Por dentro dos data centers que movem a IA e os desafios do Brasil para recebê-los
O Diario foi ao Data Center World Brasil 2026, onde grandes players do mercado se encontraram para discutir o presente e o futuro do ramo no país.
Publicado: 29/10/2026 às 20:43
Fileiras de gabinetes de racks de servidores no data center da Digital Realty em Singapura. (ROSLAN RAHMAN / AFP)
Já estamos vivendo na era das inteligências artificiais, as IAs. A participação dos chatbots já é uma realidade e, por isso, sua presença já não é mais uma perspectiva futura, mas um fato consolidado. Dessa forma, não só aprender a usá-las, mas entender o processo que faz com que elas cheguem até nós é cada vez mais determinante em como podemos encarar essa novidade.
Além do debate extensivo e mais óbvio sobre o que a tecnologia pode nos oferecer, há uma discussão ainda mais palpável e que confronta diretamente o Brasil: a vinda dos Data Centers. Para debater sobre o assunto, o Diario foi ao Data Center World Brasil 2026, neste mês de outubro, onde grandes players do mercado se encontraram para discutir o presente e o futuro do ramo no país.
Um data center é como uma grande fábrica, mas tudo o que ele produz é digital. Nesta grande fábrica, que pode ocupar milhares de metros quadrados, estão servidores formados por gavetas cheias de peças, ligadas por um grande circuito que cria e armazena dados, funcionando como a parte física da internet. Atualmente, existem dois tipos de data center: para nuvem ou para IA, que, do lado de fora, podem parecer os mesmos, mas suas peças e estruturas diferem em capacidade e complexidade de tarefas.
De acordo com a IBM, multinacional norte-americana de tecnologia, os data centers típicos contêm uma infraestrutura que seria rapidamente sobrecarregada pelas cargas de trabalho da IA. Ao usar unidades de processamento central (CPUs), o foco maior é controlar o fluxo de dados e executar instruções que fazem o sistema funcionar. Porém, um data center voltado à IA requer o uso de unidades de processamento gráfico (GPUs), que lidam com cargas de processamento muito mais intensas. Uma GPU é um circuito eletrônico que divide problemas complicados em partes menores que podem ser resolvidas simultaneamente devido aos milhares (ou até milhões) de processadores, o que torna essas peças mais rápidas e eficientes, como um cérebro extremamente potente.
Os modelos de IA são treinados e executados em GPUs de data centers, alimentando muitas das principais aplicações de IA, indo de uma receita simples até a escrita de um livro, passando pela criação de códigos de programação ou de um vídeo meme do momento. Claro, nem só de peças de processamento vivem os data centers, mas também de componentes de armazenamento — como SSDs e HDDs — e de infraestrutura de rede, com roteadores, switches e cabeamento de fibra óptica e cobre, que interligam todas as máquinas.
Com todos esses aparelhos funcionando ao mesmo tempo, começam a aparecer os desafios. Se o nosso celular ou laptop já esquenta funcionando algumas horas por dia, imagine um sistema complexo desses, que permanece ligado vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. É aí que entra o uso da água como principal meio de resfriamento dessas peças. A questão é que esses componentes são sensíveis a impurezas e variações químicas, exigindo água completamente limpa e potável para evitar danos. Além disso, a questão do uso de energia também assusta os investidores, que chegam a pôr bilhões de dólares em projetos como esses.
Com o aumento exponencial da necessidade de IAs, o setor de data centers cresceu para atender à demanda. Atualmente, as regiões da Ásia-Pacífico e da América do Norte têm a maior proliferação de data centers, especialmente em cidades como Pequim e Xangai, na Ásia, e em regiões como o norte da Virgínia e a Baía de São Francisco, nos Estados Unidos. Porém, as grandes empresas que investem na tecnologia querem muito mais e exploram outros mercados, especialmente os que oferecem mão de obra barata, oferta de energia renovável, água abundante e geografia adequada, tudo o que o Brasil tem de sobra.
Por isso, o país virou um dos principais alvos da corrida pelos data centers e tem seu território disputado por big techs, as grandes empresas que detêm a maior parcela da conexão do mundo, como Google, Microsoft, Meta, Amazon, entre outras. Mas se, por um lado, a geografia natural e a disponibilidade de mão de obra favorecem a vinda dessas organizações, outros fatores podem contar para o estabelecimento desses empreendimentos, como explica Iuri Santos, gerente de tecnologia da Kingston, durante visita do Diario ao evento.
“O Brasil é um país atrativo porque não tem terremoto ou furacão, conta com matriz energética e tem um mercado consumidor gigantesco. No entanto, a lógica econômica brasileira assusta investidores estrangeiros. Empresas de fora fazem o planejamento contando com determinado benefício fiscal e, quando vão implementar o projeto, a regra do jogo mudou ou o benefício caiu. Essa falta de segurança jurídica faz o investidor recuar”, avalia.
Para além das questões nacionais, em que o governo federal busca alternativas para facilitar a vinda dos data centers, como o Redata — incentivo tributário para a vinda de infraestruturas de tecnologia —, a perspectiva global também gera debates e questionamentos. Segundo a Gartner, empresa de pesquisa e consultoria de tecnologia, os gastos globais com IA já chegaram à casa dos trilhões de dólares em 2026, com mais da metade desse valor sendo destinado à infraestrutura.
