Para maracatus de baque solto, o carnaval é trabalho diário e feito à mão
Brincantes conciliam rotina profissional com ensaios e produção artesanal
Publicado: 26/01/2026 às 06:00
Muito antes do desfile, o carnaval já acontece nos bastidores dos maracatus de baque solto (Foto: Marina Torres/DP Foto)
É em um terraço com uma área aproximada de 15 metros onde parte da história e do trabalho do Maracatu Cruzeiro do Forte acontece todos os anos. O espaço fica na casa da presidente do grupo, Maria Conceição da Silva Ramos, de 60 anos, mais conhecida como “Ceça”, que herdou o maracatu de baque solto da mãe como o último pedido em vida. Anualmente, ela enfrenta uma rotina instigante, porém intensa, de coordenar mais de 100 integrantes para as apresentações no carnaval do Recife.
Localizada no bairro do Cordeiro, Zona Oeste da cidade, a sede não é difícil de ser encontrada. Ao passar pela rua, nota-se logo uma casa de muro baixo com a pintura de um caboclo de lança vestido com uma cruz amarela e os dizeres “Maracatu Cruzeiro do Forte” na parede. No canto esquerdo do terraço, um boneco de um caboclo em miniatura. O espaço é movimentado, mas como não seria? É na casa de Ceça onde os integrantes se reúnem para sair para os ensaios, buscar informações e confeccionar algumas peças utilizadas nas apresentações.
Pelo chão da área da frente da residência não é difícil encontrar algumas lantejoulas que sobram durante as confecções. Mesmo caído no terraço, o principal material para composição das roupas não indica bagunça ou sujeira. Ceça faz questão de deixar tudo organizado para quem chega em sua casa, que fica mais movimentada durante à noite, quando recebe outras pessoas que ajudam a preparar os trajes das baianas, caboclos, batuqueiros, do rei e da rainha.
“A gente começou a confeccionar as roupas em agosto e mesmo assim leva tempo. Todos os dias são três pessoas que vêm aqui para fazer este trabalho. Em alguns momentos chega a ter mais gente, mas todos os dias no batente são apenas três. Tudo é feito aqui, o pessoal chega do trabalho e já vem para cá para bordar”, conta Ceça, enquanto mostra os dedos marcados pela prática constante de colar lantejoulas.
A atual presidente do maracatu começou desde pequena a se apresentar como baiana, função que carrega até hoje. Ela relembra que não queria assumir a responsabilidade de levar a tradição familiar adiante devido ao esforço extremo que era exigido. Além disso, um incêndio em outubro de 2000 destruiu boa parte da casa e dos itens do maracatu. Mas, com o apoio dos vizinhos, a trajetória do “Cruzeiro do Forte” não acabou. Em 2026 serão 97 anos de história.
Uma das integrantes veteranas do maracatu Cruzeiro do Forte é Laurinete Santana, de 86 anos, que entrou ainda criança no grupo. Para ela, trata-se de uma família de coração. “Todo mundo se ajuda, como uma família reunida. Já fizemos ensaio este ano e foi muito bom”, conta.
Trabalho começa muito antes do carnaval
Para os maracatus, não é só chegar na folia e se apresentar. É preciso atravessar um ciclo de trabalho comunitário, diálogos internos, aprendizagem e compromisso com uma tradição que vive o ano inteiro.
O baque solto é uma expressão histórica da Zona da Mata Norte, onde grupos espalhados por cidades como Nazaré da Mata, Aliança e Araçoiaba se organizam para manter viva a prática que vai além da festa. Também há este tipo de maracatu na Região Metropolitana.
Do fim da temporada anterior até o início do carnaval seguinte, os grupos promovem ensaios chamados sambadas. As sambadas, muitas vezes longas, acontecem em rodas nos terreiros ou nas sedes dos maracatus e atraem participantes de várias idades, dos mais jovens aos mestres.
