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POR ENGANO

Mulher é presa por crime que teria sido cometido pela irmã em Petrolina: "Ela se passou por mim"

Aos 55 anos, Eliane da Silva Gomes Araújo foi transportada em viatura com algemas nas mãos e nas pernas. Ela deverá buscar reparação pelo ocorrido

Jorge Cosme

Publicado: 16/01/2026 às 15:29

Mulher registrada por câmera de segurança durante furto não é a moradora de Santa Barbara d'Oeste-SP./Foto: Reprodução

Mulher registrada por câmera de segurança durante furto não é a moradora de Santa Barbara d'Oeste-SP. (Foto: Reprodução)

A auxiliar de limpeza e cuidadora de idosos Eliane da Silva Gomes Araújo, de 55 anos, tentava decifrar o que o delegado falava. "Eram palavras difíceis", como ela mesma diz. O investigador percebeu a confusão no olhar da mulher. "A senhora ainda não entendeu que está sendo detida?", perguntou.

Chegou livre à Delegacia de Americana, no interior de São Paulo, em 23 de dezembro de 2025 e saiu de lá algemada nas mãos e pernas, dentro de uma viatura, na companhia de uma mulher acusada de roubo de fios rumo à Cadeia Pública de Sumaré-SP.

Quando a mulher finalmente soube do que estava sendo acusada - havia um mandado de prisão aberto por furto em Petrolina, no Sertão de Pernambuco - entendeu o que havia ocorrido: "Estou sendo presa no lugar da minha irmã".

O furto

Na manhã de 3 de outubro de 2022, ao abrir seu pet shop em Petrolina, a proprietária percebeu o sumiço de produtos: uma máquina de tosa, uma lâmina, 10 conjuntos de roupas para pet, um avental da loja e um sachê Friskies.

Um vídeo, registrado por câmera de segurança de estabelecimento vizinho, mostrava o momento da invasão da loja.

Acompanhada do marido e de policiais, a própria vítima encontrou a suposta mulher que aparecia nas imagens. A acusada, que vivia em situação de rua, teria confessado o furto, afirmando também já ter vendido o material a um comerciante local - ela negaria o crime na delegacia. Na bolsa dela, o casal encontrou o avental e o sachê.

Posteriormente encaminhada à delegacia e sem portar documentos, a mulher detida, Edilene da Silva Gomes, se apresentou como Eliane da Silva Gomes Araújo, nome da sua irmã.

Colocada em liberdade, Edilene não foi mais localizada durante o andamento do processo, o que ensejou a decretação de sua prisão preventiva em maio de 2025. Até que sua irmã precisou comparecer a uma delegacia no interior de São Paulo na madrugada de 23 de dezembro.

Furto de pet shop em Petrolina foi registrado por câmera de segurança. - Reprodução/Redes sociais
Furto de pet shop em Petrolina foi registrado por câmera de segurança. (crédito: Reprodução/Redes sociais)
 

Uma prova

Eliane não conseguia parar de chorar. Quando disse que era inocente, um agente penitenciário ironizou. “Todos aqui são inocentes”.

"Eu fiquei no chão de uma cela, sem nem um papelão. Eu me tremia tanto. Comecei a passar mal. O jeito foi deitar ali mesmo, junto com a privada, que, na verdade, era um buraco rente ao chão”, ela lembra.
“Foi uma prova que eu passei, para me pegar mais com Deus”. A mulher diz ser portadora de diabetes, hérnia de disco, depressão e hipertensão arterial.

Ela passou por audiência de custódia e teve a prisão confirmada. O juiz de São Paulo não teria competência para deliberar sobre o mandado de prisão para além de informar à Justiça de Petrolina sobre a captura. Eliane seguiu então para a Penitenciaria Feminina de Monte Mor-SP na véspera de Natal.

"A gente constatou os indícios de ilegalidade ainda aqui em Americana. Então o nosso escritório desenvolveu um trabalho de diligências junto aos sistemas dos tribunais para verificar a situação", diz o advogado André Leonardo Quilles, que tem feito a defesa da auxiliar de limpeza no caso.

Segundo ele, uma foto da autora do crime no processo deu a segurança de que sua cliente não tinha envolvimento com o caso. Ele acabou descobrindo que aquela não era a primeira vez que a situação ocorria.

Falha no sistema

Nascida em Juazeiro do Norte-CE, mas radicada em Petrolina, a auxiliar de limpeza se mudou para o estado de São Paulo em 2017 após convite de uma parente, afirmando que lá haveria mais oportunidades de trabalho. Hoje vive na cidade de Santa Barbara d’Oeste-SP.

