Gêmeos sertanejos conseguem 16 aprovações em universidades públicas e escolhem estudar no interior
Os irmãos gêmeos José Gustavo e Pedro Arthur, de 19 anos, colecionaram 16 aprovações em instituições federais e estaduais em 2025. Naturais do Sertão, a trajetória deles é marcada por determinação e sucesso
Publicado: 22/01/2026 às 08:20
José Gustavo e Pedro Arthur Carvalho Cordeiro, naturais de Exu, no Sertão do Araripe (Foto: Cortesia)
No Sertão do Araripe, em Pernambuco, a cidade de Exu é mundialmente conhecida como a terra de Luiz Gonzaga. Mas, em 2025, uma nova história de sucesso, vinda da "capital do xote", ganhou os holofotes: a dos gêmeos José Gustavo e Pedro Arthur Carvalho Cordeiro. Aos 19 anos, os irmãos acumulam a marca de 16 aprovações em instituições públicas de ensino superior por todo o Brasil, distribuídas igualmente entre os dois.
Em entrevista ao Diario, José Gustavo relembra como tudo começou, em Granito, uma cidade vizinha a Exu: “Nossa história com a educação começou na Escola Municipal José Alves Silveira, na qual estudamos da creche ao Ensino Fundamental II e descobrimos o interesse pelas ciências exatas”.
As primeiras conquistas
Foi no Ensino Médio, ao passarem pelas escolas estaduais em Bodocó e Exu, que os irmãos descobriram o potencial das Olimpíadas Científicas.
“Cursamos o 1º ano e demos início, com a motivação de um professor de Física, à carreira nas Olimpíadas Científicas e de pré-vestibulares. No 2º ano, demos impulso à participação nos pré-vestibulares, projetos científicos e nas Olimpíadas do Conhecimento, os quais validaram ainda mais nosso gosto pelas exatas”, explica.
Sobre a rotina de estudos, José Gustavo revela que era um “desafio”. “Foi construída com muita organização e disciplina, mesmo diante do desafio de conciliar tantas atividades. Como estudávamos à tarde na escola, aproveitávamos as manhãs para nos dedicar aos conteúdos do vestibular, e as noites, à realização de trabalhos escolares e às atividades da bolsa de iniciação científica. Aos sábados, reservávamos tempo para revisões e simulados, reforçando o aprendizado da semana”.
Os jovens transformaram o estudo em competição de alto nível. O destaque veio com a Mostra Brasileira de Foguetes (MOBFOG), e conquista da medalha de prata em 2023 e o ouro em 2024, em nível nacional.
O talento dos irmãos atravessou o oceano. Após premiações na Olimpíada Internacional de Matemática Sem Fronteiras (OIMSF), os gêmeos receberam uma carta-convite para representar a delegação brasileira em Bangkok, na Tailândia. O reconhecimento serviu como prelúdio para o que aconteceria: o acesso às universidades.
Aprovações
Em 2025, o esforço resultou em uma lista extensa de 16 aprovações, oito para cada irmão. Todas em instituições públicas (federais ou estaduais). Confira:
Pedro Arthur – Matemática pelo vestibular da URCA (Universidade Regional do Cariri) (CE), Engenharia Civil pelo ENEM/SiSU no IFSertãoPE (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sertão Pernambucano) (PE), Engenharia de Telecomunicações pelo Enem-Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) (SP), Matemática pelo SSA/UPE (Universidade de Pernambuco) (PE), Matemática pelo Enem-USP (Universidade de São Paulo) (SP) e Engenharia Civil pelo PSC/UFCA (Universidade Federal do Cariri) (CE).
José Gustavo – Engenharia Civil pelo SSA/UPE (Universidade de Pernambuco) (PE), Matemática pelo vestibular da URCA (Universidade Regional do Cariri) (CE), Engenharia Civil pelo ENEM/SiSU no IFSertãoPE (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sertão Pernambucano) (PE), Engenharia de Telecomunicações pelo Enem-Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) (SP), Engenharia de Materiais pelo Enem-USP (Universidade de São Paulo) (SP) e Engenharia Civil pelo PSC/UFCA (Universidade Federal do Cariri) (CE).
“É um sentimento difícil de expressar em palavras. Vindos do Sertão pernambucano, de escolas públicas e de uma realidade em que, muitas vezes, o acesso a oportunidades parece distante, conquistar reconhecimentos que ultrapassam Pernambuco e até o Brasil é motivo de imenso orgulho e gratidão. Mais do que medalhas ou aprovações, essas conquistas representam a prova de que a educação transforma destinos e rompe fronteiras”, compartilha José Gustavo.
Para ele, todo esforço, noite de estudo e cada desafio superado valeram a pena. “Acima de tudo, carregamos a responsabilidade de mostrar a outros jovens que sonhar alto é possível e que o lugar de onde viemos não limita o lugar aonde podemos chegar”, relata.
Pés no Sertão e olhar no futuro
Apesar das oportunidades em São Paulo e outros grandes centros, os irmãos optaram por permanecer em solo pernambucano. Atualmente, cursam Engenharia Civil no IFSertãoPE – Campus Ouricuri, também no Sertão do Araripe. Segundo José Gustavo, os irmãos optaram por seguir no Sertão por que querem contribuir para a região.
“Escolher o IFSertãoPE foi, acima de tudo, uma decisão consciente e alinhada à nossa realidade atual. Acreditamos que, estando no Instituto Federal, estamos colaborando diretamente para o desenvolvimento da nossa região, que sempre foi o ponto de partida dos nossos sonhos. Foi a escolha possível por ora e, sem dúvida, uma instituição de grande qualidade”.
A escolha reflete um propósito maior: os gêmeos agora lideram projetos na faculdade que visam levar os benefícios das olimpíadas de conhecimento para outros estudantes da rede pública, especialmente na área de Física Experimental.
"A educação pública tem um forte poder de transformar realidades", defende José Gustavo, reafirmando que o sucesso é fruto de uma rede de apoio que envolve família, amigos e mestres. Para o futuro, os gêmeos não descartam voar em outros ares além dos pernambucanos. “As demais universidades, como a USP, continuam sendo um sonho que pretendemos perseguir no futuro, em uma especialização, mestrado ou doutorado”, expressa.
Ao descrever a própria história, José Gustavo destaca: sonhar alto é possível, basta se dedicar. “A gente deixa a seguinte frase: Que o nosso esforço seja inspiração para quem ouse sonhar tão alto quanto nós”, finaliza.