Em alguns grupos, as sambadas rememoram a tradição oral de versos improvisados, quase como uma troca de experiências. Elas podem prolongar-se por horas, às vezes, madrugada adentro, e são menos ensaio técnico e mais uma comunidade em diálogo com sua própria história.
Ao mesmo tempo em que a música encontra seu ritmo, as mãos costuram e bordam. Em oficinas coletivas, participantes de diferentes faixas etárias trabalham na confecção dos estandartes, faixas, gordas gola bordadas, cabeleiras e outros elementos que compõem a visualidade do cortejo.
Essa confecção é frequentemente um processo artesanal. Algumas peças passam semanas em ateliês improvisados, tecido por tecido, lantejoula por lantejoula. É um tempo que mistura memória, técnica e diálogo entre gerações que aprendem umas com as outras.
Filho do Mestre Salustiano, fundador da Associação de Maracatus de Baque Solto, Manoel Salustiano atualmente trabalha bordando estandartes para diversos maracatus. “Meu pai foi um dos lutadores por essa cultura do Maracatu de Baque Solto. Então, a gente já nasce dentro da cultura. Eu comecei a me envolver mesmo a partir dos 14 anos. Nem sempre eu trabalhei confeccionando. Eu comecei dançando no maracatu. Mas essa coisa de ser artesão carnavalesco me chamou atenção porque ele sempre foi invisível. Geralmente quem dá entrevista é quem está no palco, quem está dançando”, relata.
“Quando eu me apaixonei pelo bordado, comecei fazendo gola de maracatu, e depois aprendi a fazer estandarte. O estandarte é uma obra de arte. Eu me apaixonei por essa arte porque acho que a gente merece protagonismo. É uma arte que não aparece muito, mas as pessoas começam a procurar, a querer saber quem são os artista”, complementa Manoel.
Entre esses elementos, o caboclo de lança se destaca na rotina de preparação. Ele encarna um papel ancestral que envolve cuidado, respeito e uma velocidade de movimento que exige preparo físico.
Existe também um período de recolhimento e cuidado pessoal, que varia de grupo para grupo. Alguns caboclos seguem orientações mais rígidas, enquanto outros mantêm cuidados mais simples, mas quase sempre há regras internas, como atenção com alimentação, descanso e até abdicação de relações sexuais.
“O primeiro preparo do caboclo folgazão é ir para a mata cortar a sua agulhada, que é a vara. Depois ele tem o preparo de afinar a sua matinada. Depois vem o preparo de passar sete dias em abstinência sexual, em que ele não pode dormir com a esposa. Dependendo do que for pedido, ele não come nem comida feita pela esposa. Depois ele prepara o azougue e toma o banho de limpeza com ervas em um rio ou riacho”, explica Manoel Salustiano.
A lança é preparada com antecedência, revisada, enfeitada e equilibrada para o uso. O caboclo aprende como conduzi-la no desfile, quando levantar, quando baixar, como se movimentar sem colocar em risco quem está ao redor.
Os instrumentos que acompanham o baque solto, combinação de metais e percussão, exigem prática constante. A banda, ou terno, ensaia cadências, marcas de entrada e saídas. A música do baque solto orienta o cortejo, marca a passagem dos personagens e sustenta a fala dos mestres que, com o apito, comandam o conjunto.
Esse processo ritmado não está separado do cotidiano de quem participa. Muitos brincantes equilibram trabalho, família e outras responsabilidades para estar presente nos ensaios. Em alguns casos, a preparação exige períodos em que se abdica de outras atividades para estar integralmente no maracatu.
Para além da rotina interna de cada grupo, existe uma rede de encontros entre maracatus. Antes do carnaval, reuniões tradicionais reúnem dezenas de agremiações em praças e espaços públicos, onde se trocam passos, se escutam sambadas e se compartilham experiências. Esses encontros fortalecem os laços entre localidades diferentes, ampliando a compreensão do maracatu como algo que se constrói em conjunto.