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Data centers

Nordeste desponta na corrida dos data centers impulsionado pelas energias renováveis

Com abundância de energia limpa e incentivos fiscais, o Nordeste entra na rota global das 'big techs'

Antônio Gois

Publicado: 05/11/2026 às 19:44

Panorama do Porto Digital, em Recife, Pernambuco/Gustavo Amorim

Panorama do Porto Digital, em Recife, Pernambuco (Gustavo Amorim)

O Brasil se tornou um dos principais destinos globais para a instalação de data centers por reunir os fatores essenciais exigidos pelas big techs: custo competitivo de mão de obra, abundância de água, geografia favorável e, principalmente, vasta oferta de energia renovável.

Porém, embora a maioria destes empreendimentos já esteja instalada no Sudeste, que concentra 143 estruturas, segundo dados levantados pelo Diario com base na plataforma Data Center Map, o Nordeste, com 19, deve ganhar ainda mais projeção, principalmente devido à grande disponibilidade e ao potencial de energia proveniente de fontes renováveis.

O consumo de energia e de água é um ponto sensível no funcionamento e na manutenção dos data centers. Os sistemas complexos que eles abrigam demandam quantidades altíssimas de energia e água potável, tornando esses recursos decisivos tanto para quem constrói quanto para a região que recebe o empreendimento.

O Redata, incentivo tributário para a vinda de infraestruturas de tecnologia sancionado em 2026, atrela seus incentivos fiscais a contrapartidas de sustentabilidade e de consumo energético. Além disso, em 2025, foi assinada uma medida provisória que estabelece que as Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs) do Brasil utilizem exclusivamente energia oriunda de fontes renováveis, modificando a Lei nº 11.508, de 20 de julho de 2007, que dispõe sobre o regime tributário, cambial e administrativo das ZPEs.

Atualmente, no Nordeste, de acordo com dados de março de 2026 do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, os estados do Ceará e do Piauí são os únicos estados com uma ZPE em pleno funcionamento. Esses locais consistem em áreas de livre comércio com o exterior, onde são instalados distritos industriais beneficiados com concessões tributárias, liberdade cambial e processos administrativos desburocratizados, que favorecem ainda mais a vinda dos data centers. Além disso, os dois estados, além da Bahia, Alagoas, Rio Grande do Norte e Pernambuco, se destacam na produção de energia renovável, com fontes como eólica, solar e biomassa.

Ademais, o Nordeste respondeu por 68% da nova capacidade instalada do país em 2024, com mais de 7 mil MW, impulsionada pela expansão das fontes renováveis, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Por isso, empreendimentos já buscam sair na frente para aproveitar a demanda de espaços para data centers que necessitam desse tipo de energia.

É o caso do Ecopolo Nordeste, em Delmiro Gouveia (AL), que tem conclusão prevista para o primeiro semestre de 2027 e é concebido como um grande complexo industrial e tecnológico que busca unir um polo de bioenergia a data centers de enorme escala. Segundo o CEO do empreendimento, José Viana, em entrevista ao Diario durante o Data Center World Brasil 2026, o local pretende funcionar como uma “simbiose industrial”.

“O Ecopolo foi pensado sob o conceito de simbiose industrial, onde uma empresa aproveita a matéria-prima ou subproduto da outra até fechar o ciclo. São 35 milhões de metros quadrados, dos quais 50% são destinados exclusivamente a data centers de alta densidade (abrigando de 4 a 6 grandes empreendimentos) e os outros 50% a indústrias sustentáveis”, explica.

Para ele, o espaço busca solucionar as maiores questões sobre a presença de um centro de dados: “O data center pegou a fama de consumir energia e água em excesso, o que é verdade. No nosso caso, resolvemos a energia gerando 100% de fonte renovável própria, operando totalmente fora da rede (off-grid). A nossa energia não está interligada ao sistema nacional para não causar qualquer desequilíbrio ou risco de faltar luz na cidade porque o polo puxou carga. Quanto à água, vamos tratar o esgoto da cidade de até 100 mil pessoas e transformá-lo em água de refrigeração. A água do polo é 100% reutilizável e não há descarte”, detalha e acrescenta que Delmiro Gouveia foi, para eles, um ponto estratégico, já que está a uma média de 500 km de todas as capitais da região, que são interligadas pelas BR-423 e BR-101.

