Carnaval: entenda como a festa se adaptou em Pernambuco e mudança de datas
Uma das principais festas do estado teve início no período colonial e se moldou com influcências europeias e africanas
Publicado: 12/01/2026 às 04:00
Prévias de carnaval atraem carnavalescos e turistas em Olinda (Foto: Sandy James/DP Foto)
Entre 14 e 17 de fevereiro, Pernambuco volta a viver um tempo próprio. As ruas começam a mudar de ritmo, os ensaios ocupam praças e sedes de agremiações para receber o carnaval. A festa que atravessa séculos ajuda a explicar como o estado construiu uma das mais singulares formas de brincar o carnaval no Brasil.
A história do carnaval pernambucano começa ainda no período colonial, quando a então capitania vivia sob forte influência da cultura europeia, especialmente portuguesa. No século XVII, registros apontam para a prática do entrudo, brincadeira trazida da Europa que antecedia o período da Quaresma e envolvia jogos corporais, água, pós e alimentos arremessados entre os participantes.
“Na Europa, a festa era chamada de ‘entrudo’ quem tem relação com a introdução à Quaresma. São os três dias que antecedem o início da Quaresma. Era o período de festa, de comilança, de excesso, de brincadeira, de bebedeira e de sexo“, explica a historiadora e pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco, Rita de Cássia.
Apesar de ser tolerado em alguns momentos, o entrudo também foi alvo constante de tentativas de controle e repressão por parte das autoridades coloniais, que o associavam à desordem urbana.
“Os primeiros registros que a gente tem, ainda na Colônia, aqui mesmo em Pernambuco são do ano de 1555. Há registros de proibição do entrudo já em 1717 e 1718, porque ele consistia fundamentalmente numa brincadeira de se sujar. Enquanto os senhores de engenho ficavam dentro de suas casas com amigos, os escravizados brincavam nas ruas”, destaca Rita de Cássia.
Com o passar do tempo, essas práticas foram se misturando às expressões culturais africanas e indígenas presentes no território pernambucano. Pessoas escravizadas e seus descendentes incorporaram ritmos, cantos, instrumentos e formas próprias de ocupação do espaço público, criando manifestações que não seguiam os padrões europeus, mas dialogavam com eles. Esse processo de mistura foi fundamental para diferenciar o carnaval local de outras festas semelhantes no Brasil.
No século XIX, o crescimento do Recife como centro urbano e econômico provocou mudanças na forma de brincar. A cidade passou a ter ruas mais estruturadas, maior circulação de pessoas e o surgimento de associações recreativas. É nesse período que aparecem os primeiros clubes carnavalescos, como o Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas, fundado em 1889, que passaram a organizar desfiles com música, estandartes e regras próprias. O carnaval passa a se organizar como evento coletivo reconhecido pela cidade.
Esse momento também coincide com profundas transformações sociais, como o fim da escravidão e a reorganização do trabalho urbano. A população negra, agora liberta, encontrou no carnaval um espaço de expressão cultural, sociabilidade e visibilidade. Ao mesmo tempo em que essas manifestações ganhavam força nas ruas, elas continuavam sendo alvo de preconceito e tentativas de enquadramento por parte das elites e do poder público.
“No final do século XIX, surgem os clubes que dariam origem ao frevo, ligados à classe trabalhadora urbana, em um contexto de crescimento das cidades, das fábricas e do comércio. Essa classe também passa a se organizar para brincar o carnaval. Com isso, entram os clubes, os maracatus-nação, os caboclos e o carnaval vai se tornando essa mescla. O ‘mela-mela’ vira algo residual, mas os conflitos permanecem, porque é uma festa que disputa o espaço público”, pontua a historiadora.
O surgimento do frevo
É nesse ambiente urbano do final do século XIX e início do XX que surge o frevo, ritmo e dança que se tornariam centrais para o carnaval pernambucano. O frevo nasce da convivência entre bandas militares, contratadas para animar desfiles e eventos públicos, e a população que acompanhava essas apresentações nas ruas. A música acelerada, marcada por instrumentos de sopro e percussão, exigiu uma resposta corporal igualmente intensa.
Os passos do frevo dialogam com movimentos da capoeira, então praticada de forma marginalizada, e com outras danças populares urbanas. A sombrinha, inicialmente utilizada como instrumento de equilíbrio e defesa corporal, acabou incorporada como elemento simbólico da dança. O termo “frevo” aparece pela primeira vez em 1907, em um registro de jornal, como forma popular de se referir à sensação de fervura das ruas durante o Carnaval.
Ao longo do século XX, o frevo se fortaleceu como trilha sonora da folia pernambucana, acompanhando clubes, blocos e troças tanto no Recife quanto em Olinda. Paralelamente, outras manifestações se mantiveram vivas e integradas ao carnaval, como o maracatu nação, ligado às tradições afro-brasileiras e às coroações simbólicas de reis e rainhas negras; os caboclinhos, com referências indígenas; e os blocos líricos, que introduziram uma musicalidade própria ao carnaval de rua.
“Nos anos 1930, com a criação da Federação Carnavalesca, o frevo se consolida como símbolo de identidade pernambucana, dentro de um projeto nacional de identidade cultural. A Federação passa a disciplinar desfiles, premiar e definir o que é autêntico. O carnaval passa a ser pautado no popular, reconhecendo essa identidade. A Federação sistematiza esse discurso: as sociedades carnavalescas representariam a Europa; o maracatu, os negros; o caboclo, os indígenas; e o frevo, a mistura de tudo isso”, explica Rita de Cássia.
Em 2012, o frevo foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, reforçando a importância do Carnaval pernambucano no cenário cultural internacional. Mais recentemente, o Carnaval do estado passou a ser reconhecido oficialmente como manifestação da cultura nacional, ampliando o debate sobre preservação, transmissão de saberes e valorização dos fazedores de cultura.
Por que o carnaval muda de data?
A variação da data do carnaval está ligada ao calendário cristão. A festa acontece sempre antes do início da Quaresma, período de 40 dias que antecede a Páscoa e é tradicionalmente associado à reflexão religiosa. A Páscoa, por sua vez, não tem data fixa e é celebrada no primeiro domingo após a primeira lua cheia que ocorre depois do equinócio de primavera no hemisfério norte.
A partir da data da Páscoa, contam-se os dias da Quaresma, o que faz com que o carnaval termine sempre na terça-feira anterior à Quarta-feira de Cinzas. Por isso, a festa pode ocorrer entre fevereiro e o início de março, variando a cada ano. Em 2026, esse cálculo coloca o carnaval na segunda quinzena de fevereiro.
“A Páscoa, que serve como referência para demarcar a data de diversas festas 'móveis' religiosas católicas, tem por base o ano lunar. A Páscoa acontece anualmente no primeiro domingo depois da primeira lua cheia do equinócio da primavera e o carnaval acontece 40 dias antes da Páscoa”, complementa a historiadora.