Boxe é a modalidade que banca os duelos mais caros do mundo esportivo
Confronto do século, entre Mayweather e Pacquiao, é um exemplo disso. Diante de tanto dinheiro, o Brasil arrisca perder mais talentos olímpicos para a categoria profissional
Publicado: 15/03/2015 às 10:34

Imaginar que uma orelha mordida e arrancada marcaria o mundo do boxe por muitos anos soava como utopia. Mas assim foi. A dentada de Mike Tyson em Evander Holyfield, na disputa do título dos pesados em 1997, perdurou por 17 anos. Até agora considerada a última grande luta, a vitória de Holyfield perderá o posto para o embate do século 21. Em 2 de maio, Floyd Mayweather x Manny Pacquiao entrará para o topo do rol dos grandes duelos. De longe, o boxe no Brasil assiste aos profissionais se envolverem em lutas milionárias e perde atletas elegíveis para as Olimpíadas.
O país sede dos próximos Jogos sofre com limitações: acabou se tornando um trampolim para o boxe profissional. Isso porque, para participar da disputa olímpica, o lutador precisa ser “amador”. O desvio foi feito pelos irmãos Esquiva e Yamaguchi Falcão, e também por Éverton Lopes. O primeiro foi medalhista de prata em Londres-2012 na categoria peso-médio, enquanto Yamaguchi foi bronze na médio-pesado. Os dois quebraram um jejum de 44 anos. Já Éverton foi campeão mundial amador nos meio-médios-ligeiros. Cansados da dificuldade da vida olímpica, os três se tornaram profissionais.
Éverton Lopes estava nos planos do Brasil para os Jogos do Rio, em 2016. Mas, em janeiro, o baiano anunciou que “mudaria de lado”. Ele assinou contrato com a promotora norte-americana Golden Boy e mudou para os Estados Unidos. Esquiva Falcão foi outro que não aguentou os problemas financeiros — o capixaba cogitou até leiloar a medalha conquistada nos Jogos de Londres. No fim das contas, Esquiva também assinou com uma empresa dos Estados Unidos, a Top Rank.
“Eu já estava com a carreira olímpica muito encaminhada, mas agora vejo que foi a melhor escolha que fiz. Hoje, tenho casa própria, consigo sustentar minha família, tenho o meu carro. São coisas que eu não consegui como atleta olímpico”, disse Falcão ao Correio, em dezembro.
A Confederação Brasileira de Boxe (CBBoxe) completa, neste mês, 82 anos de existência. Em nota publicada no site oficial, a entidade diz estar “na fase mais gloriosa de sua história”. São citados títulos recentes, inclusive as medalhas conquistadas em Londres. Mas a CBBoxe é limitada a atuar no boxe olímpico. O profissional não pode ser competência da instituição. “O que eu acho uma vergonha”, lamenta o tetracampeão mundial Acelino “Popó” de Freitas.
Fora da telinha
O trabalho desenvolvido pela confederação é digno de aplausos, na avaliação de Popó. O Brasil não ganhava uma medalha olímpica desde 1968, com Servílio de Oliveira. “Olhe aí o resultado. Depois de 44 anos, conquistamos medalhas”, parabeniza Acelino. A ausência de lutas na tevê aberta, porém, tem sido apontada como um dos fatores que afastaram o povo brasileiro do boxe. “Não tem grade para isso”, observa Popó.
Os canais da rede fechada geralmente transmitem os duelos, mas eles acabam canalizados para o público cativo das lutas. Como forma de trazer os holofotes para o boxe brasileiro, Popó anunciou a volta aos ringues. O pugilista ainda não tem os detalhes do retorno, mas sabe que será em Santos, na primeira semana de junho. Atualmente, depois de fracassar na tentativa de reeleição à Câmara Federal, Popó mora em Salvador.
Onde a maré está para peixe
Enquanto o Brasil pena para manter pugilistas no boxe olímpico, no profissional, a maré está para peixe. Ao menos é o que parece, quando as cifras envolvidas no confronto do século são citadas. Apenas para entrar em cena, Floyd Mayweather embolsará US$ 150 milhões e Pacquiao levará para casa US$ 100 milhões. O duelo, em 2 de maio, terá como palco o charmoso hotel MGM Grand, em Las Vegas.
O milionário confronto, contudo, pode ser uma cortina de fumaça da real situação do boxe mundo afora, principalmente nos Estados Unidos. Ainda que o boxe tenha a luta mais cara do esporte agendada para maio, especialistas e imprensa de países diversos discutem a possível morte lenta da modalidade devido, principalmente, à volta efusiva do MMA, por meio do UFC.
No país de Floyd Mayweather, o promotor de boxe Al Haymon, a partir deste fim de semana, pagará cerca de US$ 20 milhões por ano a um canal aberto de televisão para comprar espaço e televisionar assaltos de pugilistas que agencia. Jornais norte-americanos, em artigos, perguntam aos leitores se há fãs suficientes para fazer valer o investimento.
“O que é mais importante para o crescimento do esporte são eventos bem planejados. Se a luta for entre uma estrela e um cara que tem um card de cinco vitórias e 50 derrotas, ou que perdeu quatro lutas consecutivas, não há valor do entretenimento. É isso que tem feito o boxe cair”, analisou Justin Blair, produtor do programa Friday Night Fights, ao New York Times.
Na avaliação do ex-boxeador Ray Charles Leonard, a solução não é ganhar a tevê aberta. “Há muito talento por aí. Não é chegar à televisão, mas expôr o boxe a uma nova geração de fãs. Mas eles (promotores) não têm a plataforma”, opinou ao mesmo jornal de Nova York.