Ainda segundo Viana, a geração de empregos seria também um dos grandes fatores para o investimento no Ecopolo, com uma das empresas abrigadas gerando, sozinha, “1.200 empregos diretos e 6.000 indiretos”, além de planos para assinar convênios com o Instituto Federal de Alagoas (IFAL) e a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) para treinamento em áreas como instrumentista industrial, mecânico industrial e eletricidade industrial.

Embora a oferta de energia e de mão de obra favoreça a vinda dessas organizações, outros fatores pesam na decisão, como explica Iuri Santos, gerente de tecnologia da Kingston, durante visita do Diario ao evento.

“O Brasil é um país atrativo porque não tem terremoto ou furacão, conta com matriz energética e tem um mercado consumidor gigantesco. No entanto, a lógica econômica brasileira assusta investidores estrangeiros. Empresas de fora fazem o planejamento contando com determinado benefício fiscal e, quando vão implementar o projeto, a regra do jogo mudou ou o benefício caiu. Essa falta de segurança jurídica faz o investidor recuar”, avalia.

Além disso, questões de infraestrutura não devem facilitar a vinda rápida desses empreendimentos à região, já que a demanda global continua alta, como explica o especialista: “O consumo está muito grande. Não é que estejamos produzindo menos ou que faltem produtos por falha de produção; é que a demanda aumentou numa escala muito fora do imaginado. E a tendência não é de queda, a tendência não é de estabilização, a gente ainda tá longe do platô. A matéria-prima está mais cara e a infraestrutura de IA vai demorar bastante para se estabelecer totalmente. Não estamos diante de uma derrocada de estoques, mas sim de uma nova cadeia em que quem produz precisa repassar o custo para conseguir comprar insumos cada vez mais caros.”

Data centers em Pernambuco

Ainda segundo o Data Center Map, Pernambuco conta com três data centers, mas, assim como a região, de modo geral, tem potencial para receber mais empreendimentos do tipo por contar com facilidades geográficas e oferta de energia limpa. Há, no entanto, quem defenda que a construção desses espaços deve ser feita não só para reduzir a dependência externa, tanto de investimento quanto de processamento de dados.

De acordo com Pierre Lucena, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e presidente do Porto Digital, localizado no Bairro do Recife e considerado o principal distrito de tecnologia e inovação do Brasil e da América Latina, o caminho para a emancipação digital do Brasil passa pelo processamento local das informações produzidas no país.

“Soberania digital significa não expor dados estratégicos do Estado. Não faz o menor sentido colocar informações sensíveis do Banco Central para serem processadas fora do país. O Plano Brasileiro de IA precisa ser mantido e continuado independentemente de trocas de governo, pois é a primeira vez que o Congresso, a academia e o setor privado se uniram para traçar uma política nacional de autonomia tecnológica”, afirma Lucena.

Sobre o risco de os data centers deixarem poucos benefícios locais, Lucena alerta: “Se for para fazer apenas o data center da especulação ou a chamada ‘monocultura da energia elétrica’ — a exemplo do que foi a cana-de-açúcar —, isso não deixará nada para o país além de um rastro ambiental. Precisamos entender essa infraestrutura como uma nova indústria que só faz sentido se gerar desenvolvimento e externalidades positivas para a região.”

“Instalar data centers não deve ser encarado como a saída econômica para Pernambuco”, defende o professor. “A nossa vocação é apostar nas pessoas e na economia do conhecimento”, acrescenta.

Lucena cita ainda que o estado tem, proporcionalmente, mais vagas em universidades públicas do que São Paulo. “Cabe a nós atrair indústrias intensivas em capital humano — como software, engenharia e o polo médico — que deixem altos salários no estado”, argumenta.

Para exemplificar, ele cita o próprio Porto Digital, que abriga empresas de biossegurança, geolocalização e serviços financeiros. “Nós queremos um data center, mas para servir às nossas empresas e fortalecer a indústria do conhecimento que existe lá, e não para ser uma mera máquina de processamento de IA”, finaliza.

*O repórter foi ao evento a convite da Kingston Technology

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