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Política
Eleições 2026

Com abstenção de 33 milhões, especialistas avaliam chances de virada no 2º turno

Analistas divergem sobre causas da abstenção recorde e apontam fatores que podem influenciar o resultado da disputa presidencial

Amauri Lins

Publicado: 13/10/2026 às 06:00

Eleições 2026 registraram maior abstenção desde 1998/Foto: Antonio Augusto/TSE

Eleições 2026 registraram maior abstenção desde 1998 (Foto: Antonio Augusto/TSE)

A abstenção de 33,4 milhões de eleitores e a diferença de apenas 1,87 ponto percentual entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriram uma nova frente de disputa na corrida presidencial. A menos de duas semanas do segundo turno, especialistas ouvidos pelo Diario de Pernambuco divergem sobre as razões que levaram mais de um quinto do eleitorado a não comparecer às urnas e avaliam como a mobilização dos ausentes, a polarização política e a antecipação do voto útil podem influenciar o desfecho da eleição.

Os números ajudam a dimensionar o desafio das campanhas. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 21,08% dos eleitores aptos não votaram no primeiro turno, realizado em 4 de outubro, o maior índice desde 1998. Nas urnas, Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, configurando a menor diferença entre os dois primeiros colocados em um primeiro turno presidencial desde a redemocratização.

Os elementos sinalizam que, apesar de conquistar uma vantagem numérica importante na primeira rodada da disputa, o presidenciável liberal ainda está longe de ter um cenário considerado confortável para o segundo turno. A seu favor, Flávio conta ainda com o tabu histórico em que os primeiros colocados do primeiro turno na disputa pelo Planalto sempre saíram vencedores no segundo.

Para o cientista político e escritor Fábio Chap, o número elevado de abstenções pode ser resultado de uma descrença generalizada com a política. “Existe um cansaço extremo do eleitorado em relação à imagem do Lula e à imagem dos Bolsonaro. Quando 33 milhões de pessoas se abstêm, a gente sabe que existe um cansaço grande com a imagem dos principais candidatos”, aponta.

Na visão do jornalista Felipe Pena, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), a parcela da população que se absteve possui características que se aproximam do eleitorado do líder petista. “Essas 33 milhões de pessoas que não foram às urnas, um universo gigantesco, pode render ainda bons votos para o Lula. Porque é geralmente o eleitor dele que não consegue chegar na urna, o eleitor de baixa renda, com menos escolaridade, aposentado, mais velho”, diz.

A cientista política Priscila Lapa entende que o afastamento do eleitor foi motivado pelo crescente acirramento entre os campos ideológicos e a adoção de posturas mais radicais por parte dos atores políticos. O cenário teria suprimido as posições de centro, que, segundo ela, contemplariam a maioria da população.

“À medida que essa radicalização foi acontecendo, foi havendo uma negação da política. ‘Se eu não me sinto representado, eu não quero me envolver’. Uma consequência dessa radicalização é o esvaziamento do centro, o não voto, a não participação política, a não escolha política, que é afirmada claramente pelas pessoas que não sentem motivação para ir votar”, analisa.

A ausência também é explicada por uma escolha objetiva de cada cidadão, que não teria sido captado por um sentimento de pertencimento vinculado às campanhas. “Se ela acha que tem um custo maior do que o benefício de sair de casa para votar, ela minimiza e não vai. Mas se ela estivesse definitivamente engajada politicamente, se o discurso político conectasse emocional e racionalmente, ela iria”, afirma Lapa.

Menor diferença e tabu histórico

A vantagem conquistada por Flávio Bolsonaro no primeiro turno foi a menor da história do país nas primeiras rodadas das eleições desde a redemocratização. O presidenciável liberal marcou 47,03%, enquanto o petista teve 45,16%, uma diferença de 1,87 pontos percentuais.

A margem superou o acirramento de 2022, que era recorde até então com 5,23 pontos percentuais de diferença, quando Lula marcou 48,43% e Jair Bolsonaro (PL) teve 43,2% dos votos válidos no primeiro turno. Além disso, o histórico das eleições presidenciais aponta que os primeiros colocados nos primeiros turnos sempre saíram vencedores do segundo turno.

Segundo Chap, o impacto das movimentações das campanhas no segundo turno deve ser sentido de forma gradual e pode culminar em uma mudança de cenário. “Não é um trabalho que a gente vai ver de uma hora para outra, é um trabalho de formiguinha, de mobilização constante ao longo de três semanas e que pode e será muito influenciado pelas sabatinas, entrevistas, debates, novos fatos políticos. Tudo isso pode influenciar uma possível virada do Lula contra o Flávio”, avalia.

Lapa indica ainda que radicalização, e a consequente redução dos nomes ligados ao centro ideológico, seria uma explicação para os números aproximados nas urnas. “Isso é um fenômeno que a gente tem visto acontecer, vitórias muito apertadas aqui na América Latina, diferenças muito pequenas entre um candidato e outro. Isso é o efeito do esvaziamento do centro, que inviabiliza candidaturas moderadas”, afirma.

Antecipação de voto útil teria acirrado disputa

Um outro aspecto apontado como um dos causadores do cenário de acirramento seria uma suposta antecipação de um eventual voto útil, postura mais comumente adotada pelo eleitorado nas disputas de segundo turno. O posicionamento também seria uma das explicações para a divergência entre o resultado apontado na maioria das pesquisas antes do primeiro turno e os números reais das urnas.

“Não foi necessariamente um erro dos institutos de pesquisa. O que aconteceu foi um adiantamento por parte do eleitor do segundo turno. Se você olhar o que o eleitor respondia que ia fazer no segundo turno, é o resultado que deu no primeiro. O que vimos foi uma alteração de última hora da corrida para o voto útil, como se fosse o segundo turno”, afirma Chap.

Para Pena, o fenômeno teria beneficiado em maior parte a candidatura oposicionista, uma vez que a maioria dos principais nomes na disputa estariam vinculados ao campo político da direita. “[As pesquisas] estavam fazendo a fotografia do momento e mostravam uma ascensão do voto útil dos candidatos de direita, do Flávio. Esse voto foi antecipado e acho que já chegou no teto. Por isso, o Lula permaneceu com o que tinha, 45%, enquanto o Flávio, que teria entre 43% e 42%, chegou a 47%. É uma antecipação dos votos da chamada terceira via, que acabaram indo para o Flávio já no primeiro turno”, observa.

Lapa avalia ainda que no pleito deste ano as pesquisas voltaram a ganhar importância e foram responsáveis por balizar a atuação dos candidatos. “Elas entraram num processo de falta de credibilidade nos ciclos eleitorais [anteriores] e neste, com muita força, vemos as pesquisas motivando os comportamentos, moldando o que as pessoas falavam na rede social, até as estratégias de campanha. É como se a pesquisa tivesse voltado a ganhar um espaço de centralidade, no sentido de movimentar a opinião pública e tentar influenciar, de fato, a tomada de decisão”, afirma.

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