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Política
Entrevista

Por que pessoas de baixa renda participam menos da política?

Estudo conduzido por pesquisadores da FGV, Oxford e NEOMA aponta barreiras psicológicas e falhas na comunicação institucional como causas do silenciamento

Mareu Araújo

Publicado: 27/04/2026 às 06:00

Professor Yan Vieites do Centro de Pesquisas Comportamentais da Fundação Getulio Vargas (FGV-EBAPE) /Foto: Divulgação

Professor Yan Vieites do Centro de Pesquisas Comportamentais da Fundação Getulio Vargas (FGV-EBAPE) (Foto: Divulgação)

Pessoas de baixa renda participam menos da política porque, em grande parte, não acreditam que tenham poder de influenciar as decisões políticas. É o que aponta a pesquisa do Centro de Pesquisas Comportamentais da Fundação Getulio Vargas (FGV-EBAPE) e publicada no Journal of Experimental Social Psychology.

O estudo foi conduzido pelos pesquisadores Yan Vieites, da FGV-EBAPE, Rodrigo Furst, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e Bernardo Andretti, da NEOMA Business School, da França. E tem como resultado sete estudos, sendo dois no Brasil, realizados em diferentes contextos e em 47 países.

“Nossa pesquisa mostrou que essa percepção, que chamamos de baixa eficácia política, é um dos principais mecanismos psicológicos que ajudam a explicar por que pessoas de menor renda participam menos. Não se trata de apatia, mas de uma resposta a um ambiente que historicamente as excluiu e de um contexto de reduzido controle sobre aspectos importantes das suas vidas”, explicou o professor Yan Vieites em entrevista ao Diario.

Confira:

Como o estudo desconstrói a ideia de que pessoas de baixa renda não participam da política por desinteresse?

A narrativa do desinteresse às vezes é uma resposta fácil, mas também conveniente para quem está no poder. Ainda assim, ela não resiste aos dados. Em nossos estudos experimentais, quando as pessoas passaram a acreditar que sua participação poderia fazer diferença, o engajamento aumentou de forma significativa. Isso demonstra que o potencial de participação estava presente o tempo todo. O que faltava não era vontade, mas a crença de que agir valeria a pena. Isso sugere que as barreiras não são apenas práticas, como falta de tempo ou recursos financeiros, mas também psicológicas. Desinteresse seria uma escolha. O que vemos, na verdade, é uma barreira imposta por uma realidade que nunca comunicou a essas pessoas que elas podem fazer a diferença, que sua participação tem valor e que suas vozes realmente importam.

O Brasil tem uma comunicação falha quando se comunica com a população de baixa renda?

Sim, e nossos resultados apontam exatamente para isso. A comunicação institucional sobre política no Brasil, assim como em muitos outros países, tende a ser burocrática, impessoal e distante da realidade cotidiana das pessoas. Comunicar "você tem o direito de votar" é muito diferente de comunicar "o seu voto pode mudar o resultado desta eleição". A primeira mensagem apenas informa. A segunda reconhece o cidadão como agente capaz de produzir mudança e, por isso, tem potencial mobilizador. Nossa pesquisa sugere que o estado e as instituições democráticas precisam repensar não apenas o que comunicam, mas como e para quem estão comunicando.

Houve alguma diferença notável entre o comportamento político dos participantes brasileiros em comparação aos dos outros países analisados no primeiro estudo?

O que torna o contexto brasileiro particularmente relevante é a combinação de desigualdade econômica estrutural e profunda com um sistema eleitoral de voto obrigatório. Mesmo assim, observamos que pessoas de baixa renda participam menos em outras formas de engajamento político, como assinar petições, participar de boicotes ou contatar representantes eleitos. Isso mostra que o voto obrigatório não endereça as barreiras psicológicas que reduzem o engajamento político mais amplo. O Brasil também nos ofereceu um contexto privilegiado para os estudos de campo. A eleição de 2022, extremamente disputada e com candidatos em polos opostos do espectro político, criou um ambiente em que a participação era genuinamente consequente, o que deu ainda mais peso aos nossos resultados.

Estamos em ano eleitoral. Como os partidos políticos poderiam utilizar os resultados da sua pesquisa para democratizar suas bases?

A aplicação mais direta é na comunicação de campanha. Partidos que queiram genuinamente ampliar sua base precisam repensar mensagens que pressupõem engajamento prévio, como aquelas focadas em posições programáticas detalhadas, e considerar, também, mensagens que constroem o senso de que a participação importa. Isso significa comunicar, de forma concreta e pessoal, que o voto de cada cidadão tem peso real, que pessoas de origem humilde já mudaram o rumo das eleições, e que o envolvimento político vai além do momento do voto. Nesse sentido, candidatos e lideranças de origem popular como modelo de referência que falam a língua e viveram as experiências do eleitorado de baixa renda são instrumentos poderosos de mobilização. Não como forma de inclusão simbólica, mas como sinalização genuína de que o sistema político pode ser habitado por pessoas como elas.

O sentimento de "eu não sou capaz de influenciar" é mais paralisante do que o sentimento de "o sistema é injusto"?

No nosso primeiro estudo, testamos três possíveis explicações para a diferença de participação entre indivíduos de diferentes classes sociais: a percepção de baixa eficácia política, a desconfiança nas instituições e a percepção de que as eleições são injustas. A eficácia política apareceu de forma consistente como o mecanismo mais forte. Nosso artigo não investigou diretamente por que ela supera os demais fatores, mas uma interpretação plausível é que esses sentimentos cumprem papéis distintos. Perceber que o sistema é injusto representa um julgamento sobre a realidade política. Isso pode levar tanto à apatia quanto à indignação e, em alguns casos, até estimular a mobilização. Já a eficácia política diz respeito à crença de que a própria ação pode produzir efeitos concretos. Sem essa crença, mesmo pessoas insatisfeitas ou críticas ao sistema podem concluir que participar não vale a pena.

Existe o risco de que grupos de interesse utilizem esses gatilhos de "eficácia política" para manipular populações vulneráveis?

Sim, qualquer ferramenta de mobilização pode ser usada tanto para fortalecer quanto para distorcer a democracia. Mensagens que aumentam a percepção de eficácia política podem, em tese, ser combinadas com desinformação, convencendo pessoas de que seu voto importa e, simultaneamente, fornecendo informações falsas sobre candidatos ou sobre o funcionamento do processo eleitoral. Esse é um risco real, especialmente em contextos de alta polarização como o Brasil atual.

Dito isso, acreditamos que o aumento genuíno da eficácia política é, em geral, positivo para a democracia porque reduz uma assimetria de poder que beneficia grupos já privilegiados. A participação mais ampla e diversa tende a tornar os resultados eleitorais mais representativos da população como um todo. O antídoto para o risco de manipulação não é suprimir essas mensagens, mas combiná-las com educação cívica robusta e uma imprensa livre e acessível.

Se você pudesse sugerir uma única mudança em políticas públicas baseada em seu artigo para reduzir a desigualdade política no Brasil, qual seria?

Os nossos achados sugerem caminhos promissores. Uma mudança de baixo custo, com potencial de impacto imediato e que não exigiria a criação de novas estruturas, seria reformar a comunicação institucional do TSE e da Justiça Eleitoral. O que nossos experimentos mostram é que mensagens curtas, claras e bem calibradas conseguem influenciar o comportamento político entre populações de menor renda. Apostaria, portanto, em uma comunicação que vá além de informar datas e procedimentos. Em outras palavras, não basta explicar como participar; é preciso reforçar por que participar faz diferença.

Para um impacto mais duradouro e estrutural, eu destacaria a incorporação sistemática de uma educação para a cidadania orientada à eficácia política, e não apenas à transmissão de conhecimento, no currículo das escolas públicas. Há uma diferença crucial entre ensinar sobre política, como o papel do Congresso ou o funcionamento de eleições, e ensinar que cada cidadão tem poder dentro desse sistema. Crianças e jovens de baixa renda precisam não apenas de informação, mas também de experiências concretas que fortaleçam a crença de que sua voz importa, seja por meio de participação em grêmios estudantis, simulações de processos democráticos ou contato com lideranças comunitárias vindas de contextos semelhantes aos seus. Isso não resolveria o problema no curto prazo, já que políticas educacionais produzem efeitos graduais, mas talvez seja a intervenção com maior potencial de impacto estrutural e duradouro sobre a desigualdade política.

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