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Vida Urbana
INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

"Respeito à fé é respeito à dignidade", diz líder da rede de mulheres de terreiro de PE

Pernambuco registrou, em média, 15,3 denúncias ou violações à liberdade de religião ou crença por mês em 2025

Adelmo Lucena

Publicado: 21/01/2026 às 21:56

Racismo religioso é a discriminação direcionada a indivíduos ou grupos por suas crenças, especialmente contra religiões de matriz africana /Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Racismo religioso é a discriminação direcionada a indivíduos ou grupos por suas crenças, especialmente contra religiões de matriz africana (Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)

Perseguições no transporte público, desrespeito em espaços religiosos e medo de realizar denúncias fazem parte da rotina de quem segue religiões de matriz africana não só em Pernambuco, mas em todo o Brasil. No Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, 21 de janeiro, a educadora e coordenadora da Rede de Mulheres de Terreiro de Pernambuco, Maria Conceição da Silva, relata experiências pessoais e coletivas marcadas pelo racismo religioso.

Em 2025, Pernambuco registrou, em média, 15,3 denúncias ou violações à liberdade de religião ou crença por mês, segundo a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos.

Coordenadora do Centro de Cultura Afro-Adão e egbomy do Ilê Oba Ogunte, Maria Conceição destaca que já foi alvo de diversas situações constrangedoras envolvendo racismo religioso. Ela destaca que “respeitar a fé do outro é respeitar a dignidade humana”.

Para ela, o caso mais incisivo de racismo religioso aconteceu em 2023 no Metrô do Recife e nenhum apoio foi oferecido pelos passageiros.

“Era uma sexta-feira, eu estava toda de branco, com minhas guias, meu andor. No metrô, fui desacatada por um homem. Ele estava com uma placa dizendo ‘Jesus salva’ e começou a me perseguir. As pessoas viam, mas não interferiam. Eu entrei no metrô achando que ia ficar livre, mas ele entrou também, me chamando de demônio, dizendo várias coisas. Fiquei tão estarrecida que não sabia nem o que falar”, relembra.

Anos antes, em 2017, a mãe de Maria Conceição foi desacatada quando foi visitá-la durante um toque (ritmos específicos tocados nos tambores para invocar, saudar e cultuar os Orixás, Voduns ou Inquice).

“Alguns moradores, ao verem minha mãe, uma senhora de mais de 70 anos, começaram a desacatá-la, dizendo que a religião era coisa do demônio. Depois eu fui falar com essa pessoa e disse que ela poderia ser presa, porque racismo religioso é crime. Acabei não denunciando, mas isso não deveria acontecer. A gente precisa registrar, ir à delegacia, fazer valer nossos direitos”, conta.

Em outra ocasião Maria Conceição disse que não podia deixar de ajudar a levar o caso para a Justiça. “Outro caso envolveu uma mulher trans que ocupava um cargo na prefeitura e sofria perseguição de um pastor. Enquanto Rede de Mulheres de Terreiro de Pernambuco, levamos o caso ao Ministério Público. Esse mesmo pastor também atacou uma filha de uma irmã nossa que fez um grafite belíssimo próximo ao Museu da Abolição, num túnel no bairro da Madalena. Ele dizia que aquilo era um ‘portal do inferno’. Esse foi um dos poucos casos em que conseguimos justiça”, afirma.

Para Maria Conceição, os episódios vividos individualmente refletem um cenário mais amplo, marcado por desigualdades históricas e violações de direitos.

“O Brasil é o país mais negro fora da África. O Nordeste é a região mais negra dentro do Brasil. Mesmo assim, o racismo religioso é diário, é constante. E Pernambuco, sendo um local que reúne culturas de matriz afro-indígena, sofre todos os dias com o racismo religioso. Isso é o desrespeito à nossa liberdade de crença, que é garantida pela Constituição Federal.”

Para Conceição, o termo “intolerância-religiosa” ainda é brando. “A gente precisa primeiro eliminar essa ideia de ‘intolerância’. Intolerância você tolera quando quer. É racismo religioso mesmo. É crime, mas continua acontecendo. Os dados estão aí e não nos deixam mentir. Isso vem do desrespeito”, pontua.

Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa

A data nacional, segundo Conceição, deve servir como um momento de reflexão coletiva. “A gente deveria ter mais consciência dessa data, porque serve ara repensar o que estamos fazendo.”

“Mãe Gilda não morreu à toa. Todo mundo sabe que o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa existe por causa do desrespeito que ela sofreu. Parece que só se reconhece a intolerância quando alguém morre ou quando os direitos de alguém são brutalmente violados”, destaca.

Mãe Gilda de Ogum foi uma importante ialorixá baiana e ativista social que se tornou o símbolo máximo da luta contra a intolerância religiosa no Brasil. Em decorrência do agravamento de problemas de saúde causados pelo estresse e pela humilhação pública dos ataques, Mãe Gilda morreu em 21 de janeiro de 2000, vítima de um infarto fulminante.

“A gente sempre espera acontecer uma tragédia para tomar alguma atitude, em vez de prevenir. Isso não pode acontecer. Porque a cada dia fica mais claro que não se constrói paz desacatando o outro, desrespeitando sua opção religiosa e seus direitos.”

Ao falar sobre enfrentamento e caminhos possíveis, ela destaca a necessidade de responsabilização e mudança de valores. “A prevenção é importante, mas sem punição efetiva nada muda. A pena é branda ou inexistente. As pessoas têm medo de denunciar, porque correm risco de morte.”

“Eu acredito que, se estamos em busca da paz, precisamos rever nossos valores. Respeitar a fé do outro é respeitar a dignidade humana. E toda a nossa cultura nasce nos terreiros: o samba, o maracatu, o caboclo, o afoxé. Celebram a cultura, mas esquecem de respeitar a origem”, complementa.

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