O distanciamento entre as irmãs veio antes. Segundo Eliane, Edilene se afastou da família quando tinha cerca de 15 anos. "Ela se jogou na rua, foi morar com um pessoal. E não ficou mais em casa com a gente", resume.

O histórico de delitos da irmã é extenso. Quilles identificou ao menos dez passagens de Edilene pela justiça por fatos semelhantes.

A mulher em situação de rua já teria dito se chamar Eliane em um processo de 2020. Há pelo menos outros dois casos em que também dá nomes diferentes às autoridades: Ediana e Ediane.

No pedido de habeas corpus para a soltura de Edilene, o advogado diz ter havido "evidente erro procedimental na identificação da pessoa que foi presa em flagrante".

"Os agentes públicos, que capturaram e os que atuaram na lavratura do Auto de Prisão em Flagrante, na ocasião, não submeteram a detida aos procedimentos padrões de identificação criminal, nem mesmo pelo processo datiloscópico e fotográfico", ele critica.

"Posteriormente, a presa foi submetida a audiência de custódia, onde novamente não houve a aferição da real identidade da pessoa custodiada", acrescenta no documento.

Ao Diario de Pernambuco, o defensor detalhou os procedimentos que deveriam ter sido tomados. "A legislação traz que a identificação criminal incluirá o processo datiloscópico e fotográfico, que serão juntados aos autos da comunicação de prisão em flagrante ou do inquérito policia”.

"Isso seria feito por um profissional da Polícia Civil, que é o papiloscopista, que vai colher a digital da pessoa e passar no banco de dados para retornar o resultado da identificação criminal. Isso não foi feito no caso e deveria ser de praxe, senão dá abertura para qualquer pessoa ser indiciada por algo que não fez", resume.

No caso de 2020, em que a mesma mulher teria dado o nome da irmã, o juiz chega a lamentar a ausência de identificação criminal dela.

"Existe papiloscopista de plantão, mas o mesmo se recusa a fazer uma simples coleta de impressão digital ao argumento de que esta deve ser feita durante a semana. A toda evidência, a autuada não pode ser prejudicada pela ineficiência ou mesmo má vontade (não se sabe ao certo) do aparato estatal", ele escreveu em audiência de custódia.

Eliane conseguiu a liberdade provisória por meio de habeas corpus. Deixou a penitenciária na noite de 24 de dezembro. Foi recebida pela família com festa, enquanto mal conseguia processar o que havia ocorrido.

Ao revogar a prisão preventiva, o desembargador plantonista Demócrito Reinaldo Filho afirma que a defesa apresentou indícios relevantes de possível erro na identificação da acusada.

"Extrai-se dos autos que, quando da lavratura do auto de prisão em flagrante pela suposta prática do delito de furto, não foram adotados todos os procedimentos indispensáveis à adequada identificação civil e criminal da pessoa então custodiada, inexistindo a realização de exame papiloscópico, identificação datiloscópica ou validação biométrica eficaz", acrescenta.

"Em razão dessa deficiência procedimental, surgem indícios consistentes de que a pessoa presa naquela ocasião possa ter sido, em verdade, irmã da paciente, possivelmente em situação de rua, a qual teria se passado por ela no momento da prisão", ratifica Demócrito Filho.

Reparação

A mulher presa por engano não tem conseguido dormir bem desde que saiu da prisão. "Eu emagreci, estou muito abalada ainda. Está muito difícil. Eu não consegui mais botar a cabeça para funcionar”, relata.

Como o processo ainda está em curso, ela precisa seguir medidas cautelares impostas pelo desembargador.

"Dentro dessa liberdade provisória, ela tem que cumprir ainda alguns requisitos, por exemplo não pode estar nas ruas das 20h às 6h da manhã", conta o advogado.

"A gente está esperando a dona Eliane se restabelecer, até emocionalmente, para que ela compareça aqui no escritório, a gente dê continuidade os outros processos também, e alegue que ela é ilegítima para figurar neles", continua.

"Solucionado esse problema de identificação dela, o escritório vai estar à disposição caso ela queira buscar alguma indenização pela situação lamentável que passou".

A auxiliar de limpeza tem informações de que sua irmã atualmente está presa por outro delito.

Ao final da entrevista, ao ser questionada se teria algo mais a dizer, como reforçar a indignação ou cobrar justiça, Eliane não hesitou:

"Eu só queria pedir que, se alguém pudesse, que ajudasse minha irmã, levasse alguns produtos de limpeza, de higiene para ela. Não tenho raiva dela”.

A reportagem procurou a Secretaria de Defesa Social (SDS) para questionar sobre os protocolos de identificação criminal e o funcionamento do serviço no Estado. A pasta não se pronunciou até a publicação da reportagem.

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