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CINEMA

'Grande Sertão', de Guel Arraes, traz Guimarães Rosa para a violência urbana

Longa, protagonizado por Caio Blat e Luísa Arraes e adaptado de clássico da literatura brasileira, será o filme de abertura do 28º Cine PE e já está em cartaz nos cinemas

Publicado em: 06/06/2024 14:30 | Atualizado em: 06/06/2024 16:21

 (Divulgação)
Divulgação

Um grande complexo periférico brasileiro, em um futuro indeterminado, recebe o nome de Grande Sertão e é palco de uma luta violenta e crescente entre policiais e bandidos, a qual cada dia mais se configura como uma guerra civil. Por acaso e também por amor ao jovem que conheceu ainda na infância, Diadorim (Luísa Arraes), o professor Riobaldo (Caio Blat) entra para o crime sem jamais revelar a paixão que lhe corrói há tantos anos.

 

Guel Arraes, diretor de O auto da compadecida (e da continuação que será lançada em dezembro de 2024), adapta aqui o romance antológico de João Guimarães Rosa, 'Grande sertão: Veredas', a partir da lógica urbana. Enquanto a obra do escritor mineiro, publicada em 1956, lidava com os jagunços em batalhas épicas no cenário do sertão em confronto com os soldados do governo, essa versão cinematográfica, também escrita por Jorge Furtado, se apropria da premissa, do estilo narrativo epopeico e antinaturalista e, sobretudo, dos dois personagens que movem a trama para expandir os pontos de vista da história e contemporaneizar os temas.

 

Numa subversão da estética que ficou conhecida como ‘favela movie’, Guel mantém a teatralização do texto e o caráter assumidamente alegórico e gritado da narrativa de Guimarães, mas lida com a violência urbana desse cenário escolhido com uma brutalidade cênica que remete a clássicos do gênero, tendo Cidade de Deus como principal referência nesse caso.

 

Caio Blat, escalado para o papel por Bia Lessa para sua peça também transformada em audiovisual (no filme O diabo na rua no meio do redemoinho), já está há 7 anos interpretando Riobaldo e sua entrega dramática segue como se fosse o primeiro e último personagem que interpretou na vida. Luísa Arraes segue seus passos e acredita nesse tom operístico que é a base da construção desse Grande sertão de Guel Arraes, embora nem sempre o filme equilibre bem o exagero do material e o realismo pretendido pela encenação, resultando em certa anestesia do público a partir da segunda metade.

 

Em entrevista ao Viver, o cineasta falou sobre o processo de adaptação e sobre a dificuldade de expandir os pontos de vista da trama original.

 

“Impressionante como Guimarães já nos deu tudo o que precisávamos. Quando a gente trouxe essa história dos jagunços para o ambiente urbano da periferia em guerra, expandimos o ponto de vista, que era concentrado nesses personagens apenas, para uma visão ampla que mostra também o lado dos bandidos. Isso exigiu uma estética diferente do realismo dos filmes que se passam em favelas, que geralmente possuem uma abordagem mais naturalista e quase documental. Então fizemos duas coisas fundamentais: a expansão dos pontos de vista e mantivemos esse tratamento barroco do tom, só que trazido para a cidade.

 

Guel enalteceu ainda a importância da arte – neste caso, do cinema – para refletir esses assuntos sem a obrigação de propor soluções para os problemas sociais.

 

“As soluções propostas para a questão da violência são frequentemente de longuíssimo prazo, da parte da esquerda, por exemplo, ou totalmente ineficazes, como da parte da extrema direita. O fato é que as artes não estão aí para trazer respostas e soluções, mas para refleti-las. Isto é mais uma coisa especial da obra de Guimarães: não é um tratado sociológico, é uma narrativa épica e filosófica sobre Deus e o diabo, sobre paixão e guerra, e o nosso filme, da mesma forma, não tem essa intenção de trazer soluções. A guerra é vista sob a ótica de grandes paixões e não propondo uma visão sociológica sobre aquela realidade”, afirmou o diretor.

 

Produzido por Manoel Rangel, Egisto Betti e Heitor Dhalia, Grande sertão foi escolhido para abrir o 28º Cine PE – Festival de Audiovisual e já está em cartaz nos cinemas.  Também integram o elenco do longa Rodrigo Lombardi (Joca Ramiro), Luiz Miranda (Zé Bebelo), Eduardo Sterblitch (Hermógenes), Mariana Nunes (Otacília) e Luellem de Castro (Nhorinhá).  

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