Porém, em qualquer lugar do mundo, para aumentar a capacidade de IA são necessários os data centers que, por sua vez, fazem necessárias as peças, que não existem sem os semicondutores, materiais “ideais para tecnologias como chips de computador, chips de inteligência artificial (IA) e dispositivos da Internet das coisas (IoT) que dependem da condução de uma grande quantidade de energia através de uma pequena área”, como explica a IBM. É essa cadeia frágil e cara a base de toda a infraestrutura de IA que chega ao usuário final.
A questão dos semicondutores ainda é um ponto sensível na cadeia global. Atualmente, 60% dos chips de semicondutores do mundo e mais de 90% dos chips avançados são fabricados na ilha de Taiwan, que tem tamanho semelhante ao dos estados de Alagoas ou Rio Grande do Norte. Com essa produção concentrada e consequentemente limitada, o preço das peças disparou globalmente, chegando a 24% nos casos de GPUs no Brasil, segundo levantamento do portal TechSpot, consequência da crise de componentes e da crescente demanda para abastecer data centers de IA.
“O que vimos há dois ou três anos foi um investimento de bilhões de dólares dos grandes players em IA e infraestrutura. Hoje, a estimativa é de que esses investimentos estejam na casa dos trilhões de dólares. Essa demanda gigantesca gera uma pressão imensa nos preços, até porque a indústria de semicondutores não é gigantesca e conta com poucos fabricantes. Como há players dispostos a pagar o preço que for para estruturar sua IA, isso inflaciona todo o mercado”, explica Paulo Vizaco, Country Business Manager da Kingston, sobre o cenário global de alta de preços e escassez de insumos.
A ideia é reforçada por Santos, que destaca: “O consumo está muito grande. A gente nunca fabricou tanto semicondutor na história moderna e cada vez mais a gente produz mais. Não é que estejamos produzindo menos ou que faltem produtos por falha de produção; é que a demanda aumentou numa escala muito fora do imaginado. E a tendência não é de queda, a tendência não é de estabilização, a gente ainda tá longe do platô.”
A previsão, segundo o especialista, é que os preços e investimentos demorarão a se estabilizar. “A tendência é que os preços continuem subindo porque a matéria-prima está mais cara e a infraestrutura de IA vai demorar bastante para se estabelecer totalmente. Não estamos diante de uma derrocada de estoques, mas sim de uma nova cadeia em que quem produz precisa repassar o custo para conseguir comprar insumos cada vez mais caros”, explica.
A própria Kingston, que dos seus 40 anos esteve 30 no Brasil destinando seus produtos a consumidores domésticos, já atua na direção do abastecimento desses empreendimentos, como explica Vizaco. “Embora a Kingston atue há quase 40 anos globalmente e há três décadas no Brasil com forte presença no consumidor final, já vendemos para data centers corporativos há muitos anos. Porém, a partir do último ano, passamos a dar um foco ainda mais intenso ao segmento de Data Center e Enterprise devido a essa transformação estrutural”, pondera.
Porém, a aceitação da presença dos data centers no país já leva a outras discussões tão importantes quanto. A dependência não é apenas de investimento externo, mas também do processamento em si. Soberania nacional, debate em voga nos últimos meses, se traduz no âmbito virtual para a soberania digital. De acordo com Pierre Lucena, presidente do Porto Digital, localizado no Centro do Recife e considerado o principal distrito de tecnologia e inovação do Brasil e da América Latina, o caminho da emancipação do Brasil nos ambientes e discussões sobre a internet passa pelo processamento local de informações criadas no país.
“Soberania digital significa não expor dados estratégicos do Estado. Não faz o menor sentido colocar informações sensíveis do Banco Central para serem processadas fora do país. O Plano Brasileiro de IA precisa ser mantido e continuado independentemente de trocas de governo, pois é a primeira vez que o Congresso, a academia e o setor privado se uniram para traçar uma política nacional de autonomia tecnológica”, afirma Lucena.
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), lançado em 2024, representa um marco para o desenvolvimento tecnológico do Brasil. Com um investimento previsto de R$ 23 bilhões em quatro anos, o plano visa transformar o país em referência em inovação e eficiência no uso da IA, buscando desenvolver soluções que otimizem a entrega de serviços públicos. O PBIA e o Redata são exemplos de esforços do governo para posicionar o país nas discussões globais de IA e governança, mas que, para especialistas como Lucena, ainda precisam se traduzir em desenvolvimento tecnológico real para o país.
Sobre esses esforços e sua real influência na produção de tecnologia no Brasil, há ressalvas. “Se for para fazer apenas o data center da especulação ou de ‘monocultura da energia elétrica’ — a exemplo do que foi a monocultura histórica da cana durante a Colônia —, isso não deixará nada para o país além de um rastro ambiental. Precisamos entender essa infraestrutura como uma nova indústria que só faz sentido se trouxer externalidades positivas e desenvolvimento regional”, argumenta Pierre, e conclui: “O Porto Digital é um dos maiores consumidores de nuvem do Nordeste porque abrigamos empresas de biossegurança, geolocalização e serviços financeiros. Nós queremos data centers próximos, mas para fortalecer a nossa indústria do conhecimento e servir às empresas locais, e não para sermos meras máquinas de processamento.”
*O repórter esteve no evento a convite da Kingston Technology.