Braçada a braçada, Etiene Medeiros marca seu nome na história da natação brasileira
Pernambucana é dona dos maiores resultados da natação feminina do país
Publicado: 27/08/2017 às 17:45

O momento após a primeira Olimpíada é crucial na vida de um atleta. Independente de resultado final. Bom ou ruim. O auto questionamento é natural. O esforço foi enorme até chegar ali. Muita dedicação e abdicação. Valeu a pena? Uma pergunta que leva a outra. De onde tirar força e motivação para começar tudo de novo? Os Jogos Olímpicos são o ápice para o atleta. A realização do sonho de criança. Para alguns, o fim da linha. Para outros, uma parada em meio a um longo caminho. Aos 25 anos, a nadadora pernambucana Etiene Medeiros viveu um turbilhão de emoções durante os Jogos do Rio. Foi mal na prova em que tinha a maior expectativa, os 100m costas, sua especialidade, seu xodó, aquela em que entrou na água tantas vezes sonhando com a Olimpíada. “Saí dali pensando, ‘o que é que eu tou fazendo aqui?’”. Foi preciso parar, respirar e recuperar o fôlego. Havia ainda mais duas provas a disputar. A recuperação veio em escalas. Nos 100m livre, alcançou a semifinal. E, enfim, no fechamento, foi à final nos 50m livre. Ficou entre as oito melhores do mundo. Foi a única brasileira finalista da natação em piscina no Rio. Na época, desabafou. “Tirei um peso enorme das costas”.
Tudo de novo: “Me sinto mais lutadora depois dos Jogos”
"Cada competição tem seu peso, seu brilho. Os aros olímpicos são uma coisa almejada por todos os atletas e é um peso estar lá. Então, eu pude ver depois da Olimpíada que ser um atleta olímpico, ser uma semifinalista e uma finalista olímpica tem seu peso. Imagina uma medalhista. Tem que sonhar e acreditar. Eu sonhei e acreditei. Eu me sinto mais lutadora depois dos Jogos, mais responsável. Foi um momento muito especial para mim. Tanto que, depois, me senti um peixe fora d'água. Foi tão intenso aquilo, que quando volta ao normal parece outra vida. Não à toa, aprendi muita coisa e ainda estou aprendendo. A gente tá sempre nessa metamorfose. Sempre tiro uma lição de cada competição que disputo"
Não foi fácil recomeçar depois de tudo aquilo. O mais coerente para uma atleta de 25 anos, finalista olímpica, em incrível forma física, é seguir em frente. Mas os pensamentos são inevitáveis. A própria coerência é questionada. E a possibilidade de jogar tudo para o alto passa pela cabeça… É tanto esforço, tanta abdicação. Vale a pena? A razão venceu. O desafio foi aceito. Afinal, o que mais alimenta um atleta que o desafio, o sabor da superação? Atributos que fazem tão parte dele quanto o talento. Etiene decidiu encarar 2017 de uma maneira diferente. Menos exigente consigo, mais leve. A Olimpíada ensinou muito. E assim a pernambucana seguiu fazendo história.
Claro que estava no planejamento dela um resultado importante no Mundial de Esportes Aquáticos de Budapeste, em julho. Em 2015, ela havia sido prata nos 50m costas na competição, disputada em Kazan. Mas quando bateu no bloco de chegada e virou para olhar o placar, foi impossível segurar a emoção. Era campeã mundial. Sim, a decisão foi acertada. Sim, valeu a pena. “Não é um trabalho feito a curto prazo. Sonhei bastante em estar onde estou. Esse título mundial só me motiva ainda mais para conquistar resultados maiores”.
Braçada a braçada: “Quem mais me incentivou foram os meus pais”
A carreira de Etiene Medeiros é marcada pelo protagonismo. Estão no vasto currículo dela uma série de marcas inéditas para a natação brasileira. Em 2008, foi a primeira atleta do país a ir ao pódio em algum campeonato mundial, na época, da categoria júnior, levando a prata nos 50m costas. Em 2014, de uma só vez, foi a primeira mulher medalhista e campeã de um mundial em piscina curta, com o ouro nos 50m costas, em Doha, no Catar. Em 2015, levou o primeiro ouro feminino da história do país em Jogos Pan-Americanos, em Toronto, no Canadá, nos 100m costas. Logo em seguida, veio a prata no Mundial de piscina longa Kazan e, no ano seguinte, venceu novamente os 50m costas no mundial em piscina curta, em Windsor, no Canadá. Em 2017, a pernambucana foi a primeira brasileira medalhista de ouro no Mundial. Braçada a braçada, ela vai superando a si mesma, chegando onde nenhuma outra foi.
"Quem mais me incentivou, sempre, foram meus pais. Eles sempre viram que eu era um exemplo, uma menina talentosa, assim como os vários técnicos que tive. Sadler, Raul, Eurico, Nikita, assim como os outros, que incentivaram meus pais a me deixar na natação. Foram várias pessoas se somando a isso. Não foi fácil. Tenho, a princípio, meus pais (como referência) com toda educação que eles me deram para chegar onde cheguei. Tive que sair do Recife para buscar um algo mais, mas luto para que, algum dia, possamos ser uma força nacional"
Questionamentos: “Nós, brasileiros, temos que dar valor ao que a gente tem”
Os feitos de Etiene são gigantes levando em consideração o abismo de investimento na base da natação brasileira com grandes centros. O ouro mundial é o maior feito da natação feminina do país sem dúvidas. O que não livra a pernambucana de questionamentos do tipo: "Mas essa prova não é olímpica...". Os 50m costas não fazem parte do programa dos Jogos, mais enxuto. Até esteve em uma lista sugerida pela Federação Internacional de Natação (FINA) para ser disputada em Tóquio-2020, mas não foi acatada - foram incluídos o revezamento 4x100m medley misto, os 800m livre masculino e os 1.500m livre feminino. Etiene já havia ouvido algo semelhante quando conquistou o ouro no mundial de piscina curta. "Mas é piscina de 25 metros...". Confessa que os comentários já a afetaram. Hoje, não mais. "Não me aperreia não".
"Em 2014 eu ficava (chateada). Hoje mais não. Eu sou uma atleta que fui para Jogos Olímpicos, consegui quatro índices, nadei revezamento... Ninguém pode falar, 'ah não nadou uma prova olímpica'. Eu fui campeã mundial de uma prova que não é olímpica. E é isso. Eu fui campeã mundial. Tem outra atleta (brasileira) campeã mundial? Não. Nós brasileiros temos que dar valor ao que a gente tem. Às vezes, a gente tá olhando pra janela do vizinho e não dá valor ao que tem. Venho batendo nessa tecla. Tem que honrar o que tem, dar orgulho, sentir prazer em ver uma brasileira subindo no pódio, não importa se não é olímpica, é uma brasileira campeã mundial, ela tá ali, com vários atletas de outros países competindo. Mas hoje levo mais tranquilo"
Aonde Etiene quer chegar? "Tem que que pensar lá na frente"
A espera pela próxima Olimpíada é cheia de altos e baixos, certezas e dúvidas. Encarar um ciclo olímpico não é fácil. Mas é claro que a medalha olímpica está no foco de Etiene. E embora haja um planejamento ano a ano, focando em cada competição, desde que a temporada teve início, no início do ano, tudo o que vem sendo feito é pensando nos Jogos de Tóquio. Inclusive, a seleção de provas. Os 100m costas ficaram de lado, pelo menos nessa retomada - embora com promessa de uma reaproximação com o passar do tempo. O sucesso no Rio fez a nadadora e sua equipe, no Sesi-SP, voltarem as metas para as provas de velocidade. Os 50m e os 100m livre são disputas nobres nos Jogos Olímpicos. O trabalho é longo e o resultado não é imediato. Se no Mundial ela fez história nos 50m costas, nos 50m livre não chegou sequer à semifinal, com um tempo bem acima do seu melhor. Após um rápido período de férias, com uma passagem relâmpago pelo Recife, ainda aqui na cidade, os treinos começaram na última quinta-feira. Impulsionada pelos desafios, coração aquecido pelo calor da família e motivação em alta pelo ouro, Etiene está pronta para mais uma maratona.
"Perseverança. Insistência. Resiliência. Atleta tem muito disso. Que seja daqui a quatro anos, mas é construído. Hoje eu tenho o resultado, mas é algo que foi construído há não sei quantos anos. É resiliência, perseverança, apoio de amigos e família. E ter um técnico (Fernando Vanzella) e uma instituição que acreditam em você. Hoje, estou no Sesi-SP porque eles acreditaram em mim. E é dessas coisas que vem a motivação de estar indo na quinta-feira treinar pensando em 2020. Lógico que antes disso tem outros competição, tem mundial (piscina curta), mas tem que que pensar lá na frente".
Segredos? “Quero competir em alto nível até 2020. Depois, não sei”
"Tenho alguns segredos guardados. Às vezes não é bom revelar. Mas quero competir em alto nível até 2020. Depois, não sei. Quero chegar bem em Tóquio. Sou uma pessoa que constrói todos os dias, sempre ponderando tudo. Não sou uma pessoa que chego e falo 'ah, vou ser campeã olímpica'. Não é assim. É tudo uma construção. Tenho que melhorar algumas coisas no mental, outras físicas, fazer alguns intercâmbios. Isso faz parte da evolução."
A Ásia será o destino de Etiene ainda este ano. Sempre esteve nos planos da pernambucana disputar algumas etapas da Copa do Mundo de Natação. O objetivo, na verdade, era participar do circuito completo, como fazem as principais nadadoras do mundo, mas o investimento financeiro necessário é muito alto. Ainda assim, ela disputará as etapas do Japão e Singapura. Poderá medir força com suas principais adversárias. E assim ir crescendo. Como sempre fez. Braçada a braçada.