Lula: 'A mim não preocupa a dívida pública. Eu herdei esse governo com déficit fiscal de 2,8%'
Questionado se adotaria medidas de ajuste fiscal em um eventual quarto mandato, Lula se esquivou e disse que quer governar o País por mais quatro anos para "fazer esse País crescer"
Publicado: 28/08/2026 às 06:32
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) (Ricardo Stuckert)
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta quinta-feira, 27, na sabatina promovida pela TV Globo, que não está preocupado com a dívida pública brasileira. Questionado se adotaria medidas de ajuste fiscal em um eventual quarto mandato, Lula se esquivou e disse que quer governar o País por mais quatro anos para "fazer esse País crescer", alegando que ele "já fez o básico que tinha que fazer".
"A mim não preocupa a dívida pública. Eu herdei esse governo com déficit fiscal de 2,8% (do PIB). Sabe quanto vai ser esse ano? Superávit primário de 0,1% (do PIB). Se tem alguém nesse País que tem responsabilidade fiscal sou eu", afirmou, ao ser questionado se tinha preocupação com a trajetória da relação dívida/PIB do Brasil, que atingiu 81,9% do PIB em junho deste ano.
"Se tem uma coisa que baliza minha vida se chama responsabilidade fiscal. Tenho uma equipe econômica, que era do (Fernando) Haddad, era do Guido (Mantega) e agora é do Dario (Durigan), com muita responsabilidade fiscal", declarou.
Quando questionado sobre o assunto, o presidente de início fez questão de fazer referência aos seus primeiros dois mandatos, apesar de a pergunta ser sobre o momento atual da economia. Disse que nunca teve problema fiscal e que seus dois primeiros mandatos deixaram superávits primários anualmente.
"Dos países do G20 fui o único que fiz superávit primário durante oito anos. Nunca tive problema fiscal no País. Você acha que o Brasil está com problema de dívida pública porque chegamos a 80% (relação dívida/PIB), sabe por quê? Porque estamos há mais de dez anos sem crescer", afirmou.
O presidente, então, relativizou a trajetória da relação dívida/PIB. Disse que 80% não é um porcentual alto. Comparou com a situação de países desenvolvidos, como Estados Unidos, Japão e Itália. Ainda ironizou a imprensa por causa da independência do Banco Central.
"80% de dívida para um país não é muito se você olhar para os EUA, Japão, Itália. Sabe quanto é a dívida dos Estados Unidos? 120% do PIB, é de US$ 40 trilhões. O que é importante é que uma parte da dívida é pela taxa de juros, porque vocês defenderam a vida inteira o Banco Central independente", respondeu.
Lula culpou o governo de Jair Bolsonaro (PL) pela situação fiscal do País. Disse que "pegamos o País em uma situação que não tínhamos orçamento para governar, a PEC da transição foi para pagar rombo deixado pelo outro governo. Deixou um rombo de R$ 94 bilhões de dívida com as pessoas que nós tivemos que pagar".
O presidente não respondeu se pretende adotar alguma medida de ajuste fiscal em um eventual quarto mandato, apesar de integrantes de sua atual equipe econômica já terem indicado que isso deve ser necessário. Quando questionado sobre o assunto, Lula apenas respondeu que pretende governar o País por mais quatro anos para avançar em temas como a exploração de minerais críticos, desenvolvimento de inteligência artificial e defesa.
O plano de governo de Lula fala, de forma genérica, sobre a necessidade de ter "responsabilidade fiscal" em um eventual quarto mandato. O documento fala que, "para consolidar esse ciclo e dar um salto de desenvolvimento, é necessário continuar implementando uma política macroeconômica comprometida com o crescimento, a redução das desigualdades, a valorização do trabalho, a responsabilidade ambiental, a responsabilidade fiscal, a queda dos juros e a inflação controlada".
O programa também fala que é preciso "criar as condições para uma redução sustentada das taxas de juros, com inflação controlada e assegurando uma política fiscal responsável" para que seja possível impulsionar os investimentos e o crescimento econômico.
A forma como a campanha do presidente e candidato à reeleição lida com o assunto causou atritos há cerca de dois meses. O ex-presidente da Petrobras Sergio Gabrielli, coordenador do programa de governo, deixou de dar entrevistas após a repercussão negativa de algumas falas suas a integrantes do mercado financeiro.
Desde então, a coordenação de campanha de Lula colocou o ministro da Fazenda, Dario Durigan, como o principal interlocutor com o PIB brasileiro. O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad também é visto como uma eminência parda quando o assunto é a agenda econômica de um eventual governo Lula 4, apesar de ele estar focado em sua campanha ao governo de São Paulo.