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Política
Impeachment

10 anos de especulação: o impeachment de Dilma Rousseff poderia ter sido evitado?

Uma década depois, especialistas analisam se a queda da presidente poderia ter sido evitada. Economia, corrupção e eleição acirrada tornou cenário complexo

Amanda Medeiros

Publicado: 13/04/2026 às 04:02

Brasil, Brasília, DF, 15/04/2016. Deputados federais seguram faixa com os dizeres

Brasil, Brasília, DF, 15/04/2016. Deputados federais seguram faixa com os dizeres "Movimento Tchau Querida, Acabou a Boquinha", além de cartazes onde se lê "Impeachment Já" e "Tchau Querida!", durante sessão na Câmara dos Deputados para discussão do processo de impeachment da presidente da República, Dilma Rousseff (PT). Em 31 de agosto de 2016, Dilma foi afastada do cargo de após três meses de tramitação do processo iniciado no Senado, que culminou com uma votação em plenário resultando em 61 votos a favor e 20 contra o impedimento. (ANDRE DUSEK/Estadão Conteúdo)

Dentro do vórtex especulativo que entornou os desdobramentos do impeachment da petista Dilma Rousseff em 2016, estava um importante questionamento – se poderia ter sido evitado. Embora o tema não tenha necessitado dos 10 anos que o separam de hoje para ser analisado sob essas lentes, o afastamento temporal provocou especialistas a colocarem uma nova luz ao evento.

“A tempestade estava chegando e não houve a resiliência adequada para se proteger dela”, afirmou o pesquisador da UFPE e cientista político, Bhreno Vieira, ao explicar que, em termos gerais, a janela para evitar o impeachment era “bastante estreita” e de difícil contorno. Segundo ele, havia condicionantes estruturais muito difíceis de reverter no curto prazo.

Ao Diario, Bhreno as organizou em dois eixos para explicar o cenário: a forte deterioração da economia – marcada pela crise econômica entre 2015 e 2016 – e a intensificação de escândalos de corrupção – como a Operação Lava Jato e os casos de corrupção atrelados à Petrobras –, assim como fatores contingentes de outras ordens.

Além disso, o contexto era de “ressaca de uma eleição bastante acirrada”, destacou Vitor Pimenta, cientista político e doutorando da UFPR. O pesquisador observou que, em tese, existiam alternativas políticas que poderiam ter reduzido a probabilidade de uma ruptura institucional, sobretudo no campo da articulação com o Congresso, caracterizado por uma base parlamentar fragmentada e conservadora:

“Considerando um ambiente já adverso, uma estratégia mais pragmática na eleição da presidência da Câmara poderia ter evitado o aprofundamento precoce do conflito com Eduardo Cunha”, pontuou.

Os especialistas avaliam que as tensões entre o governo petista e o Congresso foram decisivas, especialmente no embate com Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados e quem acatou o pedido de impeachment. Paralelo ao quesito Cunha, também acontecia uma deterioração interna na relação com o então vice-presidente de Dilma, Michel Temer (na época, PMDB, o atual MDB), o que fragilizou ainda mais a base de sustentação política da presidente no Congresso.

Olhando essa conjuntura, dentre as ações que poderiam ter sido mais eficientes na tentativa de preservação de uma relação ‘minimamente funcional’ estava uma estratégia voltada a conter ou ao menos administrar melhor essas divergências; “por meio de maior compartilhamento de poder, alinhamento mais consistente de agendas ou fortalecimento dos canais de diálogo”, avaliou Vitor Pimenta.

“É importante ponderar que essas tensões não surgiram de forma isolada, mas estavam inseridas em um ambiente mais amplo de crise política, econômica e institucional, o que limita a possibilidade de afirmar, com segurança, que sua contenção seria suficiente para alterar o desfecho final”, complementa.

Em meio às crises internas e externas, a ex-presidente Dilma Rousseff acabou ficando “politicamente espremida”, explicou o pesquisador da UFPE, perdendo o apoio em setores sociais que esperavam a continuidade de um projeto anterior, sem necessariamente conquistar de forma estável os grupos que defendiam uma mudança de rumo.

“A margem para evitar (o impeachment) era bastante estreita, não era impossível, mas exigia uma capacidade de reação política muito elevada. Por isso, hoje sabemos, à luz desses dez anos, que o processo foi, em larga medida, muito mais produto das condições da crise política e econômica do que propriamente de um fator jurídico”, explicou o cientista Bhreno Vieira.

Do lado da oposição, o especialista da UFPR analisou que também houve coordenação, com a oposição atuando tanto dentro quanto fora do Congresso, estimulando a mobilização social em larga escala e pressionando parlamentares indecisos: “o custo político de sustentar a base aumentou muito”, avaliou

Por fim, o pesquisador aponta que é possível dizer que uma articulação mais bem sucedida, sobretudo no início do mandato e na gestão da relação com a Câmara e o PMDB (atual MDB), poderia ter reduzido o risco de impeachment.

“No momento em que a crise já estava instalada, o que se viu foi menos ausência de articulação e mais uma disputa política, em que o governo acabou perdendo a capacidade de formar maioria”, finalizou Vitor.

 

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