Pesquisa da UFPE: óleo de copaíba pode virar medicamento para prevenção de Alzheimer
Pesquisadores da UFPE identificaram no óleo de copaíba moléculas que podem interferir nos mecanismos associados à doença de Alzheimer
Publicado: 25/01/2026 às 07:03
Por meio das simulações computacionais, foram observadas que as moléculas cariofileno e copaeno, presentes no óleo de copaíba, impedem e protegem que se formem placas de peptídeos nos neurônios (Fotos: Crysli Viana/ DP Foto)
Um estudo conduzido na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) pode desenvolver um novo medicamento, produzido à base de moléculas extraídas do óleo de copaíba, que previne e interfere nos mecanismos moleculares associados à doença de Alzheimer.
Desenvolvida pelo pesquisador Iverson Conrado, sob orientação da professora Priscila Gubert, o estudo é considerado, segundo eles, algo inédito dentro da literatura científica mundial.
A pesquisa, publicada no Journal of Molecular Graphics and Modelling, periódico científico internacional da área de modelagem molecular e simulações computacionais, destaca resultados favoráveis ao combate da doença, indicados em simulações computacionais avançadas.
Em entrevista ao Diario de Pernambuco, os pesquisadores afirmaram que, durante os estudos, foi identificado que as moléculas cariofileno e copaeno, presente no óleo extraído do tronco da copaibeira, podem interferir nos mecanismos moleculares associados à doença de Alzheimer, inibindo principalmente a agregação do peptídeo beta-amiloide, considerada a proteína central no desenvolvimento da doença.
O beta-amiloide é um peptídeo conhecido por sua capacidade de se acumular no cérebro, formando estruturas tóxicas que atrapalham o funcionamento normal do neurônio no cérebro, causando danos e até a morte deles.
Esse processo está diretamente associado ao avanço do Alzheimer e ao surgimento de sintomas como perda de memória, alterações cognitivas, dificuldades de aprendizagem e comprometimento das funções motoras em estágios mais avançados.
Por meio das simulações computacionais, que consistem em um dos primeiros passos da pesquisa, foram observadas que essas duas moléculas impedem e protegem que se formem placas de peptídeos nos neurônios, evitando que eles se agreguem e causem à morte dos neurônios.
Segundo os pesquisadores, que fazem parte do Instituto Keizo Asami (iLIKA/UFPE) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia - Ciências Moleculares (INCT-CiMol), a prevenção é a principal forma de combater a doença, porque o processo de recuperação e regeneração desses neurônios mortos é muito difícil.
Apesar do potencial favorável do óleo de copaíba, os pesquisadores destacam que o estudo está no estágio inicial. Por conta disso, os tratamentos atualmente disponíveis em clínicas especializadas são os mais indicados para o manejo clínico da doença.
“As perspectivas futuras é tirar do papel a simulação e aplicar em modelos da animais vertebrados, como os ratos, que tem sistemas mais complexos. Já iniciamos essa segunda etapa da pesquisa, no qual estamos observando como o peptídeo associado a doença age em um verme que não se movimenta normalmente”, adiantou Iverson Conrado, que realiza a pesquisa durante sua pós-graduação de mestrado.
“Quando expomos o verme a essas moléculas do óleo de copaíba, percebemos uma melhora visível em seu comportamento, fazendo com que o animal passe da categoria de ‘paralisado’ para um animal que se move. Isso sugere uma possível ação desses componentes sobre o peptídeo beta-amiloide”, completou.
Além dos pesquisadores, o estudo contou com a participação da professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Karen Weber, e da professora do Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (CETENE), Giovanna Machado.
Próximos passos da pesquisa
Apesar de estar na segunda fase, o avanço da pesquisa, que deve ser experimentadas em camundongos para depois chegar na testagem em humanos, levará alguns anos.
“Depois que concluirmos os testes nos vermes, os resultados serão publicados em um artigo, que passará por avaliação de diverso pesquisadores críticos. Com a validação dos achados, iremos procurar modelos mais complexos, como camundongos, a fim de investigar os efeitos observados sobre o comportamento”, explicou.
“Somente depois de todas essas etapas, que deve levar alguns anos, é que podemos fazer testes de segurança em humanos. A ciência segue uma lógica muito rígida, mas tem que ser assim mesmo, pois estamos tratando diretamente com a saúde de seres humanos”, ressaltou Iverson Conrado.
Outro ponto que deve ser desenvolvido no decorrer da pesquisa é identificar, em um quantitativo de 25 a 30 espécies, do gênero Copaifera, existentes no Brasil, qual produz o óleo mais eficaz no tratamento do Alzheimer..
“Junto aos estudos biológicos, o laboratório também vem desenvolvendo e implementando abordagens nanotecnógicas para incorporação do óleo de copaíba em nanoparticulas, visando otimizar sua aplicação. Já temos algumas empresas prospectando o nosso laboratório e essa tecnologia da síntese desses nanomateriais. Então, o próximo passo é a transposição dessa tecnologia para uma escala industrial que possa investigar esses efeitos animadores observados em modelos químicos, computacionais e em invertebrados”, destacou a pesquisadora e orientadora Priscila Gubert.
Apesar do longo caminho que a pesquisa irá percorrer até que um possível medicamento seja desenvolvido, Priscila Gubert ressalta todo o trabalho realizado nessa pesquisa e de outros trabalhos desenvolvidos em no Nordeste.
“Temos muitos pesquisadores qualificados aqui no Nordeste, que desenvolvem estudos que impactam a vida de pessoas não só aqui na região, mas também no Brasil e no mundo. Nosso desejo é contribuir de alguma forma e tentar entender os benefícios que as plantas da nossa flora brasileira, em parceria com comunidades coletoras, essenciais para as pesquisas, mas que muitas vezes são ofuscadas”, destacou.
Extraído do tronco da copaibeira, o óleo de copaíba possui propriedades anti-inflamatória, anticancerígena e cicatrizante, geralmente utilizadas pelos povos indígenas, e que agora pode servir de um composto químico que pode auxiliar no combate da doença do Alzheimer.