Mensagens da PF mostram bastidores de festa de Vorcaro com Fábio Faria
Evento privado em São Paulo reuniu 120 mulheres e teve proibição total do uso de celulares; Documentos indicam que o ex-ministro atuou na montagem da lista de convidados
Publicado: 11/09/2026 às 13:52
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro (Reprodução/Youtube)
Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular do banqueiro Daniel Vorcaro revelam a articulação de uma festa privada de Halloween que reuniu 120 mulheres e 20 homens em São Paulo, em 31 de outubro de 2023.
As conversas mostram a participação do então ministro das Comunicações do governo Bolsonaro, Fábio Faria, na montagem da lista de convidados e registram referências a políticos e integrantes do Judiciário, além da preocupação dos organizadores em impedir vazamentos sobre o encontro.
Fábio Faria foi deputado federal pelo Rio Grande do Norte e ministro das Comunicações entre 2020 e 2022. Filho do ex-governador Robinson Faria, é casado desde 2017 com Patrícia Abravanel, filha de Silvio Santos, e tem três filhos.
O material consta do relatório da Polícia Federal IPJ-A nº 3298613/2026, elaborado a partir da análise do celular de Vorcaro e encaminhado ao Supremo Tribunal Federal no âmbito da PET 15.556. O documento, de 218 páginas, foi produzido em agosto de 2026.
As mansagens também foram divulgadas pela revista piauí nesta sexta-feira (11/9).
Faria ajudou a montar lista de convidados
As conversas mostram que Fábio Faria tratava diretamente com Vorcaro sobre os nomes que poderiam participar da festa. Em 24 de outubro, uma semana antes do evento, ele informou ao banqueiro que os senadores Davi Alcolumbre e Rodrigo Pacheco haviam confirmado presença e que também havia convidado o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal.
“Davi e Pacheco fechado para terça. Chamei Toffoli tb”
Na mesma conversa, Faria relatou que Alcolumbre havia perguntado sobre a presença de mulheres estrangeiras e mencionou uma visita que pretendia fazer ao banco com os sócios de seu escritório.
“Davi tá louco perguntando se as suíças vão vir. Se der vms trazer. E na segunda quero ir lá no banco com os meus sócios do escritório.”
Vorcaro respondeu que as mulheres estrangeiras estariam no encontro.
No dia seguinte, Faria voltou a atualizar o banqueiro sobre a lista. Alcolumbre e Pacheco eram tratados como confirmados, enquanto Toffoli tentaria comparecer. Faria explicou que o ministro presidia a Segunda Turma do STF naquele dia. Vorcaro ainda perguntou se o senador Ciro também iria, mas recebeu a informação de que ele tinha uma viagem marcada.
Os nomes dos três integrantes do Legislativo e do Judiciário aparecem nas mensagens como convidados, mas isso não comprova que tenham participado da festa. Toffoli, Alcolumbre e Pacheco negaram presença. As equipes de Alcolumbre e Pacheco afirmaram que os dois estavam em Brasília em 31 de outubro e haviam jantado juntos.
Faria também afirmou que sua atuação se limitou ao encaminhamento de convites. Segundo ele, havia conhecido Vorcaro em um fórum empresarial naquele mês e apenas repassado convites a amigos em comum.
Sigilo envolveu celulares e escolha das convidadas
A preocupação em manter o encontro em segredo aparece em diferentes momentos das conversas. O endereço não foi revelado antecipadamente aos convidados, e Vorcaro chegou a dizer apenas que a festa ocorreria em um local próximo ao Rosewood e “ultra tranquilo”.
A quantidade de pessoas também gerou problemas para a organização. Em determinado momento, Vorcaro informou que havia mais mulheres do que o espaço comportava.
“Cara, tem 120 mulheres e 20 homens. Tô tendo que tirar mulher porque não tá cabendo”.
As mensagens mostram ainda que Faria estava preocupado com a possibilidade de imagens ou informações sobre a festa chegarem às redes sociais. Ele citou a repercussão de uma festa de Neymar e sugeriu diminuir a quantidade de brasileiras.
“Tem publicidade um vazamento desses. Ontem vazou a festa do Neymar”.
Vorcaro respondeu que adotaria medidas para evitar registros. Entre elas, estava a proibição de celulares.
“Relaxa que vai ser zero estresse. Claro, mas sem telefone total. Só menina nova. Metade de fora e as daqui conhecemos”
Em seguida, o banqueiro voltou a demonstrar preocupação com a possibilidade de o encontro se tornar público.
“Se vazar, eu tô morto. Peguei equipe só de controle disso. Não vai vazar nada. Não será primeira nem última”
Vorcaro também indicou qual seria a versão apresentada caso a realização da festa viesse a público.
“Festa vai ser bacana, não é festa de devassidão. Se alguém falar algo, era evento do banco para parceiros de Halloween”
A preocupação com o sigilo aparece também em áudio transcrito pela PF. Na gravação, Faria explica que dizia a outras pessoas que permaneceria em Brasília e menciona os nomes de Arthur e Alexandre. Segundo a investigação, os dois seriam referências a Arthur Lira e Alexandre de Moraes.
“É, eu sei. Mas, pô, eu, por exemplo, estou falando que vou dormir em Brasília, entendeu? É só pra dar confiança pros caras. Falou, pro Arthur, todo mundo, pô, vai trazer todo mundo. Mandei aqui pro Toffoli. Pô, dá até para trazer o Alexandre numa dessa, entendeu? Quando for só de fora, então é caprichar nisso aí. De repente trazer menos brasileira hoje, porra, que já está bom pra caralho e a gente vê. Mas se você toca aí. Abraço”
No dia da festa, o endereço foi enviado a Faria: Rua Conselheiro Ramalho, 873, na Bela Vista.
Vorcaro escolheu perfil das mulheres
A divisão das tarefas também aparece nas conversas entre Vorcaro e Tiago Polo. O produtor informou que havia negociado com as agências Mega, Ford e Joy. Vorcaro, porém, rejeitou a possibilidade de participação da Allure porque não queria homens desconhecidos entre os convidados.
“Irmão, a ideia da Allure é boa, mas não queria ninguém de fora nessa festa. De homem. Vai ter uma turma relevante pra mim, não quero ninguém desconfortável”
Em outras mensagens, o banqueiro especificou que queria “só menina nova” e utilizou o termo “novinhas” para se referir ao perfil procurado.
As agências mencionadas nas conversas negaram ter participado da seleção ou da intermediação de modelos para a festa. Executivos da Mega, Ford, Joy e Allure afirmaram que as empresas não fazem esse tipo de intermediação, que proíbem modelos contratadas de trabalhar com promotores e que não mantêm negócios com Vorcaro.
A festa teve open bar e bufê, incluindo mesa de queijos e sushi. O ambiente tinha iluminação baixa e música de DJs como Swedish House Mafia, Solomun e Vintage Culture. Uma convidada ouvida sobre o evento confirmou a presença de muitas mulheres estrangeiras e disse não ter presenciado atividade sexual.
O espaço também afirmou não ter conhecimento prévio sobre quem faria a reserva. O sócio do Madame Satã, Gé Rodrigues, disse que o local havia sido alugado por um produtor de eventos e que ele não sabia que a festa era destinada a Vorcaro. Tiago Polo não comentou o caso.
Vídeo da festa foi retirado após ordem de Vorcaro
A tentativa de impedir registros continuou depois do evento. Na manhã seguinte, Vorcaro se irritou ao descobrir que uma convidada havia publicado no TikTok um vídeo com a frase “MELHOR FESTA DE HALLOWEEN”.
O banqueiro pediu a Tiago Polo que identificasse a mulher e retirasse imediatamente a publicação.
“Cara, quem é essa puta? Vai tomar no cu. Manda tirar agora. Isso. Agora”
Polo entrou em contato com a convidada, e a publicação foi retirada. Segundo o material da investigação, a segurança também havia impedido fotografias da própria fachada do estabelecimento.
O episódio aparece relacionado a outra frente da investigação da PF sobre uma estrutura privada que, segundo os investigadores, teria sido utilizada por Vorcaro para intimidar prestadores de serviços e adversários.
Em novembro de 2023, o banqueiro enviou ao segurança Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, uma publicação no Instagram relacionada à festa e pediu que o conteúdo fosse removido.
Mourão concordou. O perfil pertencia a um produtor de música eletrônica que fazia comentários sobre atrações internacionais. O segurança posteriormente foi preso em uma operação relacionada à investigação e morreu em março de 2026, após uma tentativa de suicídio em instalações da PF em Belo Horizonte.
Conversas também citam retirada de links e um DJ
Outro trecho analisado pela PF envolve Felipe Mourão e uma série de links que teriam sido retirados dos resultados do Google ou desindexados. Parte do material dizia respeito a reportagens sobre os gastos estimados entre R$ 15 milhões e R$ 20 milhões com a festa de 15 anos da filha de Vorcaro.
Em outubro de 2024, Vorcaro mudou de assunto durante uma conversa com Mourão e falou sobre a possibilidade de contratar alguém para acompanhar um DJ que se apresentava em festas.
“Vamos contratar gente pra seguir o cara la, ele é dj em festa.”
Mourão respondeu sugerindo que o profissional poderia ser convidado para tocar no Brasil.
“Quem sabe ele não vem tocar em alguma festa no Brasil? No Rio ou BH..”
Vorcaro então mencionou a possibilidade de fazer o convite.
“Podemos fazer um convite”
Na sequência, indicou o Rio.
“Rio”
Depois, escreveu:
“Pressao milicia e policia”.
Citados negam participação
Além das negativas de Fábio Faria, que afirmou à piauí ter apenas encaminhado convites, os demais nomes e empresas mencionados nas mensagens também apresentaram contrapontos.
Dias Toffoli, Davi Alcolumbre e Rodrigo Pacheco negaram ter participado da festa. As equipes de Alcolumbre e Pacheco disseram a revistas que os senadores tinham compromissos em Brasília naquela data e haviam jantado juntos.
A referência a “MV”, feita por Faria durante as tratativas, foi associada no material da investigação ao advogado Marcus Vinícius Furtado Coêlho, que já presidiu a OAB e atuou para Wesley e Joesley Batista e para Vorcaro. Wesley Batista, porém, informou por meio de sua assessoria que nunca participou de festas do banqueiro. O advogado também afirmou que não era o “MV” mencionado na conversa e que estava fora de São Paulo.
As agências Mega, Ford, Joy e Allure negaram ter intermediado modelos para a festa. O Madame Satã afirmou que o espaço foi alugado por um produtor de eventos, sem que seu sócio soubesse que Vorcaro seria o responsável pelo encontro. Tiago Polo não se manifestou.
As mensagens analisadas pela PF são usadas para dimensionar a rede de relações de Vorcaro e investigar se encontros privados poderiam ter desdobramentos em relações empresariais e institucionais. A simples presença de um nome nas conversas, assim como a participação descrita de Faria na organização da festa, não constitui isoladamente prova de crime.