativas de apagamento, mas permaneceu como espaço de resistência cultural e social. Nos terreiros, nas sedes e nos barracões, as nações de maracatu seguem transmitindo saberes, ritmos e valores entre gerações.

Mais de Vida Urbana

Últimas

WhatsApp DP
Mais